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A esquerda que envergonha a esquerda: Nicarágua, Venezuela, Cuba

Daniel Ortega manda prender maior líder empresarial do país - uma das muitas insanidades que assolam países atolados entre a miséria e a repressão

Por Vilma Gryzinski 22 out 2021, 07h35

Vendo as expressões, mas principalmente as atitudes, deformadas de Daniel Ortega e Rosario Murillo, é quase impossível acreditar que foram jovens e românticos líderes esquerdistas, celebrados por seus contemporâneos como heróis que haviam derrotado uma ditadura de manual, a da dinastia Somoza.

“Continuo vivendo a revolução com olhos sentimentais, mas é cada vez mais difícil separar a ideia de sandinismo que tínhamos nos anos oitenta da figura de Daniel Ortega, o ditador”, resumiu para o El País o maior escritor em atividade da Nicarágua, Sergio Ramírez.

Revolucionário sandinista e vice-presidente de Ortega depois da derrota da ditadura Somoza, Ramírez está de volta ao exílio: vai se radicar na Espanha na certeza de que o pior o aguarda se voltar a seu país. Em 9 de setembro, Ortega assinou a ordem de prisão do escritor. Até o governo argentino, tão alinhado com a esquerda, protestou.

Prender ex-companheiros não é novidade para Ortega, associado à mulher e vice-presidente (além de bruxa praticante, segundo acreditam muitos nicaraguenses) num regime delirante, mistura de seita com linguagem new age e ditadura na linguagem de sempre.

A repressão que antecede a eleição presidencial do próximo dia 7 está concentrada na elite, unida na oposição às insanidades de Ortega. Ontem, foi preso o presidente da principal entidade empresarial do país, Michael Healy. Também foi preso o vice-presidente da União de Produtores Agropecuários, Álvaro Vargas.

Todos os principais, e também os menos importantes, candidatos que poderiam ombrear com Ortega estão na penitenciária El Nuevo Chipote. A mais conhecida é Cristiana Chamorro, da célebre família de donos do jornal La Prensa. O assassinato de seu pai precipitou a derrocada da ditadura Somoza e sua mãe, Violeta, foi presidente depois de romper com a frente unida com o sandinismo. Em agosto, o jornal deixou de circular, sufocado pela falta de papel, um feito que pode ser debitado na conta de Ortega.

Ao todo, há 34 dirigentes oposicionistas presos e três em prisão domiciliar. Os detidos, mantidos em celas com luz acesa a noite toda ou mergulhadas na escuridão, perderam entre sete e 23 quilos por causa da alimentação ínfima. “É um desfile de esqueletos”, segundo a descrição de um familiar citada pelo Infobae.

Um dos presos passou 26 dias sem saber que sua mãe havia falecido.

As acusações vão de traição à pátria a incitação à intervenção estrangeira, nada muito diferente do que está sendo feito em Cuba com os presos políticos depois das grandes manifestações de 11 de julho.

Comparado ao espetáculo grotesco da Nicarágua de Ortega e Rosario Murillo, o regime cubano é  um exemplo de racionalidade e cabeça fria. A repressão é organizada e sistemática, tentando manter uma fachada de legalidade.

É preventiva também: a Procuradoria Geral da República avisou que quem se atrever a participar da marcha marcada para 15 de novembro em solidariedade aos presos políticos pode ser enquadrado nos delitos de “manifestações ilícitas, instigação à delinquência e outros”.

Os organizadores da marcha cívica pediram autorização para a manifestação pacífica, mas foram acusados de ser agentes a serviço dos Estados Unidos e de organizar um protesto pela mudança de regime.

Um governo socialista com medo de povo não é nenhuma novidade, mas nunca a natureza repressiva do regime foi declarada de forma tão explícita.

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Cinco dos integrantes do movimento Arquipélago, organizador da marcha, foram convocados a prestar depoimento, incluindo o ator e dramaturgo Junior García, cuja linguagem é incrivelmente semelhante à de jovens progressistas do mundo todo.

“Aconteça o que acontecer, insistimos no nosso direito de ter direitos. Estamos decididos a conquistar civicamente nosso espaço de participação na realidade do país onde nascemos”, escreveu ele no Twitter.

“Não se pode pedir permissão para ser honestos, para expressar nosso pensamento de maneira franca e pública. Cuba terá que deixar de ser um armário ideológico. Nós cubamos teremos que aprender também a sair desses armários, com a cabeça bem para cima, sem se importar com os preconceitos ou os doutrinamentos dos conservadores. Os cidadãos têm que acaba de se empoderar, com sua ampla e legítima diversidade”.

Os oposicionistas cubanos estão revelando uma vitalidade e uma expressividade de deixar envergonhados aqueles que não se identificam com sua sede de liberdade.

É esse sopro de vida que parece ter desaparecido da oposição venezuelana, vencida pelo cansaço e pelo poder arrasador que um regime que sobrevive a um dos maiores desastres econômicos da história: ter colocado 94% da população venezuelana na pobreza.

A melhor notícia sobre a Venezuela hoje vem de fora da Venezuela: o ex-chefe da espionagem militar Hugo Carvajal está contando à justiça espanhola, que julgará um pedido de extradição dos Estados Unidos, como funcionava o esquema de pagamentos a políticos e governantes alinhados com o chavismo.

A maior bomba até agora envolve a Argentina. Segundo Carvajal, o total de dinheiro enviado para a campanha de Cristina Kirchner deixa longe a maleta com 800 mil dólares apreendida por acaso.  No total, foram 21 milhões de dólares.

Tem também o vídeo de Nicolás Maduro falando com um cavalo, algo confusamente, para comemorar “o caminho de Chávez” nos nove anos da morte do líder bolivariano.

“Estou te vendo e você me vendo. Vamos adiante? Caminhamos juntos?”, elaborou Maduro.

Faz nove anos que os venezuelanos têm que aturar isso, juntamente com o desmonte sistemático e alucinado do país.

Falando sobre Daniel Ortega, o escritor Sergio Ramírez falou sobre toda a casta que se proclama de esquerda e se dedica em tempo integral a manter o próprio poder:

“Ortega converteu o sandinismo numa dinastia familiar obscena, porque é gente que vive à margem da sociedade, desfrutando de uma riqueza que nunca conquistaram. Vivem em um gueto no centro de Manágua, como uma classe social à parte, com privilégios extraordinários em uma sociedade pobre, e é uma dinastia. Ou Ortega pretende que seja, para repetir o modelo que custou tanto sangue e que acreditávamos enterrado, o modelo de Somoza”.

Isso é esquerda?

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