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Elon Musk: o bilionário que encara briga contra o lockdown

É possível ser contrário ao isolamento social máximo sem ser maluco? O gênio criativo e encrenqueiro da Tesla não é a pessoa certa para responder

Por Vilma Gryzinski - 13 maio 2020, 07h46

Ele acabou de ter um filhinho ao qual deu o nome de X Æ  A-12.

Isso deveria encerrar a questão. Se o sobrenome do menino não fosse Musk, como o do pai.

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Elon Musk é o tempestuoso bilionário do mundo high tech que compra brigas por todos os lados, tem seu próprio programa espacial e agora desafiou a ordem de paralisação da Tesla, a fabricante de carros elétricos tão encrencada quanto seu criador.

A briga foi localizada, contra determinações da autoridade sanitária da região de San Francisco, que não permitiu a retomada de atividades como no resto da Califórnia, para a saída gradual do confinamento em vigor no estado.

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Musk mandou reabrir a fábrica assim mesmo. “Estarei lá na linha como todo mundo. Se alguém for preso, peço que seja só eu”.

Desafiar uma ordem de autoridades constituídas nos Estados Unidos é para os muito pequenos, que não podem ser sequer encontrados pelo longo braço da lei, ou os muito grandes.

Elon Musk, colecionador de genialidades desde os dez anos, batendo agora, aos 48, nos 40 bilhões de dólares, evidentemente é do segundo time.

As autoridades da comarca de Alameda County acabaram cedendo, aceitando uma reabertura condicionada da fábrica.

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O desafio dramático de Musk culminou uma tempestade de revolta contra a paralisação total de atividades econômicas e da livre circulação, o lockdown. 

Adjetivos pesados como “anticonstitucional” e “fascista” foram esgrimidos, com o exagero que mesmo outros simpatizantes libertários da causa no Vale do Silício prefeririam evitar.

Atenção: a fábrica, com mais de 10 mil funcionários, é um primor de alta tecnologia e foi dotada de medidas de segurança para garantir o distanciamento e evitar eventuais contágios.

Seria reaberta de qualquer maneira em poucos dias, mas Musk quis comprar a briga – uma das suas especialidades. 

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Vários governadores ofereceram vantagens fiscais, entre outras, para Musk mudar de estado, uma das ameaças que fez.

O gosto do bilionário tempestuoso para se meter em encrencas, pulando de corpo inteiro, ofereceu mais uma oportunidade para que os partidários do isolamento social, geralmente no campo progressista, pusessem os rótulos de malucos e assassinos, entre outros, nos adversários do lockdown.

As duas correntes, quando não estão em estado de surto, têm argumentos meritórios. O peso da opinião pública e de especialistas, principalmente em saúde pública, pende para o mais importante de todos: o isolamento social salva vidas.

É uma briga brava e vem desde a disseminação da pandemia – e estamos falando de países onde o estilo chutar a porta não faz muito sucesso.

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Agora, ela se deslocou para a discussão sobre o momento certo para a retomada gradual das atividades. Está fervilhando nos Estados Unidos, envolvendo política e pandemia.

A minoria contrária à paralisação, ou agora à retomada mais rápida das atividades, tem seu principal representante nas autoridades sanitárias da Suécia, que foram contra a corrente e estão segurando um rojão cujos resultados só poderão ser avaliados mais adiante.

Na Alemanha, em ritmo gradual de saída do confinamento, o jornal Bild, o maior do país, alinhou as opiniões de sete qualificados representantes do “pensamento lateral”, ou menos alinhado com o senso comum. 

Ninguém pensaria em usar a palavra negacionista para um renomado patologista alemão como o  Klaus Püscher, professor de medicina forense da Universidade de Hamburgo.

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“No final, a Covid-19 é uma doença viral como a gripe, inofensiva na maioria dos casos e fatal em casos excepcionais”.

“Será importante ver, depois da epidemia, se a Covid-19 realmente foi a causa da morte. Dos cerca de 180 óbitos por coronavírus que examinamos, todos sofriam de morbidades pré-existentes graves e não eram crianças ou adolescentes. A Covid-19 foi a gota d’água”.

Outro alemão sem travas na língua ouvido pelo jornal foi Stefan Homburg, professor da Universidade de Hanover.

“Com o lockdown, o governo federal e os governos estaduais cometeram um grande erro”.

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“Os prejuízos se acumulam a cada dia, todas as proibições precisam ser eliminadas”.

“Na Itália, a epidemia foi pior do que uma de gripe. Na Alemanha, foi menor”.

O filósofo Julian Nida-Rümelin, ex-ministro da Cultura, entrou na briga: “Com a Covid-19, os grandes números que aparecem a cada dia nos deixam assustados e perplexos”.

“Esses números precisam ser entendidos à luz de outros, como por exemplo: quantas pessoas morrem todo dia na Alemanha? Quantas morrem de ataque cardíaco? De câncer? De Covid-19?”.

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Deveria ter acrescentado: e quantas foram salvas pelo confinamento? Esta pergunta vai perdurar por muito tempo, principalmente para cobrar os governos que entraram tarde no isolamento.

Atenção, de novo: comparativamente, a Alemanha conseguiu mobilizar a máquina da saúde pública de forma eficiente e contabiliza até agora cerca de 7.700 mortes para 170 mil casos confirmados.

Nesse caso, sim, dá para comparar com as epidemias de gripe.

Desde que a epidemia começou a se expandir nos Estados Unidos, Elon Musk tem dito mais ou menos o mesmo que os especialistas alemães entrevistados pelo Bild, só que no estilo deixa que eu chuto.

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Já disse que o pânico causado pelo novo vírus “é idiota” . Depois explicou: acha que o crescimento exponencial estava sendo superextrapolado. 

“Continuem fazendo isso; o vírus acabará excedendo a massa do universo conhecido”.

Musk largou o doutorado em física em Stanford para iniciar a carreira de criação de empresas inovadoras. A mais conhecida foi a PayPal, pioneira nos pagamentos pela Internet.

Tentou manter as fábricas da Tesla em funcionamento, mas ela foram progressivamente sendo fechadas, por decisão de governadores e prefeitos.

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E o tom das reações de Musk foi subindo.

“Dizer para as pessoas que elas não podem sair de casa e que serão presas se saírem, isso é fascismo. Isso não é democracia, não é liberdade”.

Elon Musk é um visionário, como faz parte do perfil dos bilionários high tech que mudaram o mundo. 

Quer dominar a energia renovável e explorar o espaço. Já disse que “acha deprimente” uma visão do futuro que “não inclua ser uma espécie multiplanetária”.

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Tem uma legião de haters, claro.

Faz – e fala – besteiras como todo mundo – embora 40 bilhões de dólares sejam um escudo muito útil.

Sobre o nome de seu filhinho com a cantora Grimes, existe uma explicação. 

Mas o mundo já está suficientemente complicado no momento para entrarmos em detalhes.

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