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Impeachment faz bem a Trump e “Chimérica” pode arrasar

Apertem os cintos, periferia: acordo comercial com a China tem o potencial de cortar as asinhas da periferia que lucra com guerra dos gigantes

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 16 dez 2019, 07h54 - Publicado em 14 dez 2019, 10h25

Já deu para perceber que o mundo vive uma realidade aumentada desde a irrupção de Donald Trump em cena. E poucas vezes houve uma realidade tão aumentada quanto na última semana. Enquanto ia a mil a comissão de Justiça da Câmara dos Representantes, onde os democratas têm maioria e portanto o privilégio de desancar Trump 24 horas por dia, preparando a votação de seu impeachment, coisas extraordinárias aconteceram.

Atenção: coisas boas que um presidente normal demoraria um tempão para conseguir, se conseguisse.

Com o anormal Trump, furioso com a armadilha que a oposição monta para ele, exposto continuamente pelos canais de televisão como um monstro traidor da pátria (aquela conversinha inconveniente com o presidente da Ucrânia) e disparando tuítes e retuítes como um maníaco (104 num único dia), registraram-se os seguintes acontecimentos:

1. Um pré-acordo com a China que pode sair na próxima segunda. Pois é, aquela guerra que todos os inimigos de Trump (os americanos, não os chineses), diziam ser inútil e deletéria, pode terminar em brindes, deixando as duas maioria economias do mundo ainda mais fortes. Imaginem uma “Chimérica” a todo vapor. Quem seguraria? Dá para ouvir daqui os arrepios da União Europeia, ainda mais agora que já estão todos emburrados com a potencial “concorrência” da Grã-Bretanha separada do resto do pacto. Só para lembrar: a Europa já está em recessão, com a máquina americana e a chinesa operando em sintonia, sobra menos para o resto.

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E não é preciso ir tão longe para ver como os produtores de matérias-primas, Brasil inclusive, tão animados com seu papel de fornecedores alternativos aos americanos, poderiam ser prejudicados.

O provérbio tradicional estabelece: quando os Estados Unidos espirram, o mundo fica gripado. Uma nova alternativa seria: quando a “Chimérica” comemora, o mundo fica de ressaca. É claro que milhões de problemas entre a hiperpotência mundial e a sua concorrente não serão resolvidos por acordos, principalmente o da espionagem e da infiltração com as quais a China quer avançar para o posto de maior gigante tecnológico do mundo. E vai ser triste ver os manifestantes de Hong Kong ficarem sozinhos com o cartaz na mão. Qualquer acordo, declarada ou tacitamente, protegerá a ilha rebelde de uma repressão à la Praça da Paz Celestial. Mas esqueçam democracia integral ou até independência, como sonham os mais ousados.

Com bolsas estourando de felicidade com um acordo mundo afora, poucos se lembrarão dos heróicos desafiadores da potência que está virando Big Brother, ou Big Father, a uma velocidade estonteante.

2. O novo Nafta, o acordo entre Estados Unidos, México e Canadá. Trump disse que o acordo vigente desde 1994 era ruim para os Estados Unidos era ruim e iria fazer outro. Foi infinitamente ridiculizado. O novo acordo foi anunciado esta semana, no auge dos preparativos para a aprovação do impeachment. Nancy Pelosi, a astuta presidente da Câmara, tentou levar os louros da vitória. Claro que, sem a aprovação dos deputados, a coisa não seria oficializada. E por que os oposicionistas resolveram ir para os finalmente, ao mesmo tempo em que fazem todo o possível para derrubar Trump, embora sem a possibilidade real, no momento, de conseguir?

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Obviamente, porque o acordo só pode ser favorável às regiões eleitores de que dependem para aquele negócio que move o mundo da política: votos (e dinheiro também, oficial e declarado, dos contribuidores de campanha interessados). O acordo, na prática, criou um mercado comum na América do Norte. Foi prejudicial para os americanos pela transferência em massa de plantas produtivas para o México, com o benefício da mão de obra mais barata.

É claro que também teve vantagens para os Estados Unidos. Foi para dar uma reequilibrada nisso que Trump propôs um novo acordo. Quem diria não? Justin Trudeau, o lindão de meias com estampas engraçadinhas? Certamente não. São 20% do PIB do Canadá bancados pelas exportações para os Estados Unidos.

Só para o Michigan, o estado do outro lado do grande lago, o Canadá exporta mais do que para toda a União Europeia. E o México, onde Andrés Manuel López Obrador caminha para entregar o que resta de estado organizado para o pode incontrolável, muito menos a poder de “abraços não balaços”, como diz o presidente esquerdista, ao narcotráfico? O Nafta, na encarnação antiga ou na nova, segura o país do destino maldito dos latino-americanos beneficiados pelo ciclo glorioso das matérias primas e depois jogados de volta na paralisia ou na recessão.

O grande irmão do Norte, destino das infinitas “maquiladoras”, garante ao México um desemprego de meros 3,6%. Comparem com o desastre pavoroso da América Central e até mesmo de países da América do Sul que não estão no buraco total, como o Brasil.

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3. Outros projetos importantes aprovados em plena ebulição do impeachment têm mais efeito interno, mas são importantes. A começar pelo orçamento, um leviatã de 4,7 trilhões – Trump não tem nada, nada de liberal conservador em matéria de gastos. Ao contrário, parece um porta-aviões inteiro de marinheiros bêbados. Mais: seis semanas de licença paternalidade para funcionários públicos federais, num país onde nem as mães tinha mais de quinze dias. Isso é da esfera de Ivanka Trump, a filha assessora.

E um projeto de Trump que parece coisa de filme de ficção científica, mas demonstra a renovação e inovação do aparato bélico que garantem a supremacia americana: a US Space Force, a força espacial que será um novo braço das Forças Armadas voltada para o que diz o nome. Tradução: verbas, verbas e mais verbas, além de status superior, para os militares e projetos de estimação. Como Trump conseguiu isso tudo num momento em que está mais acuado do que nunca?

O principal motivo já foi mencionado: pressão e o voto “tático” dos deputados democratas que forçam a barra do impeachment, mas também precisam adoçar a boca de seus eleitores, em áreas onde o presidente teve maioria em 2016- e pode ter de novo em 2020. Diante da narrativa massacrante da maioria do establisment político e mediático – Trump já era, em resumo -, é claro que a turma trumpista tenta faturar com os avanços da última semana.

Talvez, no momento, o que ele conseguiu essa semana seja ofuscado pelo impeachment”, especula Doug Wead, autor do único livro da era Trump que não retrata o presidente como um belzebu enlouquecido. “Mas quando chegar o próximo verão, o impeachment poderá ser visto como mesquinho e partidário e aumente a incrível lista de vitória com que ele disputara a reeleição.” É claro que, nos tempos atuais, um período de seis meses como o mencionado por Wead equivale a várias eras geológicas. Talvez algum geólogo político da futura “Chimérica” entenda melhor a incrível semana em que Trump acumulou, simultaneamente, triunfo e desgraça.

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