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Infeliz Natal: greves infernizam festas de fim de ano na França

Muitos não conseguirão fazer as obrigatórias viagens familiares, mas mesmo assim os franceses continuam a apoiar movimento contra reforma da previdência

Por Vilma Gryzinski 18 dez 2019, 08h10

Trem? Não tem. Metrô, nem pensar. TGV virou mito. Táxis, Ubers e carros de aluguel, obviamente, estão todos ocupados.

Ah, sim, também começaram os cortes escalonados de energia elétrica. Em pleno inverno.

Foram 50 mil domicílios em Bordeaux na noite de segunda-feira, mais 40 mil em Lyon ontem. Só um aperitivo do que ainda pode vir.

Lá se vai mais um Natal na França.

O último deu prejuízo para os comerciantes por causa dos protestos de fim de semana, em novembro e dezembro, dos coletes amarelos, com lojas fechadas, sitiadas, vandalizadas ou saqueadas.

Agora, o prejuízo é para todo mundo que precisa se deslocar por meios de transporte coletivo, os mais afetados, entre múltiplas paralisações.

Aulas e exames de fim de ano, evidentemente, estão fora de cogitação.

Os sindicatos franceses são bem organizados, fazer greve está no DNA do país e a ideia horripilante de trabalhar dois anos a mais para a aposentadoria integral, aos 64 anos, dos nascidos a partir de 1975, mantém um apoio acima de 50% às paralisações.

Mesmo quando os cidadãos são trolados descaradamente pela estatal das ferrovias, a SNCF.

“Vamos conseguir oferecer uma solução à quase totalidade de nossos clientes”, disse a diretora-geral, Rachel Picard.

E o que isso significa? Dos 850 mil passageiros que fizeram reservas de trem de 19 a 22 de dezembro, 53% conseguiram confirmação. Outros 15%, receberam proposta “alternativa” aos trajetos cancelados. Os demais 32%…

Ah, sim, são os coitados que precisam entrar no site da SNCF e tentar outra reserva. Boa sorte com isso.

A rendição dos franceses aos sindicatos é tão absoluta que falavam em “trégua de Natal”, como se esperassem uma concessão especial dos grevistas e a época fosse de guerra.

Os altos índices de apoio da opinião pública ao movimento – 54% são a favor ou têm simpatia pelas paralisações –, são relacionados à compreensível preocupação de todos os seres humanos, em especial os gauleses, com a aposentadoria.

A reforma previdenciária francesa, promessa de campanha de Emmanuel Macron, tem o mesmo motivo que a do Brasil.

Sem ela, a coisa não só quebra como compromete a ruptura do marasmo econômico de um país com infraestrutura, nível de educação e qualidade de vida incomparavelmente superiores aos do Brasil, mas menos espaço para crescer como todas as “economias maduras” sem o dinamismo dos Estados Unidos, ainda mais na era Trump.

A diferença, na França, é acabar com os 42 regimes de aposentadorias especiais, um matagal mais fechado ainda do que o do Brasil.

O mais especial entre os especiais é o regime dos ferroviários, com aposentadorias aos 52 anos para maquinistas, um direito conquistado na época em que a atividade envolvia locomotivas a lenha ou carvão.

Privatizar a SNFC – Sociedade Nacional de Estradas de Ferro –, com seus enormes custos embutidos para todos os franceses, continua a ser tabu.

Ninguém jamais imaginou que seria fácil, nem sequer Macron com sua conhecida síndrome de Napoleão.

No auge da fogueira, ele ainda teve que agasalhar um escândalo: o homem ao qual confiou a reforma, Jean-Paul Delevoye, foi obrigado a pedir demissão por fazer coisa feia.

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Mantidas as proporções, seria como se o ministro Paulo Guedes… Toque, toque, toque.

Delevoye, apelidado de “Monsieur Retraites”, omitiu várias participações remuneradas em conselhos de empresas.

Nem é preciso dizer que isso é um absurdo ético proibido, constitucionalmente, para integrantes do governo.

Ele lamentou o “erro”, a “leviandade” e os evidentes prejuízos ao projeto tão importante.

Os sindicatos festejaram. E o projeto foi apresentado assim mesmo pelo primeiro-ministro Édouard Philippe.

A supressão dos regimes especiais é progressiva, claro, “sem brutalidade, com respeito, calma e determinação”.

Os ferroviários, por exemplo, só começariam a entrar no novo regime a partir de 2037.

Para adoçar, fica garantida a aposentadoria mínima de 1 000 euros.

Ah, sim, mas impostos “solidários” para salários anuais acima de 120 mil euros. Alguém imaginava que poderia ser diferente?

Como seu quase xará Mauricio Macri, guardadas as abissais diferenças entre Argentina e França, Macron entregou um monte de anéis quando os coletes amarelos emergiram maciçamente na paisagem política, vindos da periferia para os grandes centros.

O preço dos combustíveis e as aposentadorias magras, em termos do alto custo de vida, foram alguns dos propulsores do movimento.

Invocando uma situação de emergência econômica, Macron deu bônus para os salários mais baixos, cortou impostos de um lado, subiu de outro, passou por cima do equilíbrio fiscal.

No calor do momento, parecia uma questão de sobrevivência política.

Vai segurar a onda agora ou recuar de novo, como aconteceu com todos os outros governos que tentaram fazer a reforma?

As centrais sindicais são organizações – ou seja, fazem um barulho danado e grandes manifestações de rua, mas não se deixam contaminar por black blocs ou simples saqueadores, como aconteceu com os coletes amarelos.

Também têm líderes com os quais negociar, ao contrário de movimentos espontâneos e horizontalizados.

O governo já foi logo dizendo que a “idade pivô” ou do equilíbrio, com chamam o limite de 64 anos, “é uma modalidade que propomos, mas os parceiros sociais podem propor outra”.

Em compensação, os sindicatos contam com mais fôlego e mais capacidade para infernizar a vida da população em setores vitais, inclusive os proibidos como o fornecimento de energia, contando assim atingir o governo.

Com a enorme vantagem de ter a maioria parlamentar – ou seja, não tem que ir para o balcão de negócios –, Macron só precisa aguentar firme a batalha das ruas e a da opinião pública.

Quem vai ser considerado culpado por arruinar as festas de fim de ano, ele ou os sindicatos?

Quem será o Mr. Grinch, o vilão verde da história infantil que roubou o Natal? Ou o Scrooge do livro legendário, literalmente, de Dickens?

Haja topete, Macron.

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