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A amante de 100 milhões de dólares: percalços do ex-rei da Espanha

Briga por dinheiro depois de separação não é exclusividade do povão, mas Juan Carlos e a linda Corinna descem alguns degraus na baixaria

Por Vilma Gryzinski 30 jul 2021, 08h38

Imaginem a seguinte situação: um homem numa posição importante recebe uma comissão por baixo do pano e, para não expor seu nome, deposita o dinheiro na conta da amante num banco suíço, prevendo que garantiria um pé de meia quando finalmente ele largasse a esposa e os dois assumissem o romance.

Mas os dois rompem e, inconformado, ele começa a pressionar a ex-amante a devolver a bolada. Ela diz que o dinheiro foi um presente e o acusa de assédio moral.

Este é basicamente o roteiro que envolve Juan Carlos I, o desmoralizado rei emérito da Espanha, e Corinna Larsen, sua ex-amante.

A quantia envolvida não é pouca: 100 milhões de dólares, que promotores de dois países, Suíça e Espanha, querem associar a uma comissão paga pelo rei da Arábia Saudita a Juan Carlos, por ajudar a diminuir o valor orçado por uma empresa espanhola para implantar o trem-bala de Meca.

O caso já é conhecido há algum tempo e contribuiu para a vexaminosa saída pelas portas dos fundos do rei emérito, seu título oficial, quando deixou a Espanha na surdina e se homiziou nos Emirados Árabes Unidos, temendo que a polícia acabasse batendo à sua porta.

O escândalo voltou à tona porque Corinna Larsen agora acusa o ex-rei de assédio e difamação na justiça da Inglaterra, onde foi morar depois de deixar seu duplex em Mônaco, onde se dedicava à arte de promover contatos e negócios do mundo dos muito ricos e, eventualmente, aristocratas. 

Ela diz ter ouvido do ex-amante que as consequências “não seriam boas” se não devolvesse o dinheiro que considerou, na época, uma prova de “amor e afeto”. Também acusa o então diretor do serviço secreto espanhol, general Félix Sanz Roldán, de pressioná-la a mando de Juan Carlos,  insinuando ameaças sobre sua segurança e a de seus filhos.

O maior mal que o processo de Corinna, uma dinamarquesa que usou durante algum tempo o sobrenome e o título do segundo marido, o príncipe alemão Casemir Zu Seyn Wittgenstein, pode causar é ao rei Felipe VI, o filho certinho que procura se distanciar cada vez mais das trapaças do pai, mas que sempre pode ser prejudicado por aproximação.

Juan Carlos não tem mais reputação a salvar. Seu mundo começou a desabar em abril de 2012, quando sofreu uma queda durante uma caçada em Botswana e precisou ser levado de volta à Espanha. As aparências que mantinha, com uma certa cumplicidade da imprensa, desabaram. 

Vieram à tona o caso com Corinna, os contatos suspeitos – o safári em Botswana tinha sido pago por um empresário sírio – e, mais chocante de tudo, a foto de uma caçada anterior, onde ele posava com a filha Elena ao lado de um elefante morto.

O processo de desmoralização desencadeado a partir daí, com o risco de levar junto para o buraco a monarquia, o levou a abdicar em favor do filho dois anos depois.

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O caso com Corinna havia terminado há tempo. Segundo ela, quando ele lhe disse que não mantinha uma relação de exclusividade – e não existe ciúme maior do que o das amantes.

Os dois haviam se conhecido durante uma caçada na propriedade espanhola do duque de Westminster. Corinna trabalhava nesses eventos para pouquíssimos privilegiados promovidos por um fabricante de armas de caça da Inglaterra. 

Depois de estabelecida praticamente como amante oficial do rei da Espanha, ela se mudou para o ramo de promoção de contatos e negócios. 

Juan Carlos foi loucamente apaixonado por ela, a ponto de ter consultado advogados sobre a possibilidade de se divorciar da rainha Sofia. Chegou a pegar um avião para ir à Alemanha pedir a mão dela em casamento ao pai, o dinamarquês Finn Bonning Larsen, que durante muitos anos foi diretor da Varig na Europa.

Nas monarquias constitucionais europeias, reis e rainhas têm apenas um papel simbólico, que depende muito da imagem e da aprovação da opinião pública. Um dos argumentos dos defensores desse tipo de sistema é que o papel de chefe de Estado fica mais sólido e respeitável quando não envolve políticos.

Quando reis se comportam como aqueles que pretendem substituir com mais elegância, o argumento desmorona.

Na Espanha existe uma esquerda antimonarquista forte e a opinião pública flutua. O sistema todo se desmoraliza quando escândalos de corrupção solapam seus fundamentos. 

Felipe é totalmente dedicado a criar uma imagem de monarca moderno, de comportamento impecável. Afastou a própria irmã, Cristina, da família quando o marido dela se enredou num caso de corrupção que o levou à cadeia. Renunciou publicamente a qualquer herança que viesse a receber do pai, como beneficiário de duas fundações de fachada que Juan Carlos criou para administrar seus recursos não contabilizados.

Na Inglaterra, são os filhos – e netos – que criam problemas para a rainha. No caso dos espanhóis, é o pai que cria problemas para o filho.

Existe ainda algum segredo inconveniente que o processo de Corinna contra o o rei aposentado possa revelar? Dificilmente. 

Mas sempre é bom não subestimar a capacidade destrutiva de uma ex-amante que não quer devolver um presentinho de 100 milhões de dólares.

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