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Derrubar Netanyahu é pouco perto dos problemas que Lapid enfrentará

Um governo com partidos de direita, de esquerda, de centro e, para completar, um islamista, tem tudo para dar errado - será que vai desafiar a lógica?

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 31 Maio 2021, 11h36 - Publicado em 31 Maio 2021, 08h59

O obituário político de Benjamin Netanyahu até já criou teias na memória dos computadores dos jornalistas que cobrem o Oriente Médio: cada vez que o obstinado primeiro-ministro parece que vai cair, consegue, mais uma vez, dar nó em pingo d’água.

O homem que pode tirar Netanyahu do governo mais duradouro de Israel (de 1996 a 1999, de 2009 até agora) é Yair Lapid, o líder do maior partido de oposição, o Yesh Atid – Existe um Futuro, que ele fundou ao deixar o jornalismo para entrar na política.

Para que um futuro como planeja realmente exista, Lapid tem até quarta-feira para montar uma coalizão que, pela lógica, é completamente impossível, com três partidos de direita, dois de esquerda, dois de centro e um, mais surrealmente ainda, saído da principal corrente islamista do eleitorado palestino.

Lapid quer tanto que a contraditória coalizão dê certo que abriu mão até de ser primeiro-ministro na fase inicial do governo que tenta montar. Passou o lugar para Naftali Bennett, o carismático político da direita religiosa sionista que estaria muito mais à vontade num governo com Bibi se já não tivesse feito isso, tendo saído odiando o primeiro-ministro.

Só administrar a ambição de Bennett já seria trabalho suficiente, mas como fazer isso e, ao mesmo tempo, conciliar as irredutíveis posições de direita pura e dura do possível primeiro-ministro com as exigências de Mansour Abbas, o líder do partido Raam, identificado com a linha da Irmandade Muçulmana?

Seria, com os descontos devidos, como ter Lula e Bolsonaro no mesmo governo.

Israel tem um sistema parlamentarista que funciona bem para representar as posições político-religiosos extremamente diversas de uma população que, simultaneamente, parece ter saído da Europa Central do século 18 ou do Vale do Silício da vanguarda do 21, mas tem funcionado mal para criar um governo viável.

Em dois anos, quatro eleições deixaram o problema do mesmo tamanho.

A fragmentação não dá maioria para ninguém e os governos de coalizão são intrinsicamente frágeis. O que Lapid está tentando montar, pela convivência entre os opostos, é mais vulnerável ainda. 

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Mas Lapid tem a vantagem de ser mais alinhado com as posições do governo Joe Biden. Os Estados Unidos são a aliança de importância existencial para Israel e Lapid, que é partidário de um estado palestino e da devolução de parte dos territórios ocupados, poderia sonhar em ter com Biden a mesma sintonia que existiu entre Netanyahu e Donald Trump.

Aviso: ele é partidário teoricamente. Na prática, qualquer coisa que envolva um futuro estado palestino tem que passar por cima de uma torre babilônica de obstáculos – e também de Naftali Bennett.

Como ex-jornalista de televisão Lapid é extremamente articulado e fala de forma tão peculiar e prolongada que foi criado até um aplicativo, o Lapidrônomo, que “traduz” qualquer assunto para o jeito dele se expressar. Lapid disse que acha engraçado.

Ele já escreveu livros e peças de teatro, fez papéis pequenos no cinema e encantou o público feminino com sua estampa máscula durante os anos em que apresentou o principal programa de entrevistas da televisão israelense.

Seu próprio partido representa camadas da população urbana que não suportam a influência dos partidos religiosos em todos os assuntos do país e aspiram a uma solução que dê paz e segurança ao país, mas também não abraçam a esquerda e nem querem mini-estados terroristas  ao redor  de Israel.

Por enquanto, Naftali Bennett,  com sua personalidade ofuscante de multimilionário por esforço próprio e ex-operações especiais, estará no centro das atenções. Ele seria o primeiro-ministro nos dois primeiros anos do governo que está sendo desenhado por Lapid. Foi uma concessão para abrir Bennett e seus seis deputados.

Se a coisa durar dois anos, o que não parece extremamente provável, chegaria a vez de Yair Lapid. Na política, em qualquer lugar, dois anos são uma eternidade. Em Israel, são uma eternidade e meia.

“De tempo em tempo, precisamos parar e repensar tudo”, já disse ele num de seus lapidismos. “Toda a história é feita de pessoas que tinham certeza que sabiam a verdade, mas esqueceram que a verdade tem uma aborrecida tendência a mudar ocasionalmente sem que percebamos”.

Agora, Lapid vai ter que mostrar isso na prática.

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