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Cinco pontos para tentar entender a Síria depois da guerra civil

A retirada dos Capacetes Brancos, grupo de resgate de vítimas de bombas, é praticamente a rendição final; agora, começam os outros problemas

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 23 jul 2018, 23h36 - Publicado em 23 jul 2018, 14h11

Bashar Assad ganhou. Falar isso diretamente, sem condicionantes, não torna o veneno menos amargo, apenas mais rápido.

A guerra civil na Síria não tem nem terá uma data para acabar. Os muitos níveis de complicação e a presença de diferentes forças rebeldes, ainda com controle de diferentes trechos territoriais, não permite que se estabeleça um “dia do fim”.

Mas um dos movimentos mais simbólicos foi a operação de retirada de integrantes dos Capacetes Brancos e seus familiares próximos.

Só a maneira como foram tirados da Síria, sem contar a sua origem, já dá uma ideia do universo infinitamente complicado onde nenhum inimigo é para sempre e nenhuma aliança é impossível.

Vamos começar com os Capacetes Brancos e, daí, ir para um resumo de outros acontecimentos importantes, para a Síria, o Oriente Médio e o mundo:

1. Às 9 horas da manhã de sábado passado, os primeiros grupos começaram a chegar à fronteira norte de Israel com a Síria. Durante todo o dia, ônibus supervisionados pelas Forças de Defesa de Israel transportaram voluntários sírios do grupo de defesa civil identificado ideologicamente com diferentes formações de oposição total a Israel.

Ao todo, foram retiradas 422 pessoas. Todos os resgatados rumaram para a Jordânia, de onde já têm asilo garantido no Canadá e no Reino Unido.

Os Capacetes Brancos foram criados por um grupo de relações públicas com sede na Inglaterra. Participam do grupo milionários sírios, americanos e outros estrangeiros dedicados a enfrentar a guerra virtual, nas redes sociais, travada por serviços de inteligência da Síria e, principalmente, da Rússia, mestra nessas artes negras.

Os atos heróicos de resgate de vítimas de bombardeios em cidades onde grupos armados, na maioria fundamentalistas, enfrentavam as forças do regime, transformaram-se em poderosas armas de contrapropaganda.A afirmação não tira de forma alguma  o mérito dos socorristas. Muitos perderam a vida depois que os atacantes perceberam que bastavam bombardear o mesmo lugar pela segunda vez para infundir uma dose dupla de terror.

Mas também atenua a ingenuidade de quem ignora o ambiente político onde operavam os Capacetes Brancos, com aquela mistura de esquerda anti-Assad (tem também a que é a favor) e islamismo relativamente light, pelo menos em comparação à versão hard. No caso, o Estado Islâmico.

É bom saber que os socorristas estão a salvo, uma rara notícia positiva no inferno sírio. Que tenham sido resgatados com a ajuda de Israel, obviamente também querendo faturar em termos de imagem, é uma ironia que só poderia ser plenamente apreciada em circunstâncias menos trágicas.

Ah, sim, foi Donald Trump quem interferiu junto a Israel em favor dos Capacetes Brancos. Também para faturar uns pontinhos, claro.

2. O Estado Islâmico foi varrido da Síria e do Iraque através de uma combinação extraordinária, uma espécie de liga da justiça entre bons, maus e mais ou menos.

Entraram na coalizão Estados Unidos, Rússia, Iraque, curdos (iraquianos e sírios) e Irã. Fora atores menos cotados.

Restam, porém, no mapa umas pintinhas negras –  a cor dos ultrafundamentalistas. Sendo os envolvidos quem são, operando onde operam, ninguém poderá alegar ficar surpreso se militantes do Isis começarem a pipocar em outros grupos da banda do islamismo radical.

O conflito religioso que alimentou a guerra da Síria, entre sunitas e xiitas, já tem mil anos de história e não vai sumir por mágica ou expressão de desejos.

Mas, por incrível que pareça, a crise do momento acontece na Grã-Bretanha. O governo de Theresa May, que nunca perde uma oportunidade de perder uma oportunidade, desautorizou seu próprio ministro da Segurança, Sajid Javid, por ter liberado a extradição para os Estados Unidos de dois jihadistas que prenderam, torturaram e degolaram vários sequestrados, incluindo americanos e britânicos.

Os dois militantes de um grupo chamado Beatles, por causa do sotaque britânico, foram detidos pelo grupo Forças Democráticas Sírias, apoiado pelos Estados Unidos como os menos excessivamente islamistas do pedaço.

Apesar da revogação da cidadania britânica, o governo de Theresa May não abre mão de garantias de que não serão condenados à pena de morte se foram extraditados para os Estados Unidos.

A possibilidade de que isso aconteça é nula, mas a primeira-ministra quer marcar posição. Boa sorte.

Entre outros, os loquazes Beatles, que agora vivem dando entrevistas, participaram da decapitação dos jornalistas James Foley e Steven Sotloff.

3. A vitória de Bashar Assad significa, obviamente, um feito extraordinário para o Irã, que arriscou vidas, dinheiro e prestígio no apoio ao regime “irmão”, defendido basicamente por não ser sunita (nem xiita, mas alauíta – o que bastou para os aiatolás).

