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Guerra com data marcada? Taiwan espera intervenção chinesa em 2025

Revelação de que um pequeno continente de marines está treinando tropas na ilha adiciona elemento de tensão numa situação já explosiva

Por Vilma Gryzinski 8 out 2021, 08h56

Pode ser esta a semente de uma guerra mundial? Apesar de toda a prudência que um tema de tal magnitude exige, o fato é que não existe no mundo situação mais sensível do que a de Taiwan, a ilha que a China comunista trata como uma província rebelde e promete desde sempre trazer na marra para sua jurisdição.

A pressão, muito bem planejada e calibrada, atingiu o ponto máximo na segunda-feira, quando 56 aeronaves de guerra entraram na zona de segurança aérea de Taiwan, um tipo de provocação que vem se repetindo com intensidade crescente. Ao todo, em quatro dias, o número de aeronaves deslocadas para as manobras de provocação foi de 150, um recorde.

Ontem, como numa espécie de resposta, fontes oficiais não identificadas disseram ao Wall Street Journal que um pequeno número de marines americanos está em Taiwan para treinar forças locais em operações especiais e anfíbias.

Em agosto, o senador republicano John Cornyn tuitou, num aparente erro de digitação, que havia 30 mil tropas americanas secretamente baseadas em Taiwan. Um erro crasso, mas a reação chinesa mostrou como o regime de Xin Jinping está disposto a o que poderia ser definido em linguagem popular como chutar o pau da barraca.

O diretor de redação do Global Times, o jornal em inglês do Partido Comunista que funciona como a voz do regime para o mundo, Hu Xijin, escreveu um editorial extremamente violento.

“Se for verdade, as tropas têm que ser retiradas imediatamente e tanto o governo dos Estados Unidos como as autoridades de Taiwan devem fazer um pedido público de desculpas”, dizia o editorial.

“Caso contrário, eclodirá muito rapidamente uma guerra no estreito de Taiwan e o Exército de Libertação Popular aniquilará as forças dos Estados Unidos, libertará a ilha de Taiwan e resolverá a questão de Taiwan de uma vez por todas”.

O nível de agressividade é quase inacreditável. É claro que qualquer tentativa de “aniquilar forças dos Estados Unidos” levaria a uma conflagração que poderia redundar em guerra nuclear total – e todos os envolvidos sabem perfeitamente isso.

Agora, com a notícia do pequeno número de marines em missão de treinamento, o Global Times repetiu a dose: “Vamos ver se o Exército de Libertação Popular lança um ataque aéreo localizado para eliminar os invasores americanos”.

A tática do regime chinês é justamente infundir o terror, intimidando a opinião pública americana. Diante de um adversário tão agressivo, valeria a pena arriscar uma guerra de aniquilação mútua por causa de uma ilha do outro lado do mundo? Afinal, por este raciocínio, eles que são chineses que se entendam.

“Libertar” Taiwan faz parte da estratégia chinesa de longo prazo para se tornar a superpotência dominante, enfraquecendo os Estados Unidos no Pacífico a ponto de, eventualmente, neutralizar sua presença, garantida pela força naval superior e a aliança com todos os países que se sentem ameaçados pela China, da Austrália ao Japão.

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Na quarta-feira, o ministro da Defesa de Taiwan, Chiu Kuo-cheng, disse que a China já tem capacidade para invadir Taiwan, mas vai esperar até 2025 para minimizar o custo de uma operação dessa envergadura.

Taiwan, a antiga ilha Formosa avistada por navegadores portugueses no século dos descobrimentos, é o mais minúsculo dos Davis contra o Golias chinês. Tem 36 mil quilômetros quadrados contra os 9,6 milhões da China continental. Respectivas populações: 24 milhões contra 1,4 bilhão.

A questão envolvendo a ilha remonta à guerra civil chinesa que resultou na criação da república comunista. Derrotadas, as forças nacionalistas de Chiang Kai-chek fugiram para a ilha relativamente próxima ao continente em 1949.

Lá, o general continuou a agir como o legítimo representante do governo chinês, no que era reconhecido pela maioria dos países e dos organismos internacionais.

A situação se inverteu em 1979, quando os Estados Unidos negociaram secretamente o reconhecimento da China comunista e Taiwan foi para o limbo. Mesmo em escanteio, continuou a desfrutar da proteção americana e só por isso não foi invadida até hoje.

A grande ironia é que a China só se tornou uma potência econômica depois que passou a ser um pouco menos China e um pouco mais Taiwan, libertando as forças de mercado, sob controle estatal, para sair da miséria.

Depois que a China retomou sem nenhuma dificuldade o enclave português em Macau e obteve de volta dos ingleses a pujante Hong Kong, só Taiwan continua a escapar ao projeto de reunificação.

O modo como as garantias de autonomia dadas a Hong Kong foram solenemente ignoradas reforçou em Taiwan a rejeição a qualquer acordo negociado de reunificação. No auge dos protestos em Hong Kong, manifestações de solidariedade em Taiwan tinham uma palavra de ordem bem sucinta: “No China”.

De certa forma, a disputa por Taiwan é a última rodada de um jogo em que se enfrentaram durante décadas dois líderes chineses incrivelmente carismáticos e brutais: Mao Tsé-tung e Chiang Kai-chek.

Tudo o que os Estados Unidos não querem é ser arrastados para uma guerra por causa dessa partida final. Mas, como qualquer sinal de fraqueza será explorado pela China, precisam pelo menos demonstrar que não vão sair da mesa se houver um avanço militar sobre Taiwan. Se saírem, a ordem mundial desaba e a superpotência americana acaba.

Não são apostas baixas as que envolvem uma ilha do outro lado do mundo.

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