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Estaria a China mascarando a verdade sobre o coronavírus?

Informações falsas, e até com interesses ocultos, são um perigo no meio de uma epidemia, mas agora são chineses que se revoltam com atitudes do governo

Por Vilma Gryzinski - 6 fev 2020, 19h39

O mesmo governo que constrói um hospital de 60 mil metros quadrados em uma semana pode enganar seus cidadãos sobre uma das maiores emergências sanitárias da história contemporânea?

Como tantas outras coisas na China, as respostas não são simples.

Culpar o governo por negligência é uma reação natural em qualquer país. A culpa sempre é do governo, inclusive inundações bíblicas ou terremotos apocalípticos.

Na China, isso se multiplica por dez mil porque é um governo autoritário, todo-poderoso, dirigista, de partido único e, no papel, orgulhosamente comunista.

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Mas agora são os dóceis chineses, tão acostumados a cumprir as ordens que chegam de cima sem contestação, que estão revoltados.

Pelo menos os que conseguem furar a muralha de censura na internet.

O último catalisador da revolta foi a morte do primeiro médico a dar o alerta sobre as pessoas que sucumbiam a um tipo grave de pneumonia, depois identificado como um novo tipo de coronavírus.

Ele fazia parte dos oito precursores, médicos que alertaram sobre o perigo e foram advertidos pela polícia.

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Li Wenling morreu no Hospital Central de Wuhan na quinta-feira, 6. Tinha 34 anos. A reação nas redes sociais foi tão avassaladora que a notícia desapareceu dos sites onde foi publicada.

Até a própria morte do médico com carinha de menino está sendo colocada em dúvida, mas já circulam cartazes de “Li Wenliang, herói do combate à epidemia”, desenhando no estilo tradicional.

Lembram um pôster da época da Revolução Cultural maoísta, com a diferença de que os “heróis” da época eram os mais perseguiam e humilhavam quadros do partido, professores e qualquer outro suspeito de inclinações antirrevolucionárias pelo fato de terem posições ou conhecimento superiores aos da massa.

É possível dizer, nesse momento, que as autoridades chinesas demoraram a reagir – embora bem menos do que na época da última epidemia, a SARS, um vírus respiratório parecido com o corona atual, de letalidade maior, mas propagação muito menos disseminada.

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Ao verem o tamanho do perigo, despejaram recursos em quantidades chinesas – e propaganda também.

Como o chefão, o manda-chuva, o macho superdominante do gigantesco Partido Comunista, o mais poderoso líder chinês desde o próprio Mao Tsé Tung, o presidente Xi Jinping enfrenta um problema de dimensões únicas, com consequências que vão desde a morte de milhares, talvez dezenas de milhares, de pessoas, até o esfriamento de uma economia que precisa crescer a taxas chinesas.

E quando a China, a fábrica do mundo, ou mesmo apenas uma região industrial como Wuhan, para, o mundo todo diminuir a velocidade.

Tendo prometido, e entregado, um caminho de prosperidade crescente, Xi Jinping não deve ter um sono nada tranquilo com um inesperado e invisível inimigo que pode por tantas conquistas a perder, chegando, na hipótese mais negativa, a abalar o projeto de ascensão da China como superpotência dominante que tem até data marcada, 2045.

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Mesmo sem essas consequências extremas, “esta é a coisa mais parecida com uma crise existencial que Xi e o partido enfrentam desde 1989”.

A avaliação é de Bill Bishop, um jornalista americano que faz uma bem informada newsletter sobre questões chinesas.

Sempre dramático, o analista Ambrose Evans-Pritchard anunciou no Telegraph: “O coronavírus não está nem remotamente sob controle e a economia mundial está em perigo cada vez maior”.

Evans-Prichard faz uma comparação que todas as pessoas responsáveis querem evitar, simplesmente pela falta de conhecimento suficiente: o novo corona vírus “é mais parecido com a pandemia de Gripe Espanhola de 1918”.

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Mesmo com baixa letalidade, comparativamente, a propagação espantosa da Gripe Espanhola, da família do vírus influenza, contaminou 500 milhões de pessoas logo no fim da Primeira Guerra Mundial. Matou 50 milhões. No Brasil, foram 35 mil mortes, incluindo o presidente Rodrigues Alves.

É irresponsável fazer previsões enquanto uma doença epidêmica está sendo freneticamente pesquisada.

Mas o que a maioria das pessoas sentiria se estivesse, como os habitantes de Wuhan, confinada numa cidade de onde não podem sair, com as ruas vazias e os hospitais lotados, controladas por drones, às vezes recebendo “visitas” de policiais que mandam todo mundo ficar em casa, designando um único morador para sair, a cada dois dias, e comprar comida?

Quem pode dizer o que é verdade, o que é boato e o que é mentira das autoridades numa hora dessas?

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Uma das suspeitas fundamentadas do momento é que o governo da China usou seu considerável poder de pressão para intimidar não só médicos como Li Wenling como até a Organização Mundial de Saúde para não declarar um estado de emergência internacional.

O que acabou acontecendo, eventualmente, diante dos fatos.

A pressão sobre a OMS não foi a primeira. Até poções da medicina tradicional chinesa já foram aceitas pela organização mundial.

Agora, autoridades chinesas voltaram a falar em beberagens para “ajudar” a combater o corona, feitas com bílis bovina, chifre de búfalo, jasmim e outras substâncias “tradicionais” a serem administradas com a medicação padrão.

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Como não existem imprensa para fiscalizar, liberdade de expressão para contestar e outros mecanismos de sociedades livres, as ordens vindas de cima e as bobagens feitas em nível regional – poucos duvidam que os responsáveis pela região de Wuhan tentaram acobertar o tamanho da encrenca no começo da epidemia -, a informação controlada ou distorcida ajuda a boataria.

Uma das mais recentes: os números “reais” de vítimas foram divulgados, por engano e por alguns instantes, via site da Tencent. Os infectados seriam na verdade 154 mil e os mortos 24.589.

Falta de credibilidade, e de mecanismos para verificá-la, acabam provocando isso.

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