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É Natal, tocam os sinos, Obama e Trump se esfaqueiam

Presidente que sai faz birra com o espaçoso presidente que entra. Sobra até punhalada para Israel. E ainda falta quase um mês para a troca

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 24 dez 2016, 15h32 - Publicado em 24 dez 2016, 15h31

Ambos são machos alfa, embora muita gente ache Barack Obama meio intelectual demais para se enquadrar na categoria de líder da matilha. Desafiado em seu próprio território, Obama resolveu topar uma briga por meios indiretos com Donald Trump.

Com respeito zero por precedentes sobre o comportamento esperado de presidentes eleitos, Trump tem agido como se já ocupasse aquele gabinete de vidraças ovais na Casa Branca. E de maneira não só pública, como pelo Twitter. Suas iniciativas mais recentes foram momentosas.

Com uma simples tuitada, Trump anunciou nada menos do que a expansão do arsenal nuclear dos Estados Unidos. É um desafio direto à Rússia de Vladimir Putin, que havia tomado a dianteira nessa questão. Todos os adversários de Trump que até um minuto antes o acusavam, tolamente, de ser um “poodle de Putin”, passaram imediatamente a dizer que o presidente eleito provocará um apocalipse nuclear.

Antes que tivesse tempo de decidir se Trump é um sabujo mansinho de Moscou ou um maluco perigoso que desafia a Rússia com o poder nuclear superior dos Estados Unidos, esses adversários ficaram mais confusos ainda. O presidente eleito espalhou que, com um simples telefonema, havia desarticulado a enésima armação feita na ONU para prejudicar Israel.

O telefonema foi para o presidente do Egito, o primeiro líder estrangeiro a se reunir com Trump logo depois da eleição. Abdel al-Sissi entendeu perfeitamente que deveria retirar a resolução que condenava Israel pelos assentamentos espalhados no que deveria ser território de uma futura Palestina independente e desocupada (ao contrário da situação mista atual, infelizmente sem solução possível até onde a vista alcança).

Além de esperto, o general Sissi, cuja cabeça está sempre a um passo do espeto por causa da violenta disputa com os islamistas da Irmandade Muçulmana, abomina a aliança promovida por Obama com o Irã e entende desse negócio de poder do mais forte. Rapidamente, retirou a resolução.

Mas outros quatro países que integram do Conselho de Segurança no sistema de rodízio foram em frente com a resolução. Na prática, ela significa muito pouco. No longo prazo, porém, expande um pouco mais a política de deslegitimar e isolar Israel.

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Engasgado de raiva mal disfarçada, mas elegantemente acolchoada por considerações constitucionais sobre a importância da alternância de poder e outros argumentos invocados quando um adversário detestado ganha a eleição, Obama virou a mesa com seus punhos esguios na questão.

Era um jogo combinado e a resolução passou por 14 votos a favor e uma abstenção – a dos Estados Unidos. Obama saboreou uma dupla punhalada: em Trump, por ter tentado mudar uma decisão que o presidente ainda em exercício já havia tomado, e em Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, outro desafeto que não suporta.

Como Trump não só não passa recibo, como dobra a aposta, lá veio mais uma tuitada: “Quanto à ONU, as coisas serão diferentes a partir de 20 de janeiro”. É esta a data da posse dele e da saída de cena de Obama.

Até lá, o ainda presidente pretende manter a política de cordialidade encenada nos contatos públicos, como no encontro com Trump logo depois da eleição, quando ainda dava para ouvir a choradeira nos corredores da Casa Branca, e sabotagem preventiva em particular.

Entre outras iniciativas, Obama assinou uma proibição permanente de exploração de petróleo e gás em enormes áreas do Oceano Ártico e da Costa Leste. A proibição é irrevogável – pelo menos no mundo pré-Trump.

Tréguas de Natal já foram comuns entre países cristãos em conflito – a mais famosa delas, durante a I Guerra Mundial, incluiu um jogo de futebol entre ingleses e alemães. Obama e Trump não parecem dispostos a seguir a tradição.

Os sorrisos e apertos de mão de 20 de janeiro vão acabar ainda mais forçados. Como diria Ronald Reagan, a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. Ou, pelo menos, melhor do que cotoveladas em público entre o presidente que sai, lívido de raiva, e o que entra, laranja de ambição.

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