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Narrativa adulta de JK Rowling é convencional e enfadonha

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Por Maria Carolina Maia Atualizado em 13 ago 2018, 17h01 - Publicado em 12 jan 2013, 09h01

Um romance de estreia deve ser lido com olhos complacentes. Afinal, escrever requer técnicas, ainda que muitos cheguem a elas de maneira intuitiva, e quem está começando em geral não dispõe de experiência para dominá-las. Ou porque ainda não leu o suficiente ou porque não escreveu tanto quanto deveria para apreendê-las. Mas como encarar o primeiro romance adulto de alguém que fez carreira – e colheu elogios – escrevendo para crianças e adolescentes? Morte Súbita (tradução e edição de Izabel Aleixo e Maria Helena Rouanet, Nova Fronteira, 512 páginas, 49,90 reais), a estreia adulta da criadora de Harry Potter, deve ser lido com benevolência, já que a escritora resolveu correr risco em uma área nova para ela, ou com olhar exigente, uma vez que se trata do novo trabalho de alguém que já escreveu dez livros – os sete de Potter e outros três para o público da série, que vendeu mais de 450 milhões de exemplares pelo mundo e fez de J. K. Rowling a primeira escritora bilionária da história?

É claro que títulos infantojuvenis e adultos têm as suas diferenças. A primeira, e principal, diz respeito ao conteúdo. JK parece ter procurado superar a questão dando uma guinada na sua temática. Em vez de fantasia, da magia de Harry Potter, em Morte Súbita ela investe na realidade, criando um painel do Reino Unido, em crise econômica e com relações sociais pacíficas apenas na superfície, a partir do microcosmos de Pagford, um distrito de West Country, sudoeste inglês.

O romance mostra como se comportam os moradores do vilarejo quando um dos membros de seu conselho, Barry Fairbrother, morre de uma hora para outra de um provável aneurisma, deixando vago um posto que pode ser decisivo para o futuro de dois locais ligados ao distrito: o conjunto habitacional de Fields, que tem a limpeza e a manutenção administradas por Pagford, com verbas insuficientes enviadas pela cidade de Yarvil, e a clínica de reabilitação destinada aos moradores de Fields, que ocupa um prédio pertencente a Pagford. Por tabela, o acesso dos jovens de Fields à ótima escola pública de Pagford também pode ser comprometida, se o bairro popular passar a ser responsabilidade de Yarvil, como quer um grupo rival da turma de Fairbrother. É em torno da disputa pela vaga do conselheiro e pelo destino de Fields e da clínica Bellchapel, que gira o livro.

Gira, mesmo. E está aí uma característica de Morte Súbita que provoca ao mesmo tempo interesse e sono. O romance é escrito numa espiral: JK Rowling está o tempo todo passando de um personagem a outro e a outro e a outro, e cada vez que ela retorna a um personagem sabemos um pouco mais sobre ele. Ela trabalha, assim, com pinceladas, muitas pinceladas, porque são muitos os personagens. O livro apresenta ao menos oito famílias, cada uma com pelo menos três pessoas, além de personagens independentes que se ligam a esses núcleos – como o traficante que fornece heroína para a mãe da única família de Fields a ter destaque na história. Ao escolher essa estrutura e um narrador em terceira pessoa que sabe tudo, ela vai construindo aos poucos o painel que deseja. No começo, a tática pode até despertar admiração, mas depois de 50 páginas começa a enervar. Grosso modo, a primeira metade do livro (e vão aí 250 páginas) é modorrenta. A partir da segunda metade, a coisa finalmente engrena, com a ação dos personagens adolescentes – e JK prova que entende como poucos a cabeça dos jovens.

Se na temática ela deixou para trás a veia infantojuvenil, em termos textuais a autora parece ter estacionado no estilo convencional da sua famosa saga. Basta comparar trechos para notar como ela permaneceu corretinha – e livros infantojuvenis nem precisam ser corretinhos na forma. Em Harry Potter e a Ordem da Fênix:

Quase como se tais pensamentos tivessem entrado pela janela aberta, repentinamente Válter Dursley, o tio de Harry, falou:

– Fico contente de ver que o garoto parou de se meter aqui. Por falar nisso, onde será que ele anda!

– Não sei – respondeu tia Petúnia, desinteressada. – Aqui em casa não está.

O tio grunhiu.

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Assistir ao noticiário… – comentou com severidade. – Gostaria de saber o que é que ele está realmente aprontando. Como se um garoto normal se interessasse por noticiário; Duda não tem a mínima idéia do que está acontecendo; duvido que saiba quem é o primeiro- ministro! Em todo o caso, não há nada sobre gente da laia dele no nosso noticiário

– Válter, psiu! – alertou tia Petúnia. – A janela está aberta!

Em Morte Súbita:

Às dez e cinquenta e um, Krystal entrou feito uma bala, batendo a porta atrás de si. Jogou-se na cadeira diante de Tessa, com os braços cruzados sobre os seis avantajados e os brincos vagabundos balançando nas orelhas.

– Diz pro seu marido – principiou ela, com voz trêmula – que eu não ri porra nenhuma, viu?

– Por favor, Krystal, nada de palavrões na minha frente – replicou a orientadora.

Eu não ri coisa nenhuma… ok? – gritou a garota.

Estão aí os verbos descritivos (grunhiu, replicou), que melhor fariam se dessem lugar a verbos diretos e objetivos como dizer e falar, e o itálico para ressaltar mudanças no tom de voz, de que o próprio teor das palavras deveria dar conta. Mas ainda há coisas piores no livro, como a descrição às vezes excessiva dos personagens (“Seguindo o seu hábito tão profundamente arraigado, Gavin tratou de impedir a eclosão de um conflito que parecia iminente e deixar que o futuro se resolvesse por si só. […] Mas com a sua evidente falta de entusiasmo tentou deixar bem claro algo que poderia vir a usar mais tarde: Você sabia que eu não estava a fim de vir. Não gostei, não. Não pretendo repetir a dose”) e as digressões feitas entre parênteses (mais desnecessários que esses aqui). Para piorar, o texto esbarra por vezes em clichês (“Os limpadores de para-brisa funcionando a todo vapor”, ”A chuva caiu por dias e noites a fio”).

E então, como julgar Morte Súbita, com a complacência destinada a romances de estreia ou a exigência sobre o trabalho de uma escritora experiente? Ainda que se opte pela primeira opção, não se salva a leitura. Como dizer para alguém que vale lutar contra 250 páginas – a metade enfadonha do livro – se há tanta coisa boa para se ler por aí? Mas a decisão, ao contrário do que faz o narrador de JK Rowling, que subtrai boa parte das nuances da história, é do leitor.

Maria Carolina Maia

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