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Castillo: nova estrela da esquerda é bênção ou maldição para o Peru?

Pela trajetória, seria um líder inspirador; pela ideologia, se confirmada a vitória, vai trazer mais problemas ainda a um país já encrencado

Por Vilma Gryzinski 9 jun 2021, 08h32

Um dia depois de sair em primeiro lugar no primeiro turno da eleição presidencial no Peru, Pedro Castillo recebeu jornalistas que o procuravam em sua casa modesta numa aldeia andina descalço, com um latão de leite na mão. Acabava de ordenhar sua vaca.

Como Lula ou Evo Morales, a trajetória de Castillo, à frente na apuração por uma diferença de décimos, pode ser contada como uma comovente, quase inimaginável história de superação, um arco narrativo que começa com o menino que andava duas horas nas montanhas para ir à escola, saindo de um casebre sem luz nem água corrente, e desagua agora, faltando pouquíssimo para terminar a apuração, no palácio de governo cujas origens remontam a Francisco Pizarro, o conquistador do Peru.

A outra narrativa é menos inspiradora. Retrata como é fácil para a esquerda mais empedernida se passar pela esperança de salvação em países da América Latina com bolsões de pobreza tão enquistados e impermeáveis que não mudam nem com avanços econômicos como o dos últimos anos no Peru – antes da estase política e da praga da Covid-19.

A ascensão de Castillo, o professor primário e sindicalista que fez campanha com um lápis gigante na mão, levou muita gente a ler o programa do seu partido, Peru Livre.

Em linguagem límpida e cristalina, o documento muito bem escrito é de dar pesadelos com suas propostas de intervenção econômica, nacionalização, reforma constitucional, estado regulador do mercado – “interventor, planificador, inovador, empresarial e protetor” -, controle da liberdade de imprensa e todos os outros clichês da esquerda de inspiração bolivariana.

Em termos de Brasil, seria como se o PSOL tivesse conquistado a presidência, embora o Peru Livre esteja bem longe do partido brasileiro em matéria de cancha política e parlamentar.

Durante a fase final da campanha, com o avanço de Keiko Fujimori e da ideia de que Castillo estava abrindo as portas do país ao comunismo, o candidato moderou o discurso, assinou uma espécie de carta aos peruanos  de compromisso com a democracia e procurou se distanciar do ideólogo do Peru Livre, Vladimir Cerrón, neurocirurgião formado, profissional e politicamente, em Cuba.

Existe alguma garantia de que vá cumprir os compromissos? Não. 

Ele tem condições de fazer a refundação, a palavrinha maldita tão cultuada pelos bolivarianos? Dificilmente.

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Apesar de ter eleito a maior bancada, com 37 deputados, o seu partido e eventuais aliados não têm uma possiblidade de maioria no Congresso – motivo pelo qual o legislativo teria que ser atropelado para que os projetos endossados por Pedro Castillo decolassem.

A essa altura, já sabemos que a desmoralização incomparável da política tradicional peruana, com ex-presidentes presos, foragidos, processados e até um suicidado, desaguou no desejo de mudança que propiciou a eleição de Pedro Castillo.

Se confirmada a vitória, o novo presidente peruano entra no arco do populismo de esquerda reconstituído que passa pela Argentina e pela Bolívia. No Chile e na Colômbia, governos de direita estão na lona em matéria de popularidade, com a repetição na segunda dos protestos incontroláveis que aconteceram em 2019 no primeiro. O Equador elegeu um presidente de direita que conseguiu se firmar como alternativa de centro. É uma exceção.

Pedro Castillo fez campanha com um slogan bom – “Chega de pobres num país rico” – e deu poucas entrevistas para evitar asneiras como as proferidas quando declarou que as multinacionais de mineração deveriam “deixar 70% dos lucros aqui e levar só 30%”.

Que propostas semelhantes façam sucesso são uma prova do eterno atraso latino-americano, tanto político quanto material.

Só para dar uma ideia desse atraso: na casa muito, muito pobre dos pais de Pedro Castillo, Ireño e Mavila, ambos camponeses analfabetos, entre as imagens religiosas está um retrato de Juan Velasco Alvarado, general esquerdista que deu um golpe de estado em 1968 e implantou a reforma agrária. O casal ganhou um pequeno lote de terra.

Como tinha os tanques por trás, Velasco Alvarado conseguiu fazer muita coisa que Castillo promete, mas não conseguirá cumprir, incluindo nacionalizações e expropriações em massa (todos os jornais do país foram expropriados em 1974 e seus proprietários exilados).

Deu tão formidavelmente errado – inflação, desemprego, desabastecimento, descalabro – que os próprios militares o derrubaram. O general substituto acabou devolvendo o poder aos civis.

Já que cresceu à sombra do retrato de Velasco Alvarado, Pedro Castillo teria aprendido alguma coisa com seus erros monumentais?

É isso que os peruanos vão descobrir. Só se pode desejar que não sofram tanto, e tão inutilmente, de novo.

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