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Ilhados: vírus mutante isola Inglaterra e leva pânico a resto da Europa

O que se sabe sobre a nova cepa, principalmente a transmissibilidade mais rápida, já é suficiente para causar um medo que não foi visto nem na primeira onda

Por Vilma Gryzinski 21 dez 2020, 08h24

Faltam 370 dias para o Natal, disseram os bem humorados depois que o governo inglês proibiu familiares que moram em diferentes domicílios se reunir para a ceia e o almoço de Natal.

Perder o Natal em família pareceu até um final à altura do horrível ano de 2020. Principalmente porque coisas piores podem acontecer em decorrência da descoberta de que uma nova cepa do coronavírus já está amplamente disseminada, em especial em Londres, onde 60% dos contaminados portam a variante.

As perspectivas mais negativas são assustadoras.

Primeiro, as vacinas desenvolvidas com inédita rapidez poderiam não ser mais eficazes para o vírus onde a mutação aconteceu exatamente na espícula, a “garrinha” de proteína que ele usa para invadir as células do sistema respiratório. Por isso, as garrinhas de proteínas S são as visadas por uma série das vacinas recentemente desenvolvidas.

Segundo, a Grã-Bretanha poderia ter a cadeia de abastecimento gravemente interrompida. As imensas filas de caminhões parados, que trazem e levam de tudo para a nação-ilha, são um retrato disso.

O peru de Natal, para quem o encomendou antecipadamente, poderia ser a última refeição completa antes do desabastecimento generalizado.

Os países da Europa continental que proibiram todas as viagens procedentes da Grã-Bretanha, na tentativa de conseguir o impossível e isolar a nova cepa, estavam decidindo, em reunião de emergência como e por quanto tempo manter o isolamento.

O fato de que esse pesadelo todo esteja acontecendo nos dias finais para que saia – ou não – acordo sobre o Brexit acrescenta uma dramaticidade única.

“Caminhões parados” com suprimentos vitais para o país formavam uma imagem da consequência mais imediata e drástica do Brexit puro e duro, sem um acordo aceitável para os dois lados. Ironicamente, esta imagem já virou realidade.

Ao anunciar as novas medidas de restrição, que “amarram” os cidadãos justamente na época das festas – já reduzidas – de fim de ano, Boris Johnson e seus assessores talvez tenham usado expressões um pouco drásticas demais para convencer a opinião pública da urgência das medidas.

Diante de avaliações como “70% mais transmissível” e contaminação “fora de controle”, com o índice de infectados pela nova cepa chegando a 62% dos doentes em Londres, os vizinhos europeus, e mesmo os mais distantes, correram para fechar as portas.

Mesmo se o vírus com a mutação não causar as variantes mais graves da Covid-19, a alta transmissibilidade provocaria justamente o que foi evitado com muito sacrifício na primeira onda: hospitais superlotados e a ruptura do sistema de saúde.

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Com mais doentes, mesmo que em níveis de gravidade comparáveis aos ocorridos nas ondas anteriores, haveria mais mortes.

A nova mutação tem nome e data de “nascimento”, VUI-202012/01 (as letras em inglês são para “variante sob investigação”. Apresenta ao todo 17 mutações. Provavelmente se desenvolveu na Inglaterra.

Vírus mutantes são praticamente a própria designação desses agentes em constante transformação para realizar seu imperativo biológico: propagar-se.

“Pelo menos duas das mutações dessa variante, N501Y (pelo menos desde abril de 2020 no Brasil) e 69-70del (pelo menos desde janeiro/fevereiro na Tailândia e na Alemanha) já estavam circulando globalmente antes de se combinar nessa nova variante”, comparou Julian Tang, professor de virologia da Universidade de Leicester.

Vírus diferentes podem contagiar a mesma pessoa, levando ao surgimento de um novo híbrido, explicou o especialista.

O código genético do vírus da Covid-19 tem quase 30 mil letras e cada vez que elas se copiam, infinitamente, acontecem pequenos “erros de digitação”.

As variantes fazem parte de um jogo mais conhecido ou vieram para mudar as regras?

“Para mim, esses informes sobre a transmissibilidade da nova variante causam preocupação maior do que havia previsto”, alertou outro especialista, Paul Hunter, da Universidade de East Anglia.

“Não parece com nada que tenhamos visto até agora na pandemia”, reforçou Jeffrey Barrett, estudioso do genoma do novo vírus.

O alto teor de transmissibilidade pode explicar por que, mesmo com o confinamento em vigor, a doença não tenha refluído.

Detalhe: a variante surgida no Brasil, mencionada pelo professor Tang, uma das 23 da nova cepa, pode ser a responsável pelo aumento de até 70% na transmissibilidade.

Será que 2020 não vai acabar nunca?

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