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Covid: Chile fez tudo certo e está dando tudo errado; qual o motivo?

Fronteiras fechadas e lockdown com direito a apenas dois dias de saída por semana são as medidas drásticas para controlar nova onda

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 abr 2021, 08h14 - Publicado em 5 abr 2021, 08h04

No começo de março, o Chile era citado como exemplo de país com programa avançado de vacinação, ao contrário dos vizinhos sul-americanos.

Sebastián Piñera, o presidente prostrado por uma massacrante rejeição de 90% da população chilena, era elogiado até por adversários.

Agora, no começo de abril, o país está fechado – ninguém entra e ninguém sai sem autorização especial – e com a maioria da população de volta ao confinamento. Dessa vez, tão estrito que as pessoas só podem sair de casa duas vezes por semana para comprar produtos de primeira necessidade.

Com sete milhões de seus 19 milhões de habitantes vacinados, num programa que chegou a ser o mais acelerado do mundo, o Chile deveria estar em situação muito menos precária. O que aconteceu?

Como tantas coisas nessa pandemia, as respostas são complexas. 

A rapidez de Piñera em garantir um bom estoque de vacinas foi contrabalançada por uma multiplicidade de fatores negativos, incluindo uma reabertura considerada precoce nas restrições de movimento; o problema comum aos países latino-americanos de grande quantidade da população na economia informal e até uma espécie de cansaço coletivo, um componente psicológico que não pode ser subestimado.

Também é possível, embora não haja testes genéticos comprovando, que a variante brasileira tenha entrado no país e propulsionado o aumento dos contágios.

Outro motivo especulado, e que deve ser tratado com o maior cuidado para não induzir a conclusões erradas: a eficácia comparativamente mais baixa da CoronaVac, a vacina mais empregada no Chile.

Se a vacinação disparou a partir de fevereiro, o número de casos deveria cair gradualmente, como aconteceu em Israel e no Reino Unido, onde são usadas as vacinas da Pfizer e da AstraZeneca, majoritariamente.

Na Turquia e no Paquistão, onde também é usada a vacina produzida pela Sinovac, o mesmo fenômeno está acontecendo. 

No Paquistão, com a curiosidade que tanto o presidente quanto o primeiro-ministro tiveram Covid-19 depois de tomar a vacina – casos similares ao de Alberto Fernández, o presidente argentino que recebeu as duas doses da Sputinik V e testou positivo na sexta-feira passada.

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O uso emergencial da vacina da Sinovac, que ampliou sua capacidade de produção para dois bilhões de doses, ainda não foi aprovado pela Organização Mundial de Saúde.

Como ela não é usada em nenhum país rico, excetuando-se Hong Kong, que faz parte da China no papel, mas não no histórico de alto desenvolvimento, as atenções estão focadas mais nos problemas enfrentados pela vacina da AstraZeneca.

Primeiro, países europeus importantes contestaram a eficácia da vacina desenvolvida pela Oxford  para as pessoas acima de 65 anos. Foram corrigidos pela própria Agência Europeia de Medicamentos, mas em seguida aconteceram algumas dezenas de casos de embolia entre mulheres mais jovens, levando à inversão de recomendação: boa para os idosos, suspeita para os mais jovens.

A Oxford/AstraZeneca ainda não foi aprovada nos Estados Unidos. Para complicar, houve um incidente que não envolve a farmacêutica diretamente, mas contribui para aumentar o clima de desconfiança.

Numa intervenção rara, o Departamento de Saúde interferiu na produção da empresa Emergent BioSolutions devido a um incidente grave: houve uma mistura acidental das vacinas da Johnson & Johnson e da AstraZeneca, o que invalidou quinze milhões de doses.

Por determinação do governo, o que não é comum nos Estados Unidos, a Johnson & Johnson assumiu a responsabilidade pela produção da Emergent, que tinha recebido mais de 600 milhões de dólares de fundos oficiais para ampliar sua capacidade de produzir vacinas de outros laboratórios – a AstraZeneca, aguardando a aprovação, já estava antecipando a fabricação.

Anthony Fauci, o ubíquo assessor de epidemiologia do governo, já disse que talvez a vacina da farmacêutica anglo-sueca nem venha a ser usada nos Estados Unidos, pois os contratos com outros laboratórios já dão para vacinar várias vezes toda a população americana.

Somente especialistas reconhecidos e submetidos à revisão dos pares podem analisar as vantagens e eventuais desvantagens das diferentes vacinas, além de seus efeitos colaterais. 

É difícil dizer, sem estudos aprofundados, se os casos de morte são provocados pelo imunizante ou aconteceriam de qualquer maneira. No Reino Unido, houve 30 casos de trombose cerebral venosa em 18 milhões de pessoas vacinadas com a AstraZeneca. 

É claro que as vantagens da vacinação, que estão sendo colhidas de forma excepcional pelos britânicos – apenas 10 mortos por dia e muito mais certeza de que o programa de reabertura do país pode avançar -, são incomparavelmente maiores.

Mas tentar ignorar os eventuais percalços só contribui para a insegurança e a desinformação do público leigo.

Com vacinas garantidas na mão, deve ser mais fácil para o Chile superar a fase ruim, deixando a lição de que a imunização não resolve tudo, como num passe de mágica;  mas, sem ela, não se resolve nada.

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