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As escolhas difíceis, ou até cruéis, em tempos de coronavírus

Como a doença mata idosos, jovens se sentem invulneráveis; médicos escolhem quem tem chances e políticos ainda rejeitam necessidade de união nacional

Por Vilma Gryzinski - 18 mar 2020, 07h07

Festas na praia, nos parques, nas ruas. Da Europa aos Estados Unidos, jovens liberados das aulas e do peso na consciência caíram nas baladas espontâneas. 

Os números agora confirmam o perigo invisível: 86%, ou seis em cada sete casos, não haviam sido detectados na China, o berço do vírus, no início da epidemia, propiciando sua explosiva expansão, controlada depois com isolamento populacional e tratamento em massa.

Na maioria dos países europeus, agora não dá para sair de casa e se reunir em grupos. Está todo mundo confinado e os deslocamentos têm que ser individuais.

“Só queria comprar droga”, foi uma das desculpas mais inesperadas ouvida por policiais espanhóis que pararam um rapaz de madrugada para checar o que estava fazendo na rua.

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Comércio de drogas e sexo profissional com contato direto são duas atividades abaladas pela era do corona. Em compensação, os canais digitais estão bombando com as “cam girls” que atendem fantasias sexuais via assinatura.

Os dilemas éticos dos médicos, evidentemente, são os mais difíceis: escolher quais pacientes têm mais chances de sobrevivência para ser entubados em UTIs.

Além da idade e das complicações pré-existentes, um outro fator está sendo levado em conta por médicos italianos: a existência de familiares capacitados a tomar conta dos doentes que venham a se recuperar.

Mesmo em condições sem o caráter de emergência de uma epidemia como a atual, entubar os muito idosos pode ter sequelas motoras e cognitivas. Sem cuidados da família, têm um fim de vida indigno e miserável..

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Escolher morrer em casa, um desejo quase unânime de quem tem essa opção, vem acompanhado de uma complicação ética: o risco de contaminação de parentes mais próximos.

Na era do corona, os que se vão têm que viver os últimos dias e morrer sozinhos. 

A proibição dos velórios quebra um tabu cultural imemorial. Numa cidade da Sicília, 48 parentes e amigos desafiaram a proibição e acompanharam o enterro de um ente querido. 

Foram intimidados. Dificilmente receberão a pena de três meses de cadeia prevista pelo estado de calamidade.

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Mas não deixa de ser espantoso – embora explicável pela situação de emergência – ameaçar de prisão pessoas que cumprem um rito imprescindível.

Alguns carros funerários ainda param diante de igrejas italianas, a pedido da família, para uma bênção à distância. 

Mas isso também está acabando. Não há veículos suficientes.

Aliás, nem lugar para enterrar os corpos, com caixões enfileirados em igrejinhas ou até deixados nas casas, com um sistema de refrigeração, enquanto não dá tempo para recolhê-los.

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No geral, 62% dos italianos apoiam o confinamento e outras medidas excepcionais decretadas pelo primeiro-ministro Giuseppe Conte. 

As declarações dele, floreadas por expressões emocionais – “Vamos nos separar agora para poder nos abraçar depois” -, receberam até declarações de amor, entre memes fofinhos.

Sem a adesão espontânea dos cidadãos, é difícil colocar países inteiros em isolamento. 

E mais ainda convencer a população a não vasculhar supermercados, agarrando-se ao último pacote de papel higiênico como uma tábua de salvação.

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Manter a racionalidade – os estoques vão ser repostos – dura geralmente três segundos diante de prateleiras vazias que lembram a antiga União Soviética.

“Somos uma democracia madura e adulta”, disse o primeiro-ministro Boris Johnson para explicar por que, ao contrário dos decretos taxativos de outros países europeus, estava “aconselhando” a população a ficar em casa, quando possível, só viajar em caso de extrema necessidade e não frequentar bares e restaurantes.

Um comentarista algo cínico reagiu: “Se ele acha o povo maduro é porque certamente não entrou num supermercado nos últimos tempos e viu os carrinhos carregados até o topo”.

Boris continua a ser eviscerado pela oposição por não ser mais impositivo nem ter fechado as escolas. 

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Nos Estados Unidos, nem se fale: Donald Trump é considerado pela oposição pessoalmente responsável pela epidemia, “o vírus da China”, como disse, provocando surtos de raiva e acusações de racismo.

Quando é a hora da união nacional em momentos de calamidade pública? Geralmente, quando a coisa fica feia demais.

“É importante que rememos todos na mesma direção”, disse Pablo Casado, do Partido Popular, da oposição de centro-direita na Espanha.

 Ele apoiou o estado de emergência decretado pelo governo na Espanha e “todas as medidas que forem necessárias”. Um Parlamento vazio ouvia-as hoje do primeiro-ministro Pedro Suárez.

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Casado e Suárez abominam-se mutuamente. Ao contrário da surpreendente amabilidade no trato com o líder de ultra esquerda Pablo Inglesis (os dois Pablos tiveram filhos prematuros).

Quando a sobrevivência nacional – sem falar na política – está acima de tudo, as divergências partidárias têm que ficar em segundo plano.

Este estado de convergência ainda está longe de acontecer na França, onde a ex-ministra da Saúde, Agnés Buzyn, saiu da vida pública com uma bomba.

Quando deixou o ministério para se candidatar a prefeita de Paris pelo partido de Emmanuel Macron – uma emergência política, pois o candidato anterior havia sido flagrado no famoso vídeo íntimo -, já sabia das dimensões do “tsunami que se aproximava”.

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Mais: alertou o primeiro-ministro Édouard Philippe em dezembro e , em janeiro, o próprio Macron. Achava também que as eleições para prefeitos deveriam ter sido adiadas desde o primeiro turno (o segundo, só foi passado para junho na semana passada).

“Deveríamos ter parado tudo lá atrás. Foi tudo uma farsa”, reclamou ela ao Le Monde, que faz oposição consistente a Macron.

A posição de uma ministra com acesso a informações vitais, ela própria médica hematologista, é diferente do pessoalzinho universitário que reclamava em Miami do fechamento das praias a partir das 5 da tarde, impedindo as festas à beira mar?

Com certeza. Mas nesses tempos estranhos, todos têm que fazer escolhas éticas e morais. 

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Inclusive na hora de comprar papel higiênico.

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