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A segunda onda da calamidade econômica está chegando

Subsídios de governos para manter pelo menos parte dos salários vão acabar ou diminuir e aí a realidade do estrago causado pela pandemia será brutal

Por Vilma Gryzinski - 7 Maio 2020, 07h20

Mais da metade da população adulta da Grã-Bretanha está recebendo dinheiro do governo para manter 80% dos rendimentos dos assalariados na crise, entre outros benefícios fixos. 

Nos Estados Unidos, o cheque de 1.200 dólares para segurar a barra foi mandado de uma vez só.

Na Espanha, o governo está procurando uma fórmula que crie “incentivos para a volta ao trabalho” e diminua o tamanho da bolsa-salário, chamada ERTE. Não faltam resistências, tanto de empresas quanto de sindicatos, aliviados por jogar a bomba nas costas do “governo”.

Por quanto tempo é possível segurar isso?

“Claramente, não é uma situação sustentável”, disse o ministro da Economia britânico, Richi Sunak, que no começo da crise exibia um otimismo de fachada – como um milionário por direito próprios formado em Administração por Stanford, entendeu perfeitamente o tamanho do buraco.

Somando os beneficiados pela verba de emergência aos funcionários públicos, mais aposentados e pensionistas, o reino tem nada menos de 27 milhões de pessoas recebendo dinheiro do governo.

É possível isso? Todo mundo sabe que não.

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Acenando com entusiasmo a maleta vermelha típica dos ministros ingleses quando anunciou que o governo bancaria a licença remunerada para os funcionários de empresas entaladas pela pandemia, Sunak agora está preparando o terreno para a má notícia.

O esquema vai ser gradualmente desativado, passando primeiro de 80% para 60% os pagamentos para cobrir salários, à medida em que a quarentena começa a ser levantada e os assalariados voltam a trabalhar. 

Mas trabalhar aonde?

Sem a responsabilidade de manter a fachada de situação sob controle exigida aos que estão no comando, Norman Lamont, que já foi ministro da Economia, analisou: o sistema de licença remunerada bancada pelo governo ocultou uma realidade brutal.

Setores inteiros da economia vão desaparecer. Não haverá uma empresa, fábrica ou comércio para onde voltar.

Os mais atingidos já são conhecidos: a parte do setor de serviços que inclui hospitalidade, turismo, restaurantes, hotéis, empresas aéreas.

No conjunto da Europa, são 100 milhões de pessoas que trabalham – ou trabalhavam – nessas áreas.

Nos Estados Unidos, o exemplo mais conhecido, em todos os lugares do planeta, é o da Disney. 

O reino encantado, com seus 14 parques temáticos, sofre com a maldição da bruxa má. Os lucros caíram nada menos que 91%, 100 mil funcionários foram para a licença não remunerada, 42 mil quartos de hotel em três continentes sofrem desocupação recorde, quatro navios de cruzeiro estão ancorados e é difícil imaginar quando voltarão a navegar.

O conglomerado é imenso, abarcando cinema, televisão, streaming e outras áreas, mas é o baque nas atividades turísticas que tem o maior efeito simbólico: um lugar criado para ser um mundo de fantasia devastado por um vírus alienígena.

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A lista recente de falências e concordatas traz nomes conhecidos por quem gosta de viajar ou fazer compras online – ou desconhecidos pelo público comum, mas igualmente assustadores.

Foi-se a J. Crew, a rede de roupas femininas a preços razoáveis, turbinada quando Michelle Obama apareceu usando algumas peças, como se fosse uma americana comum. 

A rede de restaurantes italianos Carluccio’s, com sede na Inglaterra, também não aguentou. Nem a tradicional Debenhams. Nunca mais as comidas chiques da Dean & DeLuca, com ingredientes para produzir um jantar a jato em Nova York ou Washington. 

Extração de petróleo, aviação, a Rubie’s, maior fabricante mundial de fantasias malucas para o Halloween, tudo capotando.

A Airbnb demitiu 1.900 funcionários, 25% da sua folha de pagamentos em escala global. Se ninguém mais está viajando, imaginem alugar apartamentos de desconhecidos para estadias curtas.

Ou chamar um Uber para se deslocar despreocupadamente, celular na mão, sem nem olhar para quem vinha ou ia. Lá se foram 3.700 empregos.

Mais de 30 milhões de americanos pediram seguro desemprego. Ainda é difícil processar uma calamidade dessas dimensões. Vinte milhões de empregos no setor privado simplesmente sumiram do mapa em abril. Em um único mês, o dobro do número registrado depois da crise de 2009.

A única grande economia fora da lista da recessão é a China, depois do tombo de 6,8% no primeiro trimestre. Na Espanha, a previsão do encolhimento é de 9,4%; Alemanha, 6%; Estados Unidos, de 5% até 7% de queda.

O Banco da Inglaterra, equivalente ao Banco Central, avalia em 25% a contração no primeiro semestre, indo para 14% até o fim do ano, se a economia for reativada e não houver uma segunda onda de avanço da epidemia, obrigando uma nova paralisação de atividades.

Uma exceção: aquele país que ninguém resiste a acompanhar, a Suécia, uns torcendo secretamente para que se dê mal, comprovando a necessidade do sacrifício brutal da quarentena; outros esperando que demonstre a tese oposta.

Nos primeiros três meses do ano, o encolhimento da economia sueca foi de 0,3%, um bálsamo se comparado ao resto da Europa. Outros indicadores não são nada brilhantes, ao contrário. O país depende das exportações e da combalida saúde econômica da zona do euro.

Ressalva importante: a Suécia segue uma política de isolamento light por motivos sanitários, não econômicos – embora, obviamente, uma coisa não possa ser separada da outra.

Tornou-se lugar comum evocar a Grande Recessão, os anos amargos depois do crash de 1929, com americanos mendigando moedas ou na fila da sopa, desesperados por qualquer tipo de emprego.

As condições são muito diferentes hoje. Na hipótese menos pessimista: um tombo maior, mas uma recuperação mais rápida, mesmo que num panorama doloroso.

Com a retomada gradual de atividades em vários estados americanos, “o pior já está passando”, segundo avaliação otimista do economista-chefe da Moody’s Analytics, Mark Zandi. “Deve haver uma virada em breve nas estatísticas de emprego”.

Mas ainda será preciso surfar a segunda onda, o período entre o fim dos benefícios de emergência e a reativação da economia.

E depois pagar a conta do endividamento emergencial, desesperadamente necessário quando aconteceu, perigosamente arriscado no médio prazo. Só os Estados Unidos vão aumentar a dívida em 4,5 trilhões de dólares para enfrentar a praga da recessão com injeções astronômicas de dinheiro. Repetindo: trilhões.

Se os países mais ricos do mundo estão enrolados em dilemas quase intransponíveis, os outros então…

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