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Lena Dunham, de ‘Girls’, faz de biografia um selfie literário

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Por Mariana Zylberkan Atualizado em 13 ago 2018, 16h17 - Publicado em 27 dez 2014, 09h03

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Lena Dunham pode ser considerada uma das revelações da era de ouro que vem vivendo a TV americana. Na esteira das muitas séries de sucesso surgidas nos últimos anos, a criadora da premiada Girls, da HBO, contribuiu para que a televisão superasse o cinema como plataforma lançadora de novidades. Ao retratar sem filtros a realidade da juventude atual, que luta para deixar a sua marca e buscar independência apesar da grande crise econômica em que o mundo se encontra, Lena arrebatou fãs, elogios da crítica e prêmios, incluindo dois Globos de Ouro. Sua autobiografia, Não Sou uma Dessas – Uma Garota Conta Tudo o que Aprendeu (Not That Kind of a Girl, Intrínseca, 304 páginas, 29,90 reais), portanto, foi lançada sob altas expectativas — é, afinal, a sua primeira produção após a série de sucesso na TV. Ao usar o mesmo despudor com que se deixa filmar nua em Girls, apesar do corpo fora dos padrões hollywoodianos, para contar “tudo o que aprendeu”, como promete o subtítulo do livro, a atriz e roteirista se afasta do papel de voz de sua geração, adquirido com o estouro da produção da HBO, para testar e muitas vezes ultrapassar os limites da superexposição da intimidade. A autobiografia de Lena Dunham eleva à enésima potência o atual exibicionismo digital e soa como um repetitivo selfie literário.

487839_nao-sou-uma-dessas-677492_L2Com uma narrativa ágil e bem-humorada, a roteirista vaga entre passagens íntimas, como as suas primeiras experiências sexuais, contadas em detalhes. Entra nessa categoria o estupro que ela diz ter sofrido após misturar álcool, ansiolíticos e cocaína em uma festa da faculdade – passagem que rendeu uma investigação policial seguida de um processo por danos morais pelo suposto autor do abuso e a obrigou a suprimir o trecho em novas edições da obra, nos Estados Unidos. Há também capítulos inteiros dedicados ao cardápio da dieta que ela seguiu para perder peso e listas com cartas imaginárias para desafetos que Lena nunca enviou.

Nesses altos e baixos entre sensibilidade extrema e superficialidade descartável, a autobiografia tem um aspecto que se mantém constante, além da intimidade escancarada como marca registrada: a autoafirmação feminista da autora. Seja para responder de forma inteligente a quem lhe questiona por aparecer sem roupa na TV ou para apontar o machismo ainda presente nos bastidores da TV e do cinema, mesmo que sem a descrição frenética com que narra as suas relações pessoais, Lena ressalta a sua condição de mulher em busca de igualdade com o sexo oposto. Lena deixa claro que ainda há um longo caminho a percorrer para as mulheres ao fazer paralelos, por exemplo, entre o espanto causado pelas cenas em que aparece nua em Girls com o choque provocado pelos autorretratos que sua mãe, a fotógrafa Laurie Simmons, fez sem roupa nos anos 1970.

A influência dos pais, aliás, permeia a maioria das histórias, desde a infância até sua consolidação como autora de TV de sucesso. A trajetória individual do casal Laurie Simmons e Carroll Dunham, um artista plástico de renome na cena cultural nova-iorquina, é muitas vezes emprestada pela autora para contar a própria história, o que rende passagens interessantes e um refresco do egocentrismo sem propósito da autora. Exemplo disso é o capítulo dedicado às emoções e descobertas que a sua mãe viveu nos acampamentos frequentados na adolescência, experiência que a autora tenta reeditar em viagens semelhantes, sem sucesso.

A dependência emocional da família é refletida também pela relação com a irmã mais nova, a atriz Grace Dunham, que foi alvo de mais um burburinho despertado pelo lançamento do livro. Ao lembrar das férias na praia, quando ainda era criança, Lena conta que examinou a vagina da irmã quando ela era um bebê, o que gerou reações exaltadas. Setores conservadores da sociedade americana a acusaram de ter abusado sexualmente de Grace e Lena se viu obrigada a refutar publicamente as acusações.

As experiências relatadas pela criadora de Girls em sua autobiografia, com exceção do estupro,  certamente são ecoadas na trajetória da maioria das garotas de 28 anos que cresceram em uma cidade grande como Nova York e assumiram riscos emocionais na busca pela própria identidade. Difícil alguém por volta dos 30 anos não se identificar. Ainda que Lena Dunham não seja uma dessas garotas.

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