Saem perdendo, também, as diferentes forças de oposição interna no Irã. Mas tamanho e a fúria dessas forças não podem ser menosprezados.

Só para dar uma ideia: nos protestos mais recentes, manifestantes gritavam “Morte à Palestina”. Atenção, isso no país onde são oficiais os dois gritos de morte mais comuns, aos Estados Unidos e a Israel.

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O desdobramento foi tão chocante que jornais mais sensíveis da grande imprensa americana nem registraram. Mas os vídeos espantosos podem ser acessados por qualquer um.

A “Morte à Palestina” gritada nas ruas significava basicamente uma manifestação de ódio ao regime iraniano, que, depois de uma ruptura básica voltou a despejar dinheiro no Hamas, o grupo islamista sunita que controla Gaza.

Também houve gritos contra o Hezbollah e, claro, Bashar Assad.

Um dos componentes mais importantes desses protestos é a situação econômica periclitante, com desvalorização da moeda (a doença terceiro-mundista do dólar forte) e a expectativa de mais sanções criada pela ruptura americana com o acordo nuclear.

Muitas sanções nem haviam sido revogadas ainda por países europeus – o medo das multas americanas a bancos e outras empresas que negociem com o Irã já dura vários anos e não vai passar.

Espremido entre diferentes demandas, o presidente Hassan Rohani tem tentado falar grosso para faturar com seus próprios extremistas. Usou de uma figura de retórica conhecida ao dizer que os Estados Unidos deviam saber que “a paz com o Irã é a mãe de todas as pazes, e a guerra com o Irã é a mãe de todas as guerras”.

Donald Trump, que não é muito chegado em figuras do gênero, deu a mãe de todas as respostas: “Nunca, jamais ameace os Estados Unidos de novo ou sofrerá consequências que poucos ao longo da história sofreram.”

4. Precisa desenhar? É claro que Trump não vai devolver o Irã à idade da pedra por discursos agressivos. A política declarada dele é sufocar o país economicamente até que aceite um acordo que imponha mais controles a seu programa nuclear. É impossível dizer se vai funcionar ou não.

Quem são os aliados que podem dar sustentação ao regime iraniano, fora suas próprias criaturas, como o Hezbollah?

Certamente não a Rússia de Vladimir Putin, que usa o Irã quando precisa, como na Síria, e pode dispensar seus serviços quando achar melhor. Ou continuar a exibir suas habilidades de supremo manipulador, fazendo jogo duplo, triplo ou o que for preciso.

Um dos desdobramentos dessa habilidade é a aproximação ostensiva com Israel. Benjamin Netanyahu foi várias vezes a Moscou falar, justamente, sobre Síria e Irã.

Israel só poderia lançar os ataques que fez – e continua fazendo – contra posições iranianas e do Hezbollah na Síria com uma espécie de acordo tácito da Rússia.

Os fabulosos mísseis antiaéreos russos que desmanchariam qualquer ataque do gênero continua fabulosos e notavelmente ausentes.

5.  Donald Trump quer, obviamente, algum tipo de apoio, nem que seja a neutralidade, da Rússia para o plano de paz para palestinos e israelenses que pretende apresentar em breve. O que daria em troca ainda é uma incógnita.

Sabendo perfeitamente que a oferta seria recusada, os encarregados do plano, Jared Kushner, genro de Trump, e enviado especial Jason Greenblatt, propuseram recentemente ao Hamas a reconstrução de Gaza em troca do reconhecimento de Israel.

E quem vai convencer Netanyahu a aceitar a devolução de alguns territórios palestinos, sem contar um estado formalmente autônomo, mesmo que com várias limitações? Depois de gestos gigantescos – no papel, principalmente -, como a mudança da embaixada americana para Jerusalém, Trump com certeza vai apresentar a conta.

Contando com o Hezbollah ao norte e o Hamas ao sul, o Irã vai fazer de tudo para torpedear qualquer acordo.

Ameaçar Israel com dois focos de conflito é um instrumento permanente dos inimigos do país, levado em conta em todos as simulações dos altos comandos. O fato de ser previsto não o torna menos miseravelmente complicado.

O fim da guerra civil na Síria, pelo menos em suas principais frentes, não significa, de forma alguma, paz, no país ou na região. A não-paz é o estado natural do Oriente Médio há mais de 70 anos.

Ter amigos poderosos em lugares importantes fez a diferença entre a vida e a morte para Bashar Assad. A palavra amigos, aqui, é usada no sentido mais irônico possível. Ninguém tem amigos nesse lugar do mundo.

Mas não pode ser ignorado o fato de que muitos sírios acabaram ficando do lado de Assad porque a alternativa era assustadoramente pior. Sua opção será posta à prova muitas vezes agora.

Vinganças e retaliações dos vencedores, tão antigas quanto a civilização humana nascida exatamente nessa parte do mundo, são apenas uma das possibilidades.

Assad, um oftalmologista nada tenebroso na origem, se mostrou capaz de fazer mil vezes mais do que o pai para manter o poder que herdou dele.

Trezentos e cinquenta mil mortos depois (ou 500 mil, dependendo do cálculo), ele precisa ganhar a não-paz depois de ganhar a guerra.

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