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Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Alerta vermelho: ambições da China enfrentam uma fase ruim

Foram três golpes seguidos, hostilidade da Índia, o corte do 5G da Huawei na Inglaterra e o fim do status especial para o comércio em Hong Kong

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 15 jul 2020, 09h19 - Publicado em 15 jul 2020, 08h24

No mundo pós-coronavírus, tudo iria muito bem para o grande projeto de dominação mundial de Xi Jinping: os Estados Unidos e outros aliados prostrados pela epidemia e a economia mais doente ainda, a China a postos para explorar as fraquezas dos adversários.

Na vida real, está indo tudo muito mal.

O maior golpe veio da Inglaterra e seu zigue-zagueante primeiro-ministro, Boris Johnson.

Depois de anunciar em janeiro, com o vírus ainda estendendo suas garrinhas para fora, que a Huawei, a gigante chinesa da telefonia, faria a implantação do 5G no reino, ele voltou atrás.

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Certamente os Estados Unidos fizeram muitas promessas – e ameaças -, mais importantes ainda para uma união de países que tem pela frente as dores do parto do Brexit.

Sem contar na opinião unânime de todos os atuais e aposentados chefes do serviço inteligência sobre os riscos quase suicidas implicados em entregar, de bandeja, à Huawei – leia-se China – a porta dos fundos para todos os segredos nacionais, inclusive os tecnológicos e militares.

Para estragar ainda mais a festa de Xi, a  participação da Huawei no 3G e no 4G deve terminar até 2027 – um prazo considerado muito longo pelos antichineses.

Eric Schmidt, o ex-Google, uma das pessoas mais qualificadas do planeta para falar sobre o assunto, com a vantagem de ter 16 bilhões de dólares que o imunizam a pressões, resumiu em palavras cautelosas, mas precisas, o papel da gigante chinesa da telefonia.

“Não há dúvida que a Huawei se envolveu em algumas práticas que não são aceitáveis em termos de segurança nacional”.

“E não há dúvida de que informação procedente dos roteadores da Huawei acabaram em última instância nas mãos do que parece ser o Estado”.

Além de suas conhecidas qualificações, Schmidt hoje preside o Conselho de Inovação da Defesa, do Pentágono. 

E não há dúvida que a cúpula militar americana é a mais preocupada, digamos, com o avanço da China rumo ao domínio da telefonia na terra e de todas as comunicações por satélite no espaço.

“As relações com a China nunca mais poderão ser como antes”, disse Dominic Raab, o ministro britânico das Relações Exteriores, depois que ficaram evidentes a negligência, a omissão ou coisa pior da China na pandemia.

Termos similares foram usados por outros países europeus, com mais cautela devido à sino-dependência em matéria de exportações.

Inabalável jogador do xadrez mundial chamado geopolítica, Xi Jinping tem revelado pontos fracos. Ou excesso de autoconfiança.

Aumentar as pressões na disputa pelo controle do Mar do Sul da China justamente quando os países ocidentais estão fragilizados expôs o tipo de ambição que deixa em pânico vizinhos importantes como o Japão e a Austrália.

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Sem contar Taiwan, que vive sob a sombra da anexação pela China comunista – lembram-se que o gigante asiático tem partido único?

Em terra, o expansionismo chinês produziu um incidente bem ruim na fronteira com a Índia, no começo de maio. 

Soldados sem armas de fogo, como demanda uma espécie de armistício vigente na região disputada, avançaram sobre os indianos, atacando-os com armas brancas, porretes e barras de ferro usadas para empalar algumas  das vinte vítimas.

Em represália, o primeiro-ministro Modi proibiu, entre outros 58 aplicativos chineses, o TikTok.

Depois do Brasil, a Índia é o maior consumidor do aplicativo, uma espécie de “Instagram dos pobres” pela falta de sofisticação dos popularíssimos filmetes de quinze segundos.

O TikTok é o primeiro sucesso de soft power da China, com dois bilhões de downloads no mundo todo. E já deu problema. 

Para salvar sua imagem, e os negócios, a empresa ByteDance, dona do aplicativo, anunciou que vai sair de Hong Kong para não ser obrigada a dar informações sobre usuários, agora compulsivas.

A imposição de uma nova lei de segurança nacional em Hong Kong, onde os protestos contra a mão pesada estavam sendo retomados depois de passada a pandemia, foi outro lance chinês no mundo pós-corona.

Na prática, cancela o acordo de “um país, dois sistemas”, vigente desde que a Inglaterra saiu da ex-colônia sob promessas de que as liberdades fundamentais continuariam em vigor.

A iniquidade anunciada para Hong Kong provocou reações até entre a sempre timorata União Europeia.

Disse o chefe do departamento encarregado de relações com a China, Reinhard Burtikofer:

“A China está reforçando estrondosamente a impressão que vem sendo formada desde a eclosão da crise da Covid-19 de que a liderança de Pequim está indo além da assertividade, tornando-se arrogante e agressiva”.

Para colocar mais água no uísque de Xi Jinping, Donald Trump anunciou ontem que, por causa da nova lei, estava cancelando o acordo de tratamento especial nas relações comerciais – basicamente o direito de evitar tarifas de exportação -, vigente com Hong Kong desde 1984.

A China prometeu represálias, como fez no caso da Huawei no Reino Unido.

De represália em represália, Xi Jinping e seus parceiros de expansionismo vão mostrando a verdadeira face.

E que a parte do “arrogante e agressiva” está só começando.

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