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Delírio no Peru: a incrível história de Keiko Fujimori e sua família

O pai, ex-presidente, está na cadeia e a mãe, que o acusou de tortura, reconciliada hoje a apóia

Viver para acreditar: a herdeira do espantoso clã FujimoriAlmost 23 million Peruvians in Peru and abroad are expected to decide whether Keiko Fujimori, daughter of an ex-president jailed for massacres, should become their first female head of state in an election marred by alleged vote-buying and guerrilla attacks that killed four. / AFP PHOTO / LUKA GONZALES

Viver para acreditar: a herdeira do espantoso clã Fujimori

Vamos tomar fôlego para recapitular alguns episódios e personagens que cercam a vida da líder política Keiko Sofia Fujimori. Aos 40 anos, ela pode se tornar a próxima presidente do Peru. Ganhou no primeiro turno, com 39% dos votos. No segundo, disputará com Pedro Pablo Kuczynski, que teve 24%.

Só para lembrar: Keiko já disputou uma eleição presidencial, em 2011, e perdeu para Ollanta Humala. Dessa vez, parece ter mais chances.

Mas tudo que parece ser alguma coisa pode ser outra completamente diferente. No Peru e em outros países latino-americanos. Keiko, por exemplo, já teve bastante poder quando se tornou primeira-dama do Peru, aos 19 anos, tomando o lugar da mãe, que voltou a usar o nome de solteira, Susana Higuchi. O pai e ex-marido era Alberto Fujimori.

A separação dos pais de Keiko foi um dos descasamentos políticos mais movimentados da história, incluindo o divórcio do rei Henrique VIII. Ao rejeitar a rainha Catarina de Aragão, o rei provocou o grande cisma entre a Inglaterra e a Igreja Católica, incluindo a iteração reconhecida como igreja anglicana, um substituto político-religioso para as instituições romanas que moldou uma nova narrativa nacional para os ingleses.

Susana e Alberto, ambos engenheiros descendentes de japoneses que emigraram para o Peru na mesma onda dos que chegaram ao Brasil, romperam espetacularmente em 1992, no segundo ano do primeiro mandato dele. Susana acusou os irmãos de Fujimori de subtrair roupas enviadas pelo Japão para ajudar desabrigados. Disse depois que o marido a torturava com choques elétricos, mostrando marcas na nuca.

Fujimori anunciou a separação pela televisão. As instituições democráticas, sempre tão superficiais em nossos países, ainda funcionavam e a guerra de informações entre o casal foi espetacular.

Keiko tornou-se a primeira-dama oficial e passou a acompanhar o pai, em compromissos públicos, com decotes cada vez mais profundos e joias cada vez maiores. Existe um video inesquecível dela dançando a conga com Hugo Chávez, no ano 2000.

Fujimori, um populista de direita, se entendia perfeitamente bem com Chávez, um populista de esquerda. Pontos em comum entre os dois amigos: mudanças constitucionais para favorecer o respectivo enquistamento no poder, controle dos meios de comunicação de forma a eliminar qualquer jornalismo independente, submissão do sistema judiciário e corrupção em escala telúrica. E migalhas para os pobres que constituem a base do populismo distributivista do dinheiro dos outros.

Só para dar uma ideia da proximidade entre Fujimori e Chávez, o chefe dos serviços secretos e eminência parda do presidente peruano, Vladimiro Ilich Montesinos – os país eram gregos comunistas que homenagearam Lênin no nome do filho – contrabandeava armas para as Farc, guerrilha da Colômbia intimamente ligada aos bolivarianistas.

Montesinos, depois de temporada no sistema prisional e fugas, entre outras atividades como agente de inteligência a soldo, havia se tornado o braço direito de Fujimori. E o esquerdo também, uma vez que funcionava nos dois lados do espectro político. Sua queda foi iniciada com uma gravação na qual aparecia subornando um deputado para sair da oposição e passar a apoiar o governo – lembra algum outro país?

Fujimori acabou despencando junto com Montesinos. Não sem antes suspender a Constituição  e fechar o Congresso, mandando um tanque entrar no Senado. Também dissolveu o judiciário e mandou prender políticos oposicionistas e sequestrar jornalistas. Desde então, um grito silencioso clama nos corações dos democratas: não vai ter auto-golpe.

O controle sobre todas as instituições não funcionou quando o escândalo de corrupção aflorou e Fujimori já estava foragido quando o Congresso se reuniu em segredo para cassar seu mandato. A renúncia enviada por fax não foi aceita.

