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Foram eles? Trump promete detonar China por coronavírus

São fortes os indícios, ainda sem comprovação pública, de que a infecção teve origem em laboratório chinês e comunicação foi manipulada

Por Vilma Gryzinski 5 Maio 2020, 05h23

Esconder e manipular informações são armas da guerra psicológica usadas pelas potências mundiais e, com toda a certeza, a China tem uma enorme disposição e capacidade de fazer isso.

Mas a gravidade das acusações contra a China no caso da pandemia do novo vírus deu um salto assustador.

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Donald Trump está apostando alto em duas vertentes.

A primeira é que a doença que está atormentando o planeta teve origem acidental num laboratório de pesquisas. 

Ou seja, houve um erro não intencional, embora catastrófico. “Um erro horrível”, nas palavras de Trump.

A segunda é que as dimensões da epidemia foram deliberadamente dissimuladas para dar à China tempo de adquirir equipamentos de proteção nos mesmos países que, em questão de semanas, viriam a precisar deles desesperadamente.

Ou seja, foi uma manipulação perfidamente deliberada.

Por vir do governo Trump, as acusações são tratadas com suspeita.

Inclusive ou principalmente por órgãos da imprensa americana que abominam o presidente e enxergam, em primeiro lugar, o evidente interesse político dele, com a reeleição ameaçada, em novembro, pelo desastre econômico e as 100 mil mortes, ou mais, que segundo o próprio Trump, o novo vírus vai deixar (no momento, o número já está encostando em 70 mil).

Mas a gravidade das acusações não pode ser subestimada – nem o fato de que os Estados Unidos são o único país do mundo que podem peitar uma briga desse tamanho.

Disse Mike Pompeo, o secretário de Estado e ex-diretor da CIA: “Posso garantir de que existe uma quantidade significativa de evidência de que isso veio de um laboratório em Wuhan”.

“O Partido Comunista Chinês teve a chance de impedir que essa calamidade recaísse sobre o mundo”.

“Em vez disso, a China agiu como fazem os regime autoritários, tentando abafar, esconder e confundir”.

A tese do vazamento acidental não é nova, embora encontre resistências em várias esferas, inclusive de cientistas que conhecem o trabalho dos laboratórios.

Na verdade, foi um estudo de dois pesquisadores chineses, Botao Xiao e Lei Xiao, que levantou essa possibilidade pela primeira vez.

Argumentavam eles: o vírus não veio de um morcego ou de um animal contaminado por ele no mercado de carnes exóticas de Wuhan.

Os morcegos vendidos lá eram de outro tipo. Os vetores do vírus vinham de uma região a mais de 900 quilômetros dali. 

Tinham sido capturados nas cavernas distantes de Wuhan para ser estudados, mas houve uma falha de segurança, talvez similar a uma identificada pelos pesquisadores, quando um funcionário foi contaminado com sangue e urina de morcego.

A história mais conhecida de um “vazamento” do tipo aconteceu na Alemanha, em 1967. Um pesquisador foi contaminado com sangue de macacos usados para o estudo do vírus africano com nome alemão, originário também de um tipo de morcego.

A febre hemorrágica exógena atingiu 31 pessoas, nas cidades alemãs de Marburg e Frankfurt, além de Belgrado, então na antiga Iugoslávia.

Sete morreram e a doença ficou conhecida como vírus de Marburg.

  • Quando a erupção do novo coronavírus se espalhou, Shi Zhengli, pesquisadora do Laboratório de Virologia de Wuhan disse que repassou todos os procedimentos e podia “jurar pela minha vida” que não havia acontecido um acidente.

    Apelidada de “batwoman”, ela é uma cientista respeitada. Disse numa entrevista à Scientific American que jamais esperaria encontrar em Wuhan o tipo de amostras que recebeu em 31 de dezembro, enviadas pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

    O vírus vinha de “seus” morcegos, capturados em regiões de temperatura subtropical.

    Agora, foram recuperadas fotos “desaparecidas” do site do Laboratório de Virologia de Wuhan em que pesquisadores são mostrados no ato de capturar e dissecar morcegos, com equipamentos de segurança mínimos.

