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Em Paris e Nova York, museus tiram obras chocantes. E agora?

A discussão está longe de acabar. Cópulas de humanos e suínos são vetadas, por motivos diferentes, pelo Louvre e o Guggenheim

Por Vilma Gryzinski - 4 out 2017, 17h48

Dois prédios fazendo sexo é o tipo de ideia que muitos artistas contemporâneos e curadores achariam ótima.

O que poderia dar errado com a instalação que ficou montada durante meses em Bochum, na Alemanha, e estava a caminho de Paris?

Para surpresa de quem acha que só nas selvas do Terceiro Mundo os experimentalismos copiados podem chocar, muita coisa.

E não foram as hordas do “populismo conservador”, execradas pelos bem pensantes como a vanguarda do atraso, que acharam a coisa imprópria.

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Jean-Luc Martinez, o badalado diretor do Louvre, considerou que o casal, estilizado e engatado na mais primal das posições, se instalado em pleno Jardim das Tuileries, criaria o “risco de não ser entendido”.

Para complicar, a instalação sexualmente explícita ficaria bem no campo de visão da área de recreação de uma escolinha infantil.

Martinez é um brucutu atrasado? Ou um diretor de museu preocupado em adequar as obras expostas ao ambiente que as circunda e ao público que as vê? Está com medo? Vai levar bronca do moderníssimo presidente Emmanuel Macron?

Em qualquer das hipóteses, não pode ser acusado de ignorar o Salão dos Recusados, o mictório de Duchamp e toda a lista de obras chocantes para os padrões da época que é evocada nessas horas como exemplo da função provocadora da arte.

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“É uma forma muito abstrata. Não tem genitais. É bem ingênua”, reclamou o holandês Joep van Lieshout, criador do coletivo – não uma forma de transporte, mas um grupo artístico – que fez o Domestikator.

A ideia do prédio que copula é mostrar “o poder da humanidade sobre o mundo e sua relação hipócrita com a natureza”.

Há três anos, outra obra promovida pela Feira Internacional de Arte Contemporânea teve repercussão pior. Paul McCarthy, homônimo do cantor famoso, estava acabando de montar um objeto inflável com forma de acessório sexual heterodoxo, na Place Vendôme, quando levou uns tapas de um desconhecido.

Como os bonecos de um certo ex-presidente, a coisa depois foi furada e acabou no chão do lugar mais chique de Paris. Atos de violência execráveis, mas que indicam, agora sem ironia, que o populismo conservador é um fenômeno mais amplo.

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As reações maciça de rejeição a determinadas obras talvez sejam o resultado de uma separação exacerbada entre o que as elites consideram aceitável ou desejável e o que boa parte do resto da população se dispõe a assimilar.

Qualquer letra de funk costuma ter mais indecências do que o prédio que copula, mas nenhuma parte tem o poder, ou o direito, de modular as reações públicas.

Para complicar, as divisões habituais entre direita conservadora e esquerda libertária muitas vezes ficam embaçadas.

Um exemplo é o caso das três obras retiradas pela direção do Guggenheim de uma exposição sobre arte chinesa contemporânea por causa da reação e das ameaças de grupos de defesa dos direitos dos animais, uma das causas mais caras ao progressismo.

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Em dois vídeos do onipresente Ai Weiwei, genial na capacidade de emular e amplificar instalações escandalosas típicas de artistas ocidentais, com a diferença que realmente chegou a ser detido quando morava na China, aparecem animais em situações que provocaram protestos.

Em um, quatro duplas de cães pitbull correm em esteiras e só não se atacam porque estão presos em coleiras apertadas. No outro, porcos copulam diante de um público humano.

Ambos têm títulos bacaninhas, tal como a terceira obra retirada pelo Gugganheim por pressão de organizações de defesa dos direitos dos animais. Em Teatro do Mundo, de Huang Yong Ping, grilos, besouros, cobras e lagartos, no sentido literal, são mostrados numa espécie de tenda coberta por tela.

Fora as cobras e lagartos, as reações foram exatamente as mesmas vistas no casos recentes no Brasil: a livre manifestação artística e seus limites quando envolvem algum tipo de abuso, o papel dos museus, o que é vanguarda e o que é uma porcaria sem referências etc etc etc.

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Defender os direitos de pitbulls, besouros e porcos é de direita ou de esquerda? E o de crianças?

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