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“Ele está chegando” e traz caos: a expectativa com o vírus mutante

No Reino Unido, já é concreta a possibilidade de desabastecimento; no resto do mundo, a nova variante viral abre as portas para medo de onda pior

Por Vilma Gryzinski 22 dez 2020, 07h44

Quando o vírus saído de Wuhan já começava silenciosamente a avançar sobre a Europa, em fevereiro passado, o prefeito de Florença, Dario Nardella, criou a campanha “Abrace um Chinês”. Queria combater o preconceito e a xenofobia de uma forma ingenuamente esquerdista.

Ninguém está falando agora em abraçar, ou sequer chegar perto, dos britânicos. Ao contrário, as fronteiras de dezenas de países, inclusive da Itália, estão fechadas a eles por causa da mutação detectada no SARS-CoV-2.

A Organização Mundial de Saúde, que condenou Donald Trump quando ele paralisou os voos provenientes da China no que parece uma era geológica atrás, agora disse que é “prudente” a suspensão dos contatos com os britânicos.

Provavelmente a variante já está se espalhando pela Europa e até fora dela. A política de portas trancadas atende mais a opinião pública, justificadamente assustada com um vírus “fora do controle” e “70% mais contagioso”, segundo as próprias autoridades britânicas, talvez levadas ao exagero pelo desejo de convencer seu próprio público.

O efeito mais visível do isolamento do Reino Unido foi provocado por Emmanuel Macron, ele próprio em isolamento, com Covid-19.

O presidente francês causou um enorme congestionamento de caminhões ao fechar a passagem pelo Canal da Mancha. Os cargas pesadas estão parados na região de Dover, a cidade costeira com as lindas falésias brancas, principal ponto de passagem entre Inglaterra e França.

Por causa das festas de fim de ano, os supermercados estão bem abastecidos, mas a suspensão do frete pode começar a provocar o desabastecimento de mercadorias frágeis como folhas para salada, morangos e frutas cítricas.

O Reino Unido importa 84% das frutas que consome, 47,5% dos vegetais, 37,7% da carne de porco; 29% das batatas e 18,5% do trigo. É uma dependência extrema, agravada no inverno.

A perspectiva de um Brexit puro e duro, sem acordo, já antecipava algum tipo de desabastecimento – e o congestionamento no tráfego de caminhões. Dessa maneira, haviam sido preparadas áreas para o estacionamento dos veículos, inclusive com o reaproveitamento de um aeroporto na região de Dover.

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Mas nada se compara à paralisia causada pelo medo da propagação da variante do vírus que está completando um ano de infelicidade para o mundo inteiro.

A saída proposta por Macron é uma garantia de mais caos: todos os caminhoneiros deveriam apresentar um teste negativo para o vírus.

O que fazer com os caminhoneiros que estão encalhados em Dover, um porto onde em condições normais passam 6 600 caminhões por dia? Mandar equipes ambulantes para fazer os testes?

É uma hipótese – e também uma possibilidade de fracasso retumbante, considerando-se as confusões sistemáticas do governo de Boris Johnson ao longo de toda a crise do novo vírus.

O maior temor em relação à mutação do vírus é que inutilize a única esperança de acabar com a praga, as vacinas que mal começaram a ser administradas – justamente na Inglaterra e outras nações do reino.

Das 17 mutações constatadas no vírus, oito são na proteína S, a “garrinha” que ele utiliza para se infiltrar nas células do sistema respiratório e passar a fabricar milhares de cópias de si mesmo.

Os testes com sangue doado por pessoas que foram infectadas para saber ser o organismo humano produz anticorpos contra o vírus adaptado já começaram.

Levam pelo menos um mês para dar resultados.

“Parece que o vírus deu um salto evolutivo importante e é preciso ter cuidado, estudando-o bem”, disse ao El País a pesquisadora Isabel Sola, do Centro Nacional de Biotecnologia da Espanha.

Mais uma vez, o vírus deixa o mundo na beira do abismo da ansiedade e do medo.

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