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    Também sumiu uma referência à visita de um enviado técnico da embaixada americana, Rick Switzer, que depois apontou “grave falta de técnicos e pesquisadores devidamente treinados para operar com segurança um laboratório de alta contenção”.

    Ironicamente, os Estados Unidos deram uma verba de mais de três milhões de dólares para, justamente, reforçar a segurança do laboratório – um interesse comum de todo o planeta.

    Um relatório vazado, certamente não por acaso, pela aliança chamada Cinco Olhos, os países anglófonos que operam em conjunto levantamentos de inteligência (Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia), enumeraram uma série de malfeitos da China.

    Constam da lista as pesquisas “perigosas” feitas pelo laboratório de Wuhan, destruição de amostras, mentiras sobre a transmissão de pessoa para pessoa, censura de médicos e especialistas chineses e subdimensionamento da crise sanitária.

    Nesse caso, a manipulação também consta de um estudo específico feito pelo Departamento de Segurança Nacional, o ministério criado pelos Estados Unidos depois do Onze de Setembro.

    O motivo apontado é estarrecedor: enquanto escondia o tamanho da crise, a China comprava os equipamentos de segurança que depois se tornariam tão desesperadamente disputados.

    É um estudo estatístico, apontando que a probabilidade de mudança de comportamento da China – de exportador para importador , na faixa de 95%- não pode ter sido obra do acaso.

    Números: entre 24 de janeiro e 29 de fevereiro, a alfândega chinesa fiscalizou a entrada de dois bilhões de máscaras e 25 milhões de aventais, óculos, luvas e outros equipamentos de proteção.

    Detalhe cruel: as máscaras e respiradores enviados com grande publicidade pela China para a Itália tinham sido doadas pelo país para ajudar a combater a epidemia em Wuhan. E a Itália teve que pagar pelos equipamentos.

    Nem todos os serviços de inteligência dos Estados Unidos – nada menos que dezessete – coincidem na conclusão de que o vírus escapou do laboratório de Wuhan por acaso, embora a maioria tenda a endossar a tese.

    Falta, como dizem os americanos, o “revólver fumegante”, a prova definitiva que talvez nunca venha a ser identificada se não houver, como não haverá, colaboração da China

    Os órgãos de informação dos Estados Unidos também usam instrumentos da guerra psicológica? Sem dúvida nenhuma.

    Mas também precisam responder aos mecanismos democráticos de controle. Mentir para “agradar” Trump seria um erro facilmente identificado e denunciado.

    O poder da China como potência importadora e exportadora intimida qualquer país. Membros do governo britânico já fizeram reclamações enviesadas.

    “Nunca poderemos voltar a agir como se tudo estivesse normal”, disse Dominic Raab, o ministro das Relações Exteriores que substituiu Boris Johnson durante sua doença.

    O governo da Austrália também pede uma investigação internacional.

    Mas só Trump tem condições de falar grosso, inclusive com um plano de trazer manufaturas de volta para os Estados Unidos – a Covid-19 revelou vulnerabilidades perigosas.

    Em resposta, a China reage com a nova orientação diplomática, apelidada de Lobo Guerreiro por causa de um filme de ação muito popular.

    As reações são agressivas e procuram virar o jogo. Exércitos virtuais plantam desinformação nas redes em escala global.

    Até uma animação que glorifica os chineses e ridiculariza “os americanos” – representados por uma Estátua da Liberdade semi-naufragada – foi divulgada oficialmente, pela agência Nova China.

    Diferença fundamental: tudo o que falam, distorcem e mentem já foi feito, em escala muito maior, pelos críticos do próprio governo americano, sem contar os outros países democráticos onde as reações à pandemia são escrutinadas constantemente, muitas vezes com conclusões nada positivas.

    Onde estão os chineses que fazem o mesmo em relação a seu governo?

    Certamente não escrevendo ou transmitindo nos maiores órgãos de comunicação do país.

    Também podemos presumir que as evidências prometidas pelo governo americano, se vierem a público, serão recebidas com pancadaria, ao estilo Lobo Guerreiro.

    É uma guerra de longo prazo, convulsionada no momento pela pandemia que veio da China e, entre tantas outras consequências, está esquentando a geopolítica mundial.

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