Clique e assine a partir de 8,90/mês
Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A louca vida e a fuga mais incrível ainda de Carlos Ghosn

Nenhum outro executivo subiu tão alto, nenhum caiu tão baixo – e ninguém jamais conseguiu enganar um país inteiro como o Japão

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 6 jan 2020, 09h58 - Publicado em 6 jan 2020, 07h33

O que pode ser mais inacreditável do que fugir de uma casa em Tóquio, estando sob vigilância direta de três diferentes forças da ordem, dentro do estojo de um contrabaixo, sair escondido do país num jatinho, desembarcar em Istambul com um passaporte francês trancado numa mala confiada a seus advogados, desembarcar leve e solto no Líbano e dias depois ser recebido pelo presidente?

Talvez fazer tudo isso, como se fosse os Doze Homens e um Segredo numa única pessoa, e ainda se passar por vítima.

“Não fugi da justiça – fugi da injustiça e da perseguição política”, disse Carlos Ghosn já instalado em seu casarão de janelas azuis numa esquina de Achrafieh, o bairro mais chique de Beirute, preferido pela elite cristã – ortodoxos e católicos maronitas como ele.

Os dois sarcófagos encontrados durante a reforma foram colocados na entrada da adega e atestam duas coisas. Primeiro, as múltiplas civilizações que deixaram camadas sobre camadas de antiguidades no Líbano.

Segundo, Carlos Ghosn vai passar muito, muito tempo, talvez até o fim da vida, encerrado num sarcófago de luxo, com poucas chances de cruzar o mundo como estava acostumado a fazer – e pagando por proteção.

É o tipo de mercadoria que custa caro no Líbano e tem que ser bem distribuída entre as diferentes forças sectárias, com seus exércitos próprios e as sucessivas guinadas na eterna Guerra dos Tronos.

Sem nenhuma coincidência, a série preferida do executivo que protagonizou talvez o maior escândalo empresarial de todos os tempos. O grupo familiar de conversas que tinha antes da queda se chamava The Game of Ghosns.

Antes que o mundo em geral, fora do nicho dos interessados em negócios, carros e executivos-prodígio, aprendesse a pronunciar seu nome (Gone, com a primeira vogal fechada e a segunda quase apagada), suas experiências já eram de impressionar a rainha Cersei ou outro personagem igualmente embriagado de sucesso e poder.

Sua festa de 60 anos foi no Palácio de Versalhes, um mimo para o executivo consagrado pela chamada aliança entre a Renault e a Nissan – posteriormente a Mitsubishi –, coroado pelo título de salvador da empresa japonesa de carros resgatada com lábia, carisma e métodos implacáveis.

Nada mau para um gaijin nascido em Rondônia, criado no Líbano, educado na França com carreira bem sucedida nos Estados Unidos, residência fiscal na Holanda e casas ou apartamentos de alto luxo em todos os países.

Um gênio, um picareta, um jogador disposto a quebrar todas as mesas a qualquer preço ou uma mistura disso tudo?

“Todos os narcisistas são hipócritas. Fingem ter moral e valores, mas na verdade não têm nem uma coisa nem outra”, escreveu em rede social sua primeira mulher, Rita Kordahi, quando ele foi preso ao descer de seu jatinho no Japão em 19 de novembro de 2018.

Bronca de ex-mulher é brava, e facilmente atribuível ao despeito, ainda mais quando o marido, flagrado, pede o divórcio para se casar com a amante (o casamento com Carole Nahas também foi em Versalhes).

Mas poucos divórcios foram tão brutais. Ghosn processou a mulher na justiça libanesa por crimes contra a honra, decorrente de uma acusação de violência física. Conseguiu 15 milhões de indenização.

Já deu para perceber a influência dele no Líbano, onde, quando foi preso, surgiram nas ruas outdoors com o rosto pixelizado dele e a frase: “Somos todos Carlos Ghosn”.

A realidade, claro, é exatamente o oposto.

Carlos Ghosn só tem um.

Mesmo que a lista de acusações contra ele soe estranhamente familiar: ocultação de patrimônio, pagamento de despesas pessoais com fundos empresariais, uso de laranja (a irmã, Claudine Bichara de Oliveira, conhecida no Rio de Janeiro, onde presidiu a Câmara de Comércio França-Brasil) para pagamento de consultoria superfaturada.

As despesas sob suspeita somam 11 milhões de euros, segundo uma auditoria feita na França. Incluem a festa de aniversário e a de casamento em Versalhes – a Aliança Renault-Nissan tinha direito a uma cota de eventos no monumento histórico, como patrocinadora, mas não para comemorações particulares.

Mais despesas de reforma ou decoração de seus fabulosos imóveis, uma lista que inclui o apartamento na Avenida Atlântica que a Nissan tentou manter trancado. Mais 40 mil euros em ternos Ermenegildo Zegna. Ah, e um iate de 11 milhões adquirido com dinheiro da Nissan por uma empresa supostamente de fachada.

