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Debate dos vices: vencedor será conhecido em 2024

Depois que Donald Trump implantou o método do debate-bomba, Mike Pence e Kamala Harris revivem tradição respeitosa enquanto estão de olho no futuro

Por Vilma Gryzinski - 8 out 2020, 07h36

Alguém se lembra de Tim Kaine?

Até muitos americanos vão precisar fazer um esforço danado para localizar o senador de Virginia como o candidato a vice de Hillary Clinton.

Mas ser o segundo de uma chapa perdedora não significa obrigatoriamente se transformar num rodapé bem curtinho nos livros de história política.

Tanto Mike Pence quanto Kamala Harris, que se enfrentaram num debate ao estilo tradicional – estridente, mas sem pancadas retóricas – têm cenários teoricamente promissores.

Na hipótese considerada a mais plausível devido aos resultados das pesquisas, Joe Biden é eleito e Kamala ganha um lugar de destaque devido a suas qualidades intrínsecas e extrínsecas – mulher; parte negra, parte indiana; ótima para discursos combativos devido à experiência como promotora pública; visual imbatível.

Terá uma plataforma muito poderosa para se candidatar a presidente em 2024.

Isso se um presidente que terá 78 anos no dia da posse aguentar o rojão até o fim dos quatro anos de mandato.

Dos catorze vices que se tornaram presidentes, quatro foram pelo voto e oito por assassinato ou doença do titular.

Devido à idade e ao risco do coronavírus, Joe Biden está fazendo uma campanha praticamente sem povo, o que implicou em diminuir também o papel de Kamala, para não contrastar demais suas limitações com a energia de uma mulher inteligente e dinâmica de 55 anos.

O maior risco que ela correu com o debate foi justamente ressaltar, indiretamente, a pobreza de discurso e de posicionamento de Joe Biden.

Mike Pence não tem o mesmo ímpeto de Kamala, mas também está pensando naquilo: 2024. A mosca que pousou em sua cabeleira branca durante o debate é, metaforicamente, azul.

Se Donald Trump sofrer uma derrota catastrófica, ele poderá se colocar como o revitalizador dos republicanos mais conservadores, representante do trumpismo sem Trump – e também sem o apelo emocional que o presidente insufla entre seus seguidores mais entusiasmados.

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No caso de Trump de conseguir virar o jogo, sua fidelidade ao presidente será recompensada com uma posição garantida entre os aspirantes à Casa Branca. 

Kamala e Pence têm trajetórias interessantes.

O vice, originalmente democrata, foi ficando mais conservador sob a influência das ideias de Ronald Reagan. 

Tornou-se evangélico na faculdade de direito, para desgosto da mãe, de família católica irlandesa. 

Foi ridicularizado quando disse que evitava ficar sozinho com outras mulheres que não a sua em almoços ou jantares, para não incorrer em tentação.

Antes de ser eleito governador de Indiana, tinha um programa de rádio. Foi escolhido para a chapa de Trump com o endosso de Melania, que o considerou o candidato mais fiel, sem agenda própria e sem um perfil de fazer sombra ao presidente.

Kamala Harris teve uma pré-candidatura ruim nas primárias democratas: foi perdendo intenções de voto e acumulando dívidas. Seu único momento de destaque foi quando massacrou Joe Biden num debate sobre o transporte de crianças negras para promover a mistura racial em escolas de maioria branca.

“Eu era aquela menina”, disse ao então adversário, que tinha sido contra ao modelo usado na época.

Na verdade, Kamala teve muito pouco de criança desfavorecida pelas disparidades raciais. Seu pai Donald, jamaicano, é professor emérito de economia em Stanford. A mãe, Shyamala Gopalan, nascida na Índia, foi uma pesquisadora biomédica conhecida pelo trabalho com receptores hormonais de câncer de mama.

Kamala também teve uma introdução heterodoxa no mundo político, tendo sido nomeada para um organismo de assessoria médica pelo namorado, Willie Brown, deputado estadual da Califórnia e primeiro prefeito negro de São Francisco.

Ela mais do que provou ter méritos próprios em sua carreira como promotora, independente de indicações políticas. 

O debate de ontem mostrou que também aprendeu muito desde sua pré-candidatura confusa e apagada.

Em política, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, a partir de 3 de novembro, o dia da eleição, todo mundo já estará pensando em 2024. E os dois debatedores demonstraram qualidades para estar no jogo.

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