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Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Guerra das narrativas: Trump como monstro ou baderna geral

Esta, no fundo, é a escolha colocada para os eleitores americanos que não se decidiram e vão optar entre presidente enxovalhado ou desordem dos protestos

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 20 ago 2020, 15h02 - Publicado em 19 ago 2020, 08h26

Para boa parte dos americanos – as pesquisas dizem que a maioria – a escolha já está feita. Vão de Joe Biden, mesmo que ele dê sinais de estar vacilando com a idade. 

Segundo este raciocínio, qualquer coisa é melhor do que Donald Trump.

No campo oposto, estão os eleitores que, entusiasticamente, votariam em Trump de qualquer maneira e os que tapam o nariz para seus muitos defeitos, inclusive a condução contestável da crise pandêmica.

Para estes, qualquer coisa é melhor do que um establishment democrata que abraça os protestos violentos – “pacíficos” na novilíngua -, incluindo saques, vivas ao socialismo e a obrigatoriedade de que todos os cidadãos, independentemente de seu comportamento pessoal, batam no peito e se proclamem racistas.

Em vários sentidos, a eleição do próximo 3 de novembro segue narrativas similares à de quatro anos atrás.

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Com um mandato quase cumprido, Trump continua a se apresentar como o outsider, o bilionário exaltado que é perseguido pelo sistema por lutar pelo sujeito comum que quer um emprego bom, uma bandeira nacional do lado da garagem com dois carros e o culto à América que embasa a fenomenal superpotência, agora dando sinais de exaustão.

Trump não conseguiu essa imagem de outsider sozinho. Foi e continua a ser abominado pela grande imprensa e pelas elites intelectuais e artísticas e por uma larga fatia das classes superiores.

Tudo o que jogaram contra ele, desde praticamente um livro por semana que ia “acabar” com seu governo até um processo de impeachment, acabou funcionando como uma confirmação dessa narrativa.

A desanimada convenção do Partido Democrata, condenada pela pandemia a parecer uma reunião por Zoom, é boa para os já convertidos, os que votariam de qualquer maneira em Joe Biden.

Até a vibrante Michelle Obama, que tem um status muito superior aos dos que apareceram até agora, contribuiu para a imagem que Trump quer passar de perseguido: disse que ele é o homem errado na presidência inclusive porque colocou “crianças enjauladas”. Ou seja, um monstro.

Os checadores, sempre tão favoráveis à oposição, foram obrigados a apontar o erro. A separação provisória de filhos de imigrantes pegos na travessia clandestina da fronteira foi obra do governo Obama. Inclusive as fotos usadas para espinafrar Trump datam daquela época.

Trump deitou e rolou no Twitter. Inclusive com o abominável recurso de falar sobre si mesmo na terceira pessoa.

“Alguém pode explicar a @MichelleObama que Donald J. Trump não estaria aqui, na linda Casa Branca, se não fosse pelo serviço feito por seu marido, Barack Obama”.

Quando chegar à eleição de novembro, Trump já estará carregando na ficha – justa ou injustamente – mais de 200 mil americanos mortos pelo novo coronavírus. E uma vertiginosa queda anualizada de 32,9 % na economia no último trimestre.

Como é possível que continue a ter mais de 40% das preferências e esteja encostando em Joe Biden em alguns dos estados mais importantes, os que podem carregar mais votos para o Colégio Eleitoral?

Os protestos que começaram depois da morte filmada de George Floyd, um ato chocante por si mesmo e pela simbologia da subjugação, derivaram para cenas espantosas não só de vandalismo como de ataques à própria história do país. 

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Em cidades como Portland e Chicago, eles continuam a eclodir, confirmando a imagem de descontrole e anarquia.

Ver George Washington derrubado em estátua pode ser comemorado nos ambientes universitários onde predomina o conceito de que o sistema nasceu errado e tem que ser da mudado.

Fora deles, é como um assassinato simbólico do pai da nação – e todos conhecem o lugar central que esta figura ocupa na história e na psique nacional.

Joe Biden, agora escoltado pela exuberante Kamala Harris, a candidata a vice, têm que passar a imagem de defensores do antirracismo e solidários aos protestos, sem se contaminar com a violência e o clima de ameaça existencial aos que não estão marchando com os antifas.

Precisam vender a narrativa de que tudo é culpa de Trump e eles têm o dom de curar ou cicatrizar feridas tão explosivamente expostas.

Trump tem que conciliar o aparentemente impossível: é o outsider e ao mesmo tempo o presidente da lei e da ordem, o que não deixará os antifas invadirem os bairros residenciais nem Biden confiscar as armas dos cidadãos de bem.

Quando Hillary Clinton estava com a eleição ganha, em 2016, um dos raríssimos acadêmicos que falou em favor de Trump foi Victor Davis Hansen.

Especialista na antiguidade greco-romana e em história militar, ele escreveu um livro de título autoexplicativo: ‘The Case for Trump‘.

Hansen compara Trump a ninguém menos que os heróis das tragédias gregas, conscientes de que “a expressão natural de suas personas só pode conduzi-los à própria destruição e ao ostracismo da civilização que procuram proteger”.

“No sentido trágico clássico, Trump provavelmente terminará de uma de duas maneiras, nenhuma particularmente boa: ou com feitos espetaculares mas não reconhecidos seguidos pelo ostracismo ou, mais provavelmente, com um único mandato devido ao constrangimento de seus beneficiários”.

Isso foi escrito antes da eclosão da pandemia e dos protestos.

A função de herói trágico é levar a plateia à catarse, através da projeção seus próprios sentimentos no personagem fadado a se danar.

Incinerar Trump nas urnas vai dar em catarse?

A convenção republicana que começa na semana que vem terá muito menos estrelas do que a dos democratas e o mesmo formato inevitavelmente enfadonho, pela impossibilidade da ferveção ao vivo.

Como políticos só pensam naquilo, todos estarão de olho nos candidatos a candidatos em 2024, os escolhidos para falar e representar o pensamento conservador na era contemporânea, já tendo a Casa Branca como objetivo final. 

Não existe o menor risco de que algum deles passaria por herói de tragédia grega.

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