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O eterno retorno dos clássicos

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Por Maria Carolina Maia - Atualizado em 14 ago 2018, 00h12 - Publicado em 26 jul 2010, 22h57

Chegam nesta segunda-feira às lojas os primeiros títulos da parceria entre a Companhia das Letras e a Penguin, editora britânica especializada em conteúdos clássicos. São quatro as obras que inauguram a parceria: o romance Pelos Olhos de Maisie, de Henry James, o manual de política O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, e dois livros organizados pelo historiador Evaldo Cabral de Mello, Joaquim Nabuco Essencial, com textos das três obras mais relevantes do pernambucano, e O Brasil Holandês, uma reunião de documentos históricos comentados por Mello. Os títulos já são candidatos às mochilas dos estudantes escolares e universitários. E para não estudantes, vale a leitura? Com base em Maquiavel, dois professores – Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Estevão de Rezende Martins, da Universidade de Brasília (UnB) – respondem à questão.
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Ainda vale a pena ler O Príncipe, cinco séculos depois?

Estevão de Rezende Martins: Maquiavel sistematiza, no confinamento a que fora condenado em Santo André de Percussina, a tipologia política dos sistemas de governo de seu tempo. O início do século XVI viu ocorrerem transformações de monta, que assinalam a consolidação do estado moderno na Europa ocidental, e Maquiavel é um observador privilegiado, após 14 anos a serviço da república de Florença.

Roberto Romano: Segundo a lição de Spinoza, o autor da mais profunda Ética da idade clássica da razão de estado (o século 17), O Príncipe ensina aos povos as artimanhas dos políticos. Quem paga impostos, é enviado à guerra e sofre na pele os desmandos dos que dirigem os estados, percebe na hora a utilidade daquele monumento teórico e prático.

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Por que, de modo geral, devemos ler os clássicos?

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Estevão de Rezende Martins: Um clássico é um texto (ou outra obra pictórica, escultural, arquitetônica), cujo tema, motivo, origem, utilização, praticidade se reproduz no interesse de diversas épocas sucessivas. Lê-los é entender nossas próprias raízes histórico-culturais.

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Roberto Romano: Maquiavel, em carta célebre, diz a um amigo que durante o dia frequentava as tavernas, as padarias, os açougues e as feiras. Ali, gastava o tempo que lhe sobrou, no exílio. Mas à noite, afirma, “coloco minhas roupas mais dignas e entro no escritório para conversar com os ilustres homens da antiguidade”.

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De que maneira devemos ler O Príncipe?

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Estevão de Rezende Martins: É preciso ter presente que o período em que Maquiavel escreve é conturbado (e as condições sob as quais se encontrava, difíceis: nunca conseguirá voltar à atividade política) e que a existência do estado pontifício, exemplo maior de mescla entre o político e o moral, era um problema maior.


Roberto Romano:
O Príncipe, como as demais pedras mestras do pensamento deve ser lido com cautela máxima. Antes de tudo é preciso que o leitor se informe sobre o mundo renascentista (da economia à religião, desta à diplomacia) para que o discurso maquiavélico adquira sentido histórico e teórico.

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Quais os pontos a desconsiderar em O Príncipe?

Estevão de Rezende Martins: A leitura posterior de que Maquiavel sugere um comportamento inescrupuloso aos governantes, no sentido distorcido da expressão “maquiavélico”. O que o autor propõe é o pragmatismo: os interesses do estado à frente dos interesses morais da sociedade.

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Roberto Romano: Nenhum. Todas as sentenças, capítulos, conclusões, alusões e demonstrações devem ser levadas a sério e pesadas com rigor técnico e, mesmo, matemático. Não por acaso Maquiavel foi chamado, por muitos comentadores, como o Galilei Galileu da vida política moderna.

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Maria Carolina Maia

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