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África do Sul em transe por causa de ex-presidente populista e corrupto

Protestos, saques e mais de 70 mortos, muitos pisoteados pelas multidões em fúria, cercam a prisão do notoriamente desonesto Jacob Zuma

Por Vilma Gryzinski 15 jul 2021, 08h20

Desde que se livrou, pacificamente, da praga do racismo institucionalizado no sistema que ficou conhecido como apartheid, a África do Sul oscila entre dois extremos: ser um país bem sucedido, com instituições que funcionam, economia próspera e a peculiaridade da convivência entre negros e brancos, ou cair no pesadelo do tribalismo, da corrupção desenfreada e da violência extrema que tantos males causam em outros países do continente africano.

No momento, a segunda opção está pesando mais. A atual explosão de protestos e violência tem um tanto de conotação étnica e muito de inconformismo com decisões judiciais. 

No centro de tudo está o ex-presidente Jacob Zuma, um veterano político de 79 anos – dos quais dez em cana com o venerado Nelson Mandela, medalha de honra que usou durante muito tempo para justificar a transformação de combatente contra o apartheid em aproveitador das benesses do poder.

Não foi o único, mas poucos têm seu apelo popular e seu currículo de populista escolado, capaz de prometer o paraíso para a população mais pobre via expropriação das propriedades dos sul-africanos brancos que continuam a fazer da África do Sul uma experiência única.

Zuma tem a capacidade habitual dos populistas de se passar por defensor do povo mesmo quando defende acima de tudo os próprios interesses. Até quando foi julgado por estupro – e absolvido -, conseguiu despertar manifestações de simpatia. Durante o julgamento, disse que teve sexo consensual com sua acusadora, mas tomou um banho depois para se “prevenir” da Aids – ele sabia que ela tinha o vírus. 

Com seis esposas no currículo, quase todas simultaneamente, ele usa também a poligamia para aumentar a popularidade entre seu grupo étnico, os zulus, o maior da África do Sul. A maioria dos protestos atuais é nas regiões de maior concentração de zulus.

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Conhecido pelas iniciais JZ – como o marido de Beyoncé -, ele foi presidente de 2010 a 2018, quando seu próprio partido, o Congresso Nacional Africano, o forçou a renunciar por causa da enxurrada de casos de corrupção, muitos ligados a negócios com a família Gupta, milionários de origem indiana que acabaram deixando o país quando Zuma perdeu o poder.

Depois da renúncia, o parlamento elegeu Cyril Ramaphosa, que não é exatamente acima de qualquer suspeita, mas como um dos homens mais ricos da África do Sul parece saber melhor como evitar armadilhas.

Sem a força do voto popular, Ramaphosa também enfrenta o desgaste do exercício do poder, de uma economia que gera mais de 30% de desempregados e dos efeitos da pandemia.

Zuma foi condenado a um ano e três meses de prisão por se recusar a comparecer diante do tribunal onde corre um de seus casos de corrupção. Está apelando ao Supremo Tribunal, mas as chances são consideradas poucas.

Com vinte filhos, no mínimo, Zuma tem um clã poderoso. Uma de suas filhas, Duduzile, dispara tuítes contra Ramaphosa e conclama os seguidores do pai a “tocar fogo”. A narrativa subjacente é formidavelmente cínica. Zuma, segundo ela, é vítima dos brancos ricos e dos “traidores” negros alojados no Congresso Nacional Africano.

Explosões de revolta política que redundam em prejuízos da própria população que protesta não são, obviamente, uma exclusividade da África do Sul. 

O caso de Zuma tende a ser episódico, embora grave a ponto de reservistas do Exército terem sido convocados para controlar o quebra-quebra. Mas expõe muitas fraturas  sistêmicas que não vão ser curadas tão facilmente. Ou talvez não venham a ser superadas e puxem para o abismo do caos institucional um país que inspirou o mundo quando fez a transição do apartheid para a democracia tão exemplarmente. Seria uma tristeza.

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