Como imaginar que o fisco japonês ou as auditorias internas de empresas tão importantes não pegariam tantas transgressões?

Ou existiria um acordo não-declarado com a Nissan para bancar as despesas pessoais?

A tática da família, durante o período que Ghosn passou preso ou em detenção domiciliar, sob fianças altíssimas e proibido de acessar a internet, foi denunciar tudo como uma conspiração maligna da Nissan para se livrar do estrangeiro.

E denunciar abusos contra direitos e garantias do pobre perseguido.

O sistema de justiça do Japão realmente é implacável. O país tem uma taxa de 99% de condenação.

Suspeitos ou condenados têm acesso limitado, em comparação com democracias ocidentais, a advogados, horários restritos de acesso à luz do sol, e até a conversas.

Além de celas e alimentação que dão um novo significado ao adjetivo espartano.

Continua após a publicidade

Sem falar nas execuções. Os condenados à morte só ficam sabendo pouco antes que a hora da forca chegou.

Talvez isso tudo, mais a execração social a que criminosos são submetidos, tenha a ver com a taxa de homicídios de 0,2 por 100 mil.

A ordem e a criminalidade baixíssima não significam corrupção zero,

Ao contrário, malfeitos de grandes empresas e figuras de destaque podem escorregar para debaixo do tatame, com base no princípio que vigora acima de tudo: salvar as aparências.

Lavar a roupa suja e expor publicamente organizações privadas ou órgãos do governo são conceitos quase insuportáveis culturalmente, pois a culpa de um é estendida como um manto de vergonha coletiva a toda a cadeia hierárquica.

Imaginem o que significa num país assim uma fuga espetacularmente hollywoodiana como a de Carlos Ghosn.

Agora, ele nega que Carole, baseada nos Estados Unidos, onde seus dois filhos do primeiro casamento trabalham no mercado financeiro, tenha organizado o plano mirabolante – e até mesmo a existência do tal plano.

Segundo informações iniciais, foi ela quem contratou um grupo paramilitar especializado em “extração”, como nos filmes de fuga.

Falsos músicos foram tocar numa apresentação no vigiadíssimo apartamento de Ghosn, escondendo-o no estojo de violoncelo.

Inacreditável demais?

Bem, então fica faltando uma explicação para como ele saiu do apartamento e entrou no jatinho que o tirou do Japão, contratado de uma empresa turca.

Quatro pilotos e outro funcionário, responsável por maquiar a lista de passageiros, já foram detidos duas vezes na Turquia.

E por que a Nissan teria conspirado contra o homem que a tirou do buraco e colocou na posição de segunda maior fabricante de carros do Japão?

“Existia o medo de que o próximo passo da aliança, que seria a convergência, ameaçaria algumas pessoas ou eventualmente a própria autonomia da Nissan”, disse Ghosn num vídeo divulgado entre seus dois períodos de prisão.

A teoria conspiratória tem vários defensores.

Da mesma forma, tem gente que acredita que, essa semana, Ghosn será “interrogado” por autoridades libanesas sobre a fuga.

Mas é verdade que ele dará uma entrevista. Com certeza vai defender apaixonadamente sua versão.

Antes da fuga, pensou até em fazer um filme na Netflix no qual aparece como vítima – ou herói perseguido por um cruel sistema.

Um papel difícil de combinar com um homem tão fenomenalmente bem sucedido, interlocutor de presidentes – Brasil e França, inclusive –, condecorado pelo imperador do Japão e apelidado de “Mr. Fix It”, o senhor conserta tudo.

Em 2005, Carlos Ghosn se tornou o primeiro executivo do mundo a ser, simultaneamente, CEO de duas empresas na lista das 500 maiores do mundo, a Renault e a Nissan.

Em 2016, a parceira Renault-Nissan-Mitsubishi criou o quarto maior grupo automotivo do mundo.

No mesmo ano, ele desfilou com a tocha olímpica por um trecho de rua do Rio de Janeiro, cercado de seguranças.

A Nissan, que tem uma fábrica em Resende, foi uma das grandes patrocinadoras.

Quem se lembra das Olimpíadas? Parece que já se passaram décadas desde então.

Para Carlos Ghosn, a sensação de passagem do tempo deve ter sido maior ainda.

Da consagração à prisão, em três anos. E dessa para a fuga rocambolesca em treze meses.

Escondido num estojo de contrabaixo ou simplesmente saindo pela porta da frente, como mostrariam imagens ainda não reveladas, ele entrou num lugar onde quase ninguém, muito menos executivos de calibre mundial, esteve antes: um foragido internacional de luxo, protegido pela nacionalidade num país de alto risco do qual não pode sair.

Todo mundo continua querendo saber como.

Continua após a publicidade
Publicidade