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Boris Johnson vai roubar o Natal? Ou ser roubado?

Modo de enfrentar o ressurgimento do vírus provoca dissidências profundas no governo britânico e até ameaças veladas ao primeiro-ministro

Por Vilma Gryzinski - 29 set 2020, 08h09

Deputados do governo em guerra com o governo podem ser uma coisa natural no Brasil, mas no Reino Unido causam espanto e tremores políticos.

Como o regime é parlamentarista, se a dissidência se espalha é possível até que o líder, e primeiro-ministro, tenha sua carreira abreviada: os deputados do partido no governo formam uma maioria suficiente para colocar outro no lugar mais importante.

Se aconteceu com Margaret Thatcher, imaginem com Boris Johnson.

Muitos deputados do Partido Conservador dizem que não reconhecem o efervescente e otimista primeiro-ministro, eleito para executar a vontade do povo de consumar o Brexit, na figura melancólica e hesitante que agora tenta controlar a segunda onda da epidemia com medidas bem distantes de ter apoio total.

O maior pesadelo dos parlamentares conservadores é que medidas altamente discutíveis como a “regra de seis”, sobre o número máximo de pessoas que podem se reunir em casa, continuem até o Natal. Ou, pior ainda, sejam substituídas por outras mais rígidas.

Impedir as famílias de se reunir para celebrar o Natal parece impensável, hoje. Amanhã, sempre a situação pode ficar pior.

Com o sigilo protegido, alguns parlamentares insinuam que as patetices de Johnson podem nem durar até o Natal se os rebeldes conseguirem votos suficientes pode lhe dar o bilhete azul.

Cerca de 50 deles já prometeram apoiar um projeto que leva a votação os poderes emergenciais dados ao governo para administrar a crise do vírus. É pouco, mas a revolta tem muito espaço para crescer.

O mais eloquente dos “rebeldes”, Desmond Swayne, fez um discurso engraçado dizendo que Boris Johnson parece ter sido “sequestrado” pelo Doutor Strange Glove – uma paródia com o personagem do filme de Stanley Kubrick – e “reprogramado” pelo círculo de cientistas que assessoram o governo.

Outra possibilidade de estragar o Natal das famílias é manter o isolamento dos estudantes universitários que iniciaram o ano letivo somente agora, mas, em muitas faculdades, já foram imediatamente isolados em seus dormitórios.

Se os contágios prosseguirem, como é perfeitamente possível, o dominó dos isolamentos pode se arrastar até o fim do ano.

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A universidade mais afetada pelos novos contágios – previsíveis, considerando-se que faculdade por princípios são aglomeradas – fica em Manchester, entre outras cidades do norte da Inglaterra e da Escócia mais afetadas pela segunda onda.

“Mandem comida”, escreveram estudantes trancafiados nos vidros das janelas dos dormitórios. Outro, mais piadista, apelou: “Mandem nudes, erva e comida”.

Como aconteceu nos primeiros meses da epidemia no Brasil, as grandes forças em choque são a necessidade de isolar a população para diminuir as vítimas da Covid-19 e a obrigatoriedade de tirar a economia da UTI para que o remédio não mate o doente.

À medida em que “tamanho” da epidemia ficou claro – é grande e doloroso, mas não catastrófico -, diminuiu o apoio às medidas mais drásticas, como o isolamento de toda a população e a manutenção apenas das atividades de primeira necessidade.

Na Espanha, a discussão é mais complicada no momento porque envolve a coalizão no poder, que é de esquerda, e o governo da comunidade autônoma de Madri, de direita.

A comunidade equivale a um estado. Sua governadora – chamada de presidente -, Isabel Díaz Ayuso, que evitar de qualquer maneira o confinamento de toda a capital, onde os novos focos são maiores.

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Também é quase obrigatório contornar uma intervenção pura e dura do governo central, com um grave potencial de complicadores, inclusive constitucionais.

Na França, a rivalidade é entre cidades. Existe um clima de revolta em Marselha por ter sido colocada em confinamento, obviamente por causa do número maior de novos contágios, enquanto Paris continua com restrições menos abrangentes, por enquanto.

O governo Macron está tentando a fórmula das duas semanas: fechamento total, inclusive de bares e restaurantes, durante quinze dias. Há motivos de sobra para suspeitar que os quinze dias se  prolonguem.

E, claro, a epidemia vai ser um dos grandes assuntos no debate de hoje entre Donald Trump e Joe Biden, este tentando colocar nas costas daquele o peso das 210 mil mortes já contabilizadas no país.

O vírus é novo, com apenas dez meses de vida conhecida, mas as disputas políticas que desencadeou são as de sempre.

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