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Boris tem uma surpresinha para induzir o parto do Brexit

Suspender o Parlamento é uma jogada de alto risco, mas o primeiro-ministro viu o que aconteceu com sua antecessora e sabe que não tem futuro se vacilar

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 28 ago 2019, 10h34 - Publicado em 28 ago 2019, 10h32

Ele é fraco, um bufão, narcisista, falastrão, sem disciplina, não tem consistência, vai quebrar sob pressão, não serve para comandar um governo, ainda mais com a monumental encrenca do Brexit.

Ah, sim, também mentiroso (esta acusação feita por um jornalista/militante e copiada do New York Times mundo afora).

Pode ser que muito disso se confirme, mas ao pedir a suspensão do Parlamento, Boris Jonson mostrou que pelo menos tem um plano. E está operando para executá-lo.

É difícil explicar as dimensões monumentais de mexer com o Parlamento na Grã-Bretanha.

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No reino, o Parlamento é o poder absoluto: o executivo, os dois ramos legislativos, o judiciário e até o monarca. Não existe decisão de Suprema Corte que o atinja. É proibido fazer qualquer lei que afete este arranjo.

Para os britânicos, suspender um Parlamento em pleno exercício – com aprovação da rainha, claro – é daquelas iniciativas que movem placas tectônicas.

Quando Boris Johnson foi eleito pelo Partido Conservador, com um prazo de 100 dias para efetivar a saída da União Europeia, uma das iniciativas cogitadas por analistas políticos foi essa.

Conclusão praticamente unânime: impossível, seria radical demais.

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Excepcionalmente para um político considerado indisciplinado, Boris manteve o sigilo do plano e soltou a surpresa hoje.

E por que está fazendo isso?

Para combater o seu próprio partido, os inimigos internos – sempre os mais poderosos. Foi uma espécie de contragolpe. Obviamente, dentro das regras do jogo democrático, ao contrário do que dizem os praticantes do jus esperneandi, no momento em estado de choque.

Tendo sabotado, enfraquecido e impossibilitado a sobrevivência política de Theresa May, os parlamentares conservadores que são contra o Brexit tramavam ir mais longe com Boris Johnson.

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Chegaram a tramar um governo de união nacional entre conservadores anti-Brexit e trabalhistas.

Iriam à rainha, invocariam uma grave emergência e, pronto, tudo resolvido: estaria evitada o que consideram a tragédia do Dia das Bruxas, o 31 de outubro em que, não existindo um acordo, o Reino Unido tem que sair a seco do mercado comum envolvendo os outros 27 membros da União.

Presumivelmente, Boris Johnson também espera impressionar os líderes europeus que contam o suficiente para conseguir o impossível.

Ou seja, que aceitem uma mudança no que foi acordado na época de Theresa May.

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A encrenca toda está montada em cima de como será o movimento comercial entre a República da Irlanda, um país independente que continua a integrar a União Europeia, e a Irlanda do Norte, a pontinha da ilha ainda integrada ao Reino Unido.

May aceitou que o comércio continuasse como sempre entre as partes irlandesas. Resultado: o resto do reino também permaneceria por tempo indefinido sob as regras da União Europeia. O resultado do plebiscito aprovando o Brexit seria jogado no lixo.

É importante ressaltar que as forças políticas contra o Brexit – agora, mais conformadas, contra a saída a seco – agem movidas por argumentos formidáveis.

Acham que o reino vai ser gravemente prejudicado em termos econômicos, as exportações entrarão em colapso, a libra irá para o brejo, levando junto o prestígio nacional e vai faltar tudo – de tomates sicilianos a operadores cingaporeanos na City.

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Boris Johnson, que fez campanha pelo Brexit, sabe que se não cumprir o que prometeu – entregar na data marcada – será o mais breve e mais fracassado primeiro-ministro da história.

Se conseguir, ainda tem que evitar tudo o que o pessoal contra o Brexit está dizendo que vai acontecer.

A suspensão do Parlamento, se aprovada, será temporária, uma espécie de longo intervalo de nove semanas numa luta de boxe.

Volta à ativa com o discurso da rainha, a ocasião solene em que Elizabeth II vai de carruagem, coroa de Estado e roupas de gala até o Parlamento e lê os planos do governo eleito diante dos Lordes e dos Comuns.

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A data do discurso é 14 de outubro. Sobrariam assim duas semanas para o tudo ou nada.

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