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A estranha e violenta história da luta pelo voto das mulheres

A bonitona Alexandria Ocasio-Cortez, a estrela da esquerda nos Estados Unidos, empalidece diante do radicalismo das sufragetes inglesas

Todas as mulheres são iguais, mas Alexandria Ocasio-Cortez é mais igual do que as outras. O Twitter enlouqueceu quando ela apareceu com um casaco com mangas ao estilo capa na plateia do discurso do Donald Trump sobre o estado da nação.

O discurso foi tão bom e cheio de gestos à oposição democrata que até antitrumpistas eméritos reconheceram (“Eu gostei de partes dele. Mas então me lembrei da realidade de seu governo”, reclamou Ezra Klein, do site Vox).

Só Alexandria, a nova heroína de todo o espectro à esquerda nos Estados Unidos, não aplaudiu quando o presidente elogiou o número recorde de mulheres no Congresso. Mas levantou-se e comemorou com as colegas.

Todas as deputadas e senadoras democratas estavam de branco, imaginando que constrangeriam Trump com um modismo feminista recente, evocando a cor usada pelas sufragetes durante a campanha pelo voto das mulheres na Inglaterra (estranhamente, o presidente foi um pouco mais esperto).

Com sua capa da Zara (uma versão popular de modelos similares de alta moda frequentemente usados por Melania Trump) e a aura transgressora de “socialista democrática”, Alexandria nem chega perto das radicais inglesas do começo do século 20.

Praticantes da ação direta, um método de violência política que nasceu com o anarquismo, as sufragetes foram uma espécie de talibãs do movimento pelo voto feminino, lançando nas dobras da história as sufragistas originais, desprezadas como mulheres de “classe média” e adeptas de métodos de resistência pacífica como se acorrentar às grades do Parlamento.

As sufragetes jogavam bombas, lançavam ácido, tocavam fogo em órgãos públicos e até igrejas anglicanas, sob o pretexto de que “deveriam praticar o que prega a religião”.

Uma delas atacou com um relho, na estação ferroviária de Bristol, um jovem ministro do Interior chamado Winston Churchill. Duas se disfarçaram de vendedoras de laranja para disparar petardos com uma catapulta improvisada contra o carro do primeiro-ministro H. H. Asquith.

Outras militantes tentaram incendiar o Teatro Real, em Dublin, quando Asquith assistia um espetáculo diurno. Pouco antes, o primeiro-ministro havia escapado de uma machadada desfechada por uma das incendiárias, Mary Leigh. Ela errou o alvo, mas acertou um parlamentar irlandês na orelha.

Como os terroristas suicidas, as sufragetes estavam dispostas a tudo. Depois de dez prisões e sete greves de fome, interrompidas pela alimentação forçada, Emily Davison invadiu a pista do hipódromo de Epsom Down durante uma corrida e se jogou na frente de um cavalo pertencente ao rei George V. Morreu pouco depois, no dia 8 de junho de 1913.

Junto com ela estava Mary Richardson, que apanhou de pessoas furiosas do público, vivendo para praticar, no ano seguinte, o mais conhecido atentado das sufragetes.

Armada com um cutelo, ela entrou na National Gallery e retalhou um quadro de Velásquez. Não qualquer quadro, mas a Vênus no Espelho, um raro, excepcional e intrigante nu da deusa grega de costas.

De cintura fina e nádegas generosas, mas sem nada das rechonchudas musas nuas pintadas por Rubens, a Vênus com o rosto difuso pintado no espelho, mas olhando firmemente para o espectador, é um mistério até hoje. Especula-se que a modelo foi uma italiana, amante de Velásquez retratada, de frente, em outros quadros.

Mary Richardson atacou a obra de arte em protesto contra as sucessivas prisões da fundadora do movimento, Emmeline Pankhurst, uma mulher de personalidade complexa que dirigia os protestos com mão de ferro e a colaboração das filhas Chrystabel, Adela e Sylvia. A família viria a rachar por diferenças políticas.

