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Colômbia: guerra, guerra, guerra. Agora, a paz de 10 bilhões de dólares

A história de violência política que incinerou o país e o caminho cheio de surpresas que levou ao acordo de pacificação

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 dez 2016, 11h21 - Publicado em 28 set 2016, 16h47
Em choque: ódio à guerrilha e esperança de fim de um ciclo maldito

Em choque: ódio à guerrilha e esperança de fim de um ciclo maldito

No dia 9 de abril de 1948, três homens excepcionais estavam em Bogotá, a capital da Colômbia: Gabriel García Márquez, Fidel Castro e George Marshall.

Muito do que aconteceu nas quase sete décadas seguintes foi um desdobramento de suas trajetórias e das consequências daquele dia trágico, quando um assassinato político desencadeou o período conhecido como La Violencia, uma guerra civil em tudo, menos no nome, que durou dez anos e plantou as sementes da longa noite que parece estar chegando ao fim na Colômbia.

Dos três mencionados no início, apenas García Márquez era colombiano. Em suas memórias, contou em seu estilo prodigioso como testemunhou o dia em que Jorge Eliécer Gaitán, líder da ala mais populista do Partido Liberal e candidato a presidente, foi morto a tiros na saída de seu escritório de advocacia.

O futuro escritor morava numa pensão a três quadras do local do crime e viu quando “os engraxates armados com suas caixas de madeira tentavam derrubar as portas metálicas da farmácia Nova Granada, onde os poucos policiais em serviço haviam encerrado o agressor para protegê-lo das turbas ensandecidas”.

As portas cederam e Juan Roa Sierra foi linchado. Amarrado com gravatas, seu corpo nu foi arrastado até o palácio presidencial. A rebelião, que ficaria conhecida como Bogotazo, se espalhou, pela cidade e pelo país, com incêndios, saques e assassinatos.

Mesmo depois que o Exército retomou o controle da capital, a luta entre partidários de Gaitán e simpatizantes do Partido Conservador continuou. Grupos de liberais foram para a guerrilha que se metamorfoseou depois nas FARC, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que agora assinaram o acordo de paz com o governo do presidente Juan Manuel Santos. No domingo, dia 2, o acordo será submetido a plebiscito.

García Márquez, tal como toda a esquerda, sempre acreditou que Roa, jovem doente mental “com uma barba de dois dias e uma lividez de morto com os olhos arregalados pelo terror”, foi outra vítima de uma sinistra trama política. Ele contou ter visto um homem “com uma pele de alabastro” e um elegante terno cinza incitando a turba.

George Marshall, o herói da II Guerra Mundial e do plano que resgatou a Europa Ocidental da miséria e do comunismo depois dela, também acreditava numa conspiração. Por motivos, evidentemente, opostos.

Para os americanos, militantes comunistas insuflaram a rebelião. Marshall era secretário de Estado e estava em Bogotá para a Conferência Panamericana, embrião da OEA, a Organização dos Estados Americanos, uma das barreiras anti-comunistas criadas no alvorecer da Guerra Fria.

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Durante o Bogota, o general Marshall ficou na embaixada americana, de onde saíam os relatos sigilosos sobre as tentativas de sabotar a conferência. Uma delas, era uma reunião internacional convocada por um jovem militante estudantil cubano, Fidel Castro.

Se não tivesse sido assassinado, Gaitán teria recebido Fidel na tarde daquele 9 de abril. Quando estourou o Bogotazo, o cubano participou da rebelião com um fuzil dado por um dos muitos policiais que haviam aderido à rebelião.

De volta à pensão, o jovem García Marquez ouviu um amigo anunciar “a constituição da Junta Revolucionária de Governo integrada pelos mais notáveis liberais de esquerda”.

O embaixador americano, Willard Beaulac, anotou que os saques eram “dirigidos e sistemáticos” e os incêndios direcionados a instituições identificadas com o Partido Conservador.

Ele conseguiu mandar seu piloto particular ao Panamá para comprar “vinte peças de presunto, vinte perus e vinte potes de caviar”, além de caixas de champanhe. Os produtos de luxo foram distribuídos depois entre os apavorados enviados latino-americanos que não haviam conseguido fugir para simular uma inexistente normalidade. Quando a situação acalmou, a conferência foi retomada.

De todos os principais protagonistas daquele dia trágico, Fidel Castro é o único sobrevivente. Aos 90 anos, viveu para ver a história dar um dos sempre surpreendentes giros completos. De jovem idealista, como tantos outros latino-americanos, virou um ditador dependente da União Soviética e, com a morte desta, da Venezuela.

Na questão da Colômbia, Cuba e Estados Unidos acabaram do mesmo lado. Cuba sediou e patrocinou as conversações de paz, que se tornaram possíveis depois do extremo enfraquecimento militar das FARC.

Bancada pelo dinheiro do tráfico de cocaína nas vastas regiões da selva colombiana sob seu controle e sustentada pelo apoio cubano, ao qual se somou depois o arco bolivariano, a guerrilha acabou perdendo território, comandantes e militantes. As operações militares foram bancadas pelos quase 10 bilhões de dólares do Plano Colômbia, acertado em 1999 pelo governo de Bill Clinton.

Sem essa ajuda, o Exército colombiano não conseguiria enfraquecer as FARC até empurrá-las, juntamente com seus patronos em Cuba e na Venezuela, para a negociação. Durante anos, o Plano Colômbia foi torpedeado, dentro e fora dos Estados Unidos, como prova de intervencionismo fracassado, tanto no combate às drogas quanto pelos abusos aos direitos humanos.

Com o esforço e o sacrifício de muitos colombianos, e também a ajuda americana, incluindo um tratado com benefícios comerciais, a Colômbia saiu da categoria de país falido. O crescimento econômico está longe de ser brilhante, mas é só olhar para a vizinha Venezuela e ver como as coisas poderiam ser infinitamente piores. O tráfico continua, mas os traficantes não estão mais no poder e a guerrilha perdeu os dentes.

O imenso ódio da maioria dos colombianos pelas FARC e a esperança de que o acordo de paz seja realmente bom para o país são as forças que se entrechocam no plebiscito de domingo. Será que o dia 9 de abril de 1948 vai finalmente terminar?

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