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Incompetentes, viciados em sexo e até duelistas; entre outros presidentes

Só para lembrar aos mais ansiosos: a história americana está repleta de líderes políticos de arrepiar

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 5 dez 2016, 11h20 - Publicado em 7 nov 2016, 17h06
Cartas à amante com um alter ego de duplo sentido: Warren Harding foi ruim por outros motivos

1921: American president Warren G Harding (1865 – 1923) and his wife, First Lady Florence Harding, watch a horse show from a balcony, Washington DC. (Photo by Hulton Archive/Getty Images)

A campanha presidencial americana, com a estonteante candidatura de Donald Trump, impressionou pelo baixo nível, deixando uma sensação de fim de linha. O sistema democrático foi dado como morto se ele vencesse e até mesmo se perdesse.

Enterrar a potência americana é uma tarefa a que muitos se entregam com regozijo algo antecipado. Mas não vamos tratar agora de como pode ser o futuro, apenas lembrar alguns fatos curiosos de um passado político que nem sempre batem com a visão de uma narrativa nacional vencedora e inquebrantável.

E o passado da presidência americana está cheio de propostas racistas, mensagens sujas, ilegalidades variadas, incompetência terminal, mortes em duelos e até azar. Este simbolizado por William Henry Harrison, que tomou posse em 4 de março de 1841 com o discurso mais longo da história presidencial. Por causa do frio de rachar do inverno de Washington, pegou pneumonia e morreu 31 dias depois.

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Warren Harding está sempre entre os primeiros lugares nas listas dos piores presidentes americanos, tanto pelo que fez quanto pelo que deixou fazer. Seus apaniguados ganharam o apelido de “gangue de Ohio” e alguns acabaram presos por assaltar os cofres públicos, incluindo concessões amigas para a exploração de petróleo.

Como Anthony Weiner, o marido viciado em sexo virtual da principal assessora de Hillary Clinton, Harding também tinha um alter ego, o nome que usava em suas estripulias. Weiner caiu de cabeça no “sexting” com o nome de Carlos Danger.

Harding escrevia à amante – cartas eram o zapzap da época – como Jerry. O codinome também valia para uma determinada parte de sua anatomia. Weiner sabe muito bem qual. “Jerry apareceu e não vai embora, diz que te ama”, provocava. “Ele é tão completamente devotado que só existe para te dar tudo”. Ah, sim, a amante era mulher de um amigo.

Fora as palavras de duplo sentido, Harding também disse que se considerava completamente não qualificado para ser presidente. Uma atribuição que muitos historiados consideram apropriada para Andrew Johnson.

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A favor de Johnson, pesa o fato de que nenhum presidente assumiu a Casa Branca em condições tão dramáticas: ao fim de uma guerra civil com 600 mil mortos – a maior crise da história americana – e em cima do corpo de Abraham Lincoln, o presidente assassinado, de quem era vice.

Contra, ele tem passivo maior. Foi condescendente com as restrições impostas pelos estados escravocratas derrotados na guerra civil e boicotou a décima-quarta emenda constitucional, que dava cidadania aos escravos recém-liberados. Sobreviveu por um voto a um processo de impeachment.

Seu xará muito mais famoso, Andrew Jackson, herói adolescente da guerra de 1812 e sétimo presidente americano, matou um rival em duelo, por causa de uma briga envolvendo cavalos e honra. Foi um dos muitos duelos em que defendeu, pelos códigos da época, a honra da mulher, que ainda não tinha se divorciado do primeiro marido quando se casou com ele.

Em outro dos mais conhecidos duelos da história americana, o vice-presidente Aaron Burr matou em 1804 Alexander Hamilton, um dos pais da pátria, os visionários fundadores dos Estados Unidos.

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Estes gênios criaram um modelo de país aparentemente à prova das maiores idiotices – tanto por parte de governantes quanto de governados. No primeiro dos 85 artigos escritos por Hamilton, John Jay e James Madison em defesa da nova constituição – reunidos sob o título O Federalista e o pseudônimo Publius -, é colocada a seguinte questão:

“Tem sido frequentemente observado que parece ter sido reservado ao povo deste país, com sua conduta e seu exemplo, decidir a importante questão de se as sociedades humanas são realmente capazes ou não de estabelecer um bom (sistema de) governo a partir da reflexão e da escolha, ou se estão para sempre destinadas a depender, para suas constituições políticas, do acaso e da força.”

É uma discussão formidável e eterna, em qualquer país que reflita sobre seus fundamentos. Ainda bem que que tem a história para nos dar um amparo nessas horas. E para quem se considerada deprimido com os casos de abusos, estripulias ou até possíveis crimes de natureza sexual que vieram à tona através de Trump, Wiener e Bill Clinton, a perspectiva histórica também ajuda.

Fora Warren Harding, que como Bill também fazia uso criativo de certos compartimentos da Casa Branca, existe o filho fora do casamento que Grover Cleveland assumiu, sem ter certeza se era dele mesmo, e virou tema de campanha de 1884.

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Lyndon Johnson, cujo vocabulário era de comediante de canal fechado de hoje, competiu em voracidade sexual com John Kennedy até depois do assassinato do presidente a quem substituiu. “Tive mais mulheres por acaso do que ele de caso pensado”, disse certa vez. O finíssimo George Bush, o pai, e Ronald Reagan, o venerado ex-ator, foram acusados de estupro.

Aparentemente, os Estados Unidos conseguiram sobreviver.

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