O chocante atentado contra uma célebre obra de arte, um ato que viria a ser nos tempos atuais ao Talibã e ao Estado Islâmico, foi assim justificado por Richardson: “Eu tentei destruir a pintura da mulher mais bela da história mitológica como um protesto contra o governo por destruir a senhora Pankhurst, que é a figura mais bela da história moderna”.

Mary Richardson também não gostava dos “homens que ficavam resfolegando” diante dos atributos calipígios do nu de Velásquez, exposto numa sala discreta da National Gallery.

Longe de ser destruída, apesar das sucessivas prisões e do método cruel de alimentação forçada para que as greves de fome “não criassem mártires”, que viria a ser repetido como militantes armados do IRA, Emmeline Pankhurst continuou à frente da União Política e Social das Mulheres.

O problema era interno. Quando Chrystabel passou a dividir a liderança com a mãe, adotou a tática dos incêndios. Sylvia era mais radical ainda e queria que a organização se aliasse claramente ao socialismo do Partido Trabalhista Independente.

Expulsa do grupo, inclusive com o voto da irmã Chrystabel, mas em companhia de Adela, foi caminhando cada vez mais para a esquerda. Com a Revolução Russa, passou a defender o mesmo modelo de sovietes para a Inglaterra.

Visitou a Rússia várias vezes. Chegou a ficar, literalmente, à esquerda de Lênin, defensor da consolidação das estridentes facções britânicas em torno do Partido Comunista controlado por Moscou.

Emmeline e Chrystabel, ao contrário, suspenderam atividades durante a Primeira Guerra Mundial e passaram a colaborar com o esforço de guerra. Para horror de Sylvia, que publicava artigos criticando-as.

Com o fim da guerra, finalmente foi aprovado o voto feminino, para mulheres acima dos 30 anos, que tivessem ou ocupassem propriedades.

No fim da vida, Emmeline Pankhurst, assustada com a força do bolchevismo, entrou para o Partido Conservador. Morreu em 1928, ano em que o voto universal, aos 21 anos, entrou em vigor.

Morreu rompida com Sylvia porque ela não quis se casar com o anarquista italiano com quem teve um filho. Com a ascensão do fascismo na Itália e a invasão da Etiópia, ela adotou uma nova causa para a vida toda. Apaixonou-se tanto por ela que acabou indo morar na Etiópia, a convite do imperador Haile Selassie.

Mary Richardson, ao contrário, aproximou-se do fascismo, que foi uma força política considerável na Inglaterra. Os “camisas negras” liderados por Oswald Mosley tinham “a coragem, a lealdade, o desprendimento e a capacidade de servir que conheci no movimento sufragete”, disse ela.

Duas outras conhecidas sufragetes também aderiram ao fascismo de Mosley. Herdeiro do título de barão, ele se casou pela segunda vez com uma das famosas irmãs Mitford, Diana. O casamento foi em 1936, na casa de Joseph Goebbels e com Adolf Hitler entre os convidados.

A entrega total a uma causa, nobre ou perversa, é um dos mecanismos mais poderosos da psique humana. Religião e política são os motores mais frequentes da militância fanática.

Ter um uniforme, uma roupa, um lenço ou um boné, para identificar os seguidores é um elemento simbólico importante.

As deputadas e senadoras democratas já haviam se vestido de branco em outro discurso sobre o estado da nação, um ritual da política americana que virou palco de atitudes confrontacionistas desde que Donald Trump foi eleito.

No ano passado, as democratas foram de preto, em solidariedade ao movimento #MeToo.

Com a ascensão de Alexandria Ocasio-Cortez e seus exércitos de seguidores nas redes sociais, a moda do branco foi mais comentada. Por causa da capa, chegou a ser comparada a uma super-heroína ao estilo das histórias em quadrinhos.

Que diferença com as sufragetes originais. Extremistas, radicais, terroristas, dispostas a sacrificar até a vida. E também complicadas, divididas por diferenças ideológicas e de métodos de ação, tumultuadas por paixões políticas e humanas.

No final, vitoriosas. E tudo isso sem Twitter.

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