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Guerra ao coronavírus: Coreia ou Itália? Inglaterra ou EUA?

Táticas e estratégias são diferentes, mas o modelo italiano, adotado na Espanha e na França, é o que está funcionando pior, outros ainda vão ser testados

Por Vilma Gryzinski - 15 mar 2020, 08h52

Como é possível que a Itália, um país europeu avançado, já tenha mais de 22 mil casos comprovados do novo coronavírus, com morte na casa dos 1 500?

É um panorama devastador, pior do que o da China, onde o novo vírus fez a transição animal-humano possivelmente em novembro.

Com mais de 80 mil casos e 3 200 mortes, a China continua a ser a recordista dessa corrida que ninguém quer ganhar, mas pode ser ultrapassada, e brevemente, pela Itália em termos de letalidade.

Os italianos estão fazendo alguma coisa errada, estão pagando o preço pela alta expectativa de vida com uma doença que dizima os idosos ou o próprio vírus tem um comportamento diferente?

Todas as hipóteses devem ser levadas em conta num caso como o atual, em que a epidemia está se desenrolando diante de nossos olhos como um filme do qual não sabemos o fim.

Mas já dá para ver os resultados de diferentes estratégias.

O isolamento de Wuhan, e depois da província toda da qual é capital, Hubei, foi mais ou menos reproduzido, em fases, na Itália e agora na Espanha e na França. 

Nos três países europeus, as populações estão, em diferentes graus, confinadas, com o comércio não essencial fechado.

Mas nenhum reproduziu a capacidade chinesa de construir hospitais em dez dias, despejar equipamento hospitalar em larga escala e “inundar” o país com máscaras – as vantagens de ser a “fábrica do mundo”.

A opacidade, a censura e os erros iniciais tiverem resultados terríveis, mas a reação em massa mostrou resultados.

No último dia 7, foram registrados 99 casos em Wuhan. No ápice, nas trágicas semanas entre janeiro e fevereiro,  chegavam a 2 000 por dia. 

Na Itália, foram 3 497 novos casos entre sexta-feira e ontem.

Um documento oficial do Piemonte, reportado pelo Telegraph, estabelece que os pacientes com mais de 80 anos não serão admitidos nas UTIs se “se tornar impossível prover cuidados intensivos a todos”.

Critérios para admissão: ter menos de 80 anos ou pontuação inferior a cinco no Índice Charlson de Comorbidade, uma escala de avaliação da soma de doenças graves que indica a probabilidade de óbito, existe desde 1987 (obra da médica Mary Charlson, de Cornell, utilizada em todo o mundo).

“É um terremoto por dia”, comparou um médico italiano sobre os 60 a 80 doentes graves que recebe diariamente.

Uma comparação tem sido feita com certa frequência para tentar entender, no meio do terremoto viral, outro enigma: por que a Itália e a Coreia do Sul, a certa altura, não muito distante,  da expansão da doença, estavam “empatadas”, com certa de sete mil casos.

Mas o número de mortos não passou de 70 no país que tem um ótimo nível de desenvolvimento, mas carrega as faixas de pobreza muito bem vislumbradas no filme Parasitas.

O fator mais mencionado para o caso sul-coreano é da quantidade de pessoas testadas. O país foi pioneiro no sistema drive-through.

Como nas lanchonetes com serviço de atendimento no carro, os potenciais doentes passam em instalações isoladas, fazem o teste do cotonete e esperam o resultado. Também preenchem formulários extensos para o controle, por celular, de seus movimentos e contatos.

A ideia é agilizar os testes (uma empresa de biotecnologia desenvolveu um tipo em três semanas) e evitar o contágio justamente nos lugares mais perigosos – e vulneráveis -, hospitais e clínicas.

A força-tarefa de Donald Trump aproveitou a ideia, dando-lhe um toque americano: áreas para testes no sistema drive-through nos estacionamentos de gigantescos conglomerados de compras como Walmart e Target.

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Trump ressaltou o espírito animal da sua inciativa, cercando-se de altos executivos do varejo e da indústria farmacêutica, além de convocar o Google para fazer o que faz muito melhor do que qualquer governo, os caminhos digitais para um projeto de guerra ao vírus.

Faz parte da cultura americana. Se der certo, será a maior parceria público-privada da história.

Os europeus, ao contrário, esperam tudo do sistema de saúde pública, evidentemente sobrecarregado. 

E do governo, claro. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Suárez, chegou a especificar que a ordem de sair de casa apenas para tarefas essenciais, como trabalhar nos casos permitidos, comprar bens de primeira necessidade e cuidar de vulneráveis, incluía “não ir almoçar na casa de amigos”.

Os ingleses estão tentando um caminho próprio, cheio de perigos. Como tudo, aliás, nesse momento de incertezas.

O governo de Boris Johnson não fechou escolas e pretende adiar ao máximo medidas restritivas, calculando que vão durar muito e desafiar a paciência da população.

Só um exemplo, estarrecedor: está nos planos instar todas as pessoas acima de 70 anos a se isolarem durante quatro meses, para se proteger do risco de contágio. Repetindo: quatro meses.

Como alimentar, atender e não enlouquecer a população mais idosa, já tão evidentemente solitária?

Guerra é guerra,  insinua o governo, muito criticado depois que o principal assessor para assuntos científicos, Patrick Vallance, professor de medicina e ex-executivo farmacêutico, disse que a estratégia por trás da política de não fechamento de tudo, como no resto da Europa, era atingir a imunidade de grupo através do contágio controlado.

Deu até um número: 60 milhões de britânicos, ou seja, praticamente toda a população (66 milhões) ajudariam o combate ao vírus ao entrar em contato com ele e desenvolver anticorpos naturais, pois não dá tempo para desenvolver uma vacina para combater a crise em expansão.

A questão, justamente, seria como e quando tirar de circulação os idosos enquanto os organismos mais jovens “trabalham”.

A expressão imunidade de grupo, ou o nada simpático efeito rebanho, é usada justamente para espelhar a extensão das populações vacinadas necessárias para proteger as minorias não-vacinadas.

Mas também funciona para o desenvolvimento de imunidade natural no caso de doenças sem altas taxas de mortalidade.

A contaminação de grandes faixas populacionais é frequente nos vírus gripais, da família influenza.

Em 20019, por exemplo, 59 milhões de americanos tinham o H1N1, conhecido como gripe suína. Desses, 265 mil demandaram hospitalização e 12 mil morreram.

É claro que Vallance foi criticadíssimo por falar com naturalidade de médico sobre o assunto e os políticos perceberam que não pegou bem fazer com que eleitores se sentissem como cobaias. Ou gado.

O ministro da Saúde, Matt Hancock, tentou consertar, dizendo especificamente que a imunidade de grupo “não faz parte do nosso plano”.

“É um conceito científico, não nosso objetivo ou nossa estratégia”, especificou.

Como na guerra, só dá para saber depois se a estratégia funcionou ou não. Mas já dá para perceber o que está funcionando e o que não está.

Recursos, capacidade de liderança, conhecimento científico e cultura influenciam muito. Da mesma maneira que colocar um manequim de loja com roupa sexy e máscara cirúrgica pode funcionar em Barcelona e causar horror no Irã.

Existem muitas vidas em jogo nessa confluência. Para não falar em carreiras políticas.

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