Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Espiões israelenses, veneno no Quênia, app que tudo ouve

Os novos e sujos truques para ganhar eleição são de arrepiar, só não vale fingir que antes era tudo limpinho e que o Facebook existia para fazer caridade

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 28 mar 2018, 08h18 - Publicado em 28 mar 2018, 08h17

A empresa de espionagem particular do agente aposentado de um famoso serviço de inteligência é contratada por um partido  para escavar esqueletos no armário de um candidato a presidente dos Estados Unidos.

Parece ficção, mas aconteceu de verdade: o agente é o inglês Christopher Steele, que foi do MI6, o partido é o Democrata e os esqueletos são o dossiê de veracidade ainda a ser determinada sobre relações clandestinas da Rússia com Donald Trump.

É nesse mundo obscuro onde novos truques são usados para obter o resultado de sempre – manipular o eleitorado – que Christopher Wylie, o rapaz de cabelo cor de rosa e piercing no nariz, um jovem gênio “canadense, gay e vegano”, introduziu altas complicações.

Todo mundo já sabe que ele revelou como a empresa Cambridge Analytica usou perfis do Facebook para expandir, refinar e orientar uma base de dados sobre 50 milhões de pessoas.

Só os muito distraídos, ou os que nunca usaram nenhum tipo de instrumento digital, podem ter ficado surpresos.

Alguém acha que o Facebook ou o Google existem para conectar pessoas e promover a bondade mundial, sem nenhum interesse econômico?

Que aqueles anúncios que captam os movimentos dos seus olhos brotam nas telas por coincidência, descobrindo por acaso que você faz musculação, espera um bebê e gosta de vinho branco (além de umas outras coisinhas)?

Mesmo para aqueles um tanto mais céticos, outras informações (ou especulações) de Wylie, que estava alegremente fazendo seu trabalho na empresa da qual era sócio até “receber” a iluminação por causa da eleição de Trump, são impressionantes.

Apps instaladas nos celulares, e não só do Facebook, captam os sons ambientais de onde estão os usuários.

“Por exemplo, se você está com a televisão ligada ou num lugar onde tem muitas pessoas falando ou num ambiente de trabalho”, disse Wylie em depoimento a uma comissão do Parlamento britânico..

“Não quer dizer que ouçam o que você está falando. Não se trata do processo natural de fala. Isso seria difícil dimensionar. Mas entender o contexto ambiental de onde você está para melhorar o valor contextual do anúncio.”

Traduzindo: os monopólios da indústria digital ouvem os usuários. E os usuários colaboram  para isso, provendo-lhes todo tipo de informação.

A inovação da Cambridge Analytica foi comprar perfis psicológicos feitos voluntariamente para um estudo acadêmico e “pescar” os perfis em cadeia.

A campanha de Obama fez algo parecido em 2012, ainda que sem os novos refinamentos, com autorização do Facebook. Foi unanimemente elogiada pela sofisticação em comparação com o atraso digital do adversário derrotado, Mitt Romney.

As outras revelações de Wylie são de um alcance potencialmente maior. Segundo ele, uma empresa israelense fundada por ex-agentes da inteligência militar chamada Black Cube foi contratada pela Cambridge para “vasculhar” a vida digital de Muhammadu Buhari – levantando inclusive sua ficha médica. Sem resultados: ele ganhou a eleição para presidente da Nigéria.

Continua após a publicidade

A Black Cube, que se apresenta brilhantemente como  uma empresa de “inteligência criativa”, negou tudo. Anteriormente, havia admitido e pedido desculpas por ter prestado serviços a Harvey Weinstein, fazendo campanha de intimidação e desinformação sobre algumas das atrizes que viriam a revelar o sórdido comportamento sexual dele.

Para apimentar ainda mais suas histórias, Christopher Wylie mencionou nos depoimentos os boatos que circulavam na empresa sobre a morte suspeita de um funcionário da empresa que estava prestando serviços à campanha presidencial de Uhuru Kenyatta.

O morto era Dan Murean e os boatos são de que foi envenenado em seu hotel no Quênia porque alguma coisa deu muito errado no contrato.

Podem existir “boatos” sobre qualquer coisa. Mas ficam mais intrigantes quando se leva em consideração que Murean era filho de um ex-ministro da Agricultura da Romênia, atualmente no sistema prisional por corrupção.

Dois funcionários da Black Cube foram presos em 2016 por escuta clandestina da diretora do Departamento de Anticorrupção da Romênia.

Qual a diferença entre a Black Cube e a Orbis Business Intelligence, a empresa de levantamento de dados de Christopher Steele?

Provavelmente o uso de alguns métodos consagrados pelo Mossad e correlatos, incluindo mulheres sedutoras e perigosas para fazer serviços arriscados.

O mais importante está não nas empresas em si, mas em seus clientes. O inglês Christopher Steele é tratado pelos antitrumpistas como um herói que expôs as conexões secretas de Trump com os russos, inclusive o encontro heterodoxo com prostitutas num hotel de Moscou.

Qual a diferença entre a Cambridge Analytica e o famoso casal de marqueteiros brasileiros que espalhou pela América Latina o criativo método de campanhas eleitorais financiadas diretamente pela construtora O.?

Qual a diferença entre grávidas vestidas de branco filmadas em câmara lenta contra um horizonte iluminado e vídeos de imigrantes muçulmanos “invadindo” a Europa? Não têm todos o objetivo de influenciar emocionalmente a opinião de eleitores?

Algumas revelações de Christopher Wylie devem ser investigadas e vasculhadas. Outras ficam no terreno do “pode”, chegando ao ridículo no caso do Brexit.

A campanha para que a Grã-Bretanha continuasse na União Europeia teve recursos materiais e ideológicos infinitamente maiores, incluindo a colaboração espontânea de artistas, intelectuais, economistas, acadêmicos e ganhadores do Nobel (talvez um dos motivos que aumentaram a má vontade do eleitorado).

A Cambridge Analytica “pode” ter influenciado na eleição de Trump? É claro que sim. Eleições livres costumam ter a influência de uma infinidade de fatores.

O métodos das fábricas de dossiês não tem nada de novo, como bem sabem os brasileiros. Tudo o que Wylie disse deve ser analisado e investigado. Até agora, a contribuição mais importante foi somar mais um elemento a respeito do poder infinito dos gigantes digitais.

Além de dar mais um motivo para o chororô de Hillary Clinton e a lista infindável de motivos que arrola para sua derrota. Aproveitando a época do ano, o próximo deve ser o coelhinho da Páscoa.

Continua após a publicidade
Publicidade