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Inimigo secreto: um Natal com o vírus bombando e novas variantes

Outra cepa, proveniente da África do Sul, faz prever que o vírus está procurando maneiras de contagiar mais gente e aponta para um fim de ano pesado

Por Vilma Gryzinski 24 dez 2020, 08h24

“Os nossos dias mais sombrios na batalha contra a Covid estão pela frente”, disse Joe Biden.

E não é só conversa de político já pensando em empurrar a culpa para o antecessor a que sucederá dentro de 27 dias.

O inverno no hemisfério norte está sendo tão ruim quanto o prognosticado pelos pessimistas.

Ou até pior. As duas variantes do vírus identificadas na Inglaterra, uma aparentemente local, outra proveniente da África do Sul, são mais contagiosas.

Provavelmente já há outras em circulação, mas ainda não foram sequenciadas. Esse é o comportamento normal dos vírus, inclusive os da família corona.

O aumento de hospitalizações e mortes no Reino Unido vai colocar na zona vermelha regiões do país onde o isolamento era menos severo.

Na Alemanha, as mortes diárias estão chegando perto de mil, muito à frente do registrado na primeira onda.

Uma cena que parecia exclusiva de países menos organizados deu um retrato triste da situação: na cidade de Zittau, corpos das vítimas do vírus começaram a ser armazenados num depósito de equipamentos de emergência porque o crematório local não estava dando conta. O número de cremações triplicou em relação ao ano passado.

Existe também um clima de revolta, ainda pouco explicitada, pela demora no começo da vacinação e a falta de doses em número necessário para imunizar o mais rapidamente possível o país com a maior população da Europa.

A revista Der Spiegel fez uma reportagem arrasadora sobre a burocracia e as decisões erradas tomadas pelos organismos da União Europeia envolvidos na encomenda e compra das vacinas.

Os 27 países membros da União têm autonomia para decidir sobre questões sanitárias, mas aprovaram que tudo seria concatenado para a vacinação, de forma a que os maiores e mais ricos – e mais rápidos também – não ficassem na frente.

Resultado: a Alemanha está atrás de países como Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Japão. Para piorar, o laboratório pioneiro que desenvolveu a primeira vacina, com a Pfizer, é alemão.

Segundo a Spiegel, a primeira-ministra Angela Merkel está em negociações privadas com o casal de cientistas que fundou a BioNTech para ver se salva a pátria.

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“Estão sendo gestadas consequências dramáticas para o governo alemão: sem capacidade de vacinação em larga escala, o país não conseguirá cortar o caminho do vírus. O que significa que o outono e o inverno de 2021 poderiam ser similares aos deste ano, com altas taxas de contágio, restrições de contato e lockdowns”, disse a revista.

O tom de exagero indica a exasperação com a demora a que o país se condenou ao se atrelar aos mecanismos supranacionais.

Mesmo na Inglaterra, pioneira na aprovação da vacina da Pfizer/BioNTech e no início da imunização, a situação não é nada animadora.

Pelo ritmo atual, levaria um ano até que toda a população das quatro nações do Reino Unido, no total de 68 milhões de habitantes, fosse vacinada.

O aumento dos contágios e a emergência de novas variantes mais infeciosas levou alguns especialistas a propor que a vacinação seja em dose única para beneficiar o maior número de pessoas.

Motivo: a primeira dose da vacina da Pfizer garante 91% de imunização; a segunda, administrada três semanas depois, eleva o nível para 95%.

“O ganho é de apenas 4%. Eu usaria a vacina muito mais agressivamente, para imunizar a maior quantidade de pessoas possível com uma dose”, disse o professor David Salisbury, ex-diretor do programa de imunização do ministério da Saúde.

O ex-primeiro-ministro Tony Blair também defendeu a ideia, propondo que o programa atual seja “alterado e radicalmente acelerado”.

Representantes do governo disseram que a ideia já está sendo discutida com os organismos reguladores – a vacina da Pfizer foi aprovada, em tempo recorde, para ser administrada em duas doses e a mudança demandaria um novo endosso.

Nos Estados Unidos, as mortes diárias alcançaram uma média de 3.400 nas últimas semanas, daí o tom pessimista do presidente eleito.

A variante do vírus proveniente da África do Sul tem uma “importante” diferença, segundo disse a presidente da Associação Médica do país, Angelique Coetzee:

“Temos visto mais pacientes jovens, na faixa dos 20 a 30 anos, especialmente entre obesos, nas UTIs, com inflamação severa”.

Não vai ser um fim de ano tranquilo para ninguém.

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