Asilado no Japão, tramou voltar ao Peru e ao poder, via Chile, onde surgiu de surpresa em 2005. Dois anos depois, a Suprema Corte chilena decidiu por sua extradição. A lista de crimes pelos quais foi julgado no Peru é de dar inveja a qualquer residente involuntária do sistema prisional de Curitiba. Ainda está cumprindo pena de 25 anos.

Enquanto todas essas coisas aconteciam com seu pai, Keiko Fujimori foi estudar administração de empresas nos Estados Unidos, onde se casou com o americano Mark Villanella, que depois ganhou cidadania peruana. Por incrível coincidência se tornou dono de uma imobiliária altamente bem sucedida.

De volta ao Peru, Keiko  elegeu-se deputada e assumiu a herança política do pai. Que tem muito valor agregado. A enorme maioria dos peruanos apóia a maneira, brutal e eficaz,  como Fujimori e Montesinos conduziram o desmantelamento do Sendeiro Luminoso.

A organização armada ultra-maoísta travou uma guerra violenta não só contra o regime – qualquer fosse – como contra a população mais humilde do isolado e montanhoso interior peruano. Vilarejos inteiros eram massacrados se não demonstrassem imediata e total lealdade a suas alucinadas ordens. O número de vítimas vai de 24 mil até quatro vezes mais.

Fujimori, chamado de El Chino, também era o tipo de populista que visitava bairros pobres de caderninho na mão, anotando queixas.

Keiko perdeu a primeira eleição presidencial de 2011 para Ollanta Humala, cuja campanha foi articulada por Luis Favre. Na campanha desse ano, Favre foi, digamos, assessorar outro candidato de esquerda, César Acuña, mas houve desentendimentos e ele foi renunciado.

Favre é o argentino de muitas ex-mulheres, incluindo a senadora Marta Suplicy. Ele vivia em Paris, de onde foi enviado pela Quarta Internacional, organização trotsquista, para comandar seus seguidores no Brasil. Aproximou-se intimamente do PT, em especial do ex-presidente e seu principal mentor, hoje recolhido em temporada prisional.

Quarta Internacional, que como entre os cristãos divididos por concílios estabelece a adesão a congressos comunistas não esclarece muita coisa no mundo ultra-fracionado do trotsquismo. Conhecido por atrair pessoas excepcionalmente inteligentes com ideias excepcionalmente erradas para conquistar o mundo, o trotsquismo produziu na Argentina um fenômeno peculiar.

Um de seus dirigentes, José Posadas, criou uma seita trotsquista que pregava a existência de extra-terrestres comunistas. Isso mesmo, ETs comunistas viviam entre nós e deviam ser chamados de “companheiros”. Talvez tivesse uma certa dose de razão. De qualquer maneira, ele deu origem à Quarta Internacional Posadista.

Vamos inspirar, expirar e voltar ao Peru. Keiko Fujimori reconciliou-se com a mãe, Susana, que durante algum tempo foi também deputada. Susana disse que partiu dela, exclusivamente, a iniciativa de pedir à filha que a substituísse como primeira-dama.

Assim, tenta neutralizar os adversários que exploram o tratamento de Keiko à mãe, quando aparecia traumatizada e hospitalizada. Susana apelou até a Mario Vargas Llosa, o escritor duas vezes derrotado em candidaturas presidenciais, para que “deixe de ressentimentos” e apoie a filha dela.

Vargas Llosa considera a candidatura e possível vitória de Keiko um atraso trágico para o Peru, o qual, como um personagem de seus maravilhosos livros, tenta salvar periodicamente. Em vão. O Nobel de Literatura de 2010, radicado na Espanha, tem aparecido ultimamente por causa do relacionamento estável que vive com Isabel Preysler, beldade filipina que foi casada com um então jogador de futebol e futuro cantor chamado Julio Iglesias. Tiveram três filhos. O nome de Vargas Llosa também surgiu entre os Panama Papers. Ele negou ter qualquer conhecimento.

O segundo turno da eleição presidencial no Peru será em 5 de junho.

Talvez até lá consigamos absorver algo das biografias e das conexões de personagens rapidamente citados aqui. Relembrando: Alberto, Susana e Keiko Fujimori, Ollanta Humala, Hugo Chávez, Vladimiro Montesinos, Luis Favre, o mais recente ex-presidente brasileiro e seu mentor, Marta Suplicy, José Posadas, Mario Vargas Llosa, Isabel Preysler e Julio Iglesias.

Talvez da próxima vez dê para falar de Abimael Guzmán, ou presidente Gonzalo, o ex-professor de filosofia que liderou o Sendeiro Luminoso. Durante seu julgamento, aparecia numa jaula, vociferando. Está preso pertinho de Alberto Fujimori, em Callao.

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