Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Dicas para ser um escritor (2)

.

Foto de Tereza Yamashita/Divulgação

No início desta pequena série, linkada à discussão sobre a idade certa para escrever, VEJA Meus Livros apresentou as dicas para escrever bem da escritora e crítica de arte gaúcha Veronica Stigger. Confira agora o decálogo do escritor Nelson de Oliveira, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de livros como Naquela Época Tínhamos um Gato, Subsolo Infinito A Maldição do Macho, e organizador de duas antologias de contos Geração 90: Manuscritos de Computador (2001) e Geração 90: Os Transgressores (2003), além de autor da coletânea A Oficina do Escritor: sobre Ler, Escrever e Publicar, da qual retirou este decálogo:
.
.

1. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Os prosadores devem ler bons poemas. Os poetas devem ler boa prosa. Digo isso porque tenho notado que a maioria dos prosadores não aprecia a arte poética, assim como a maioria dos poetas não aprecia a arte da prosa. Isso não é sinal de inteligência. O escritor iniciante também precisa cultivar o gosto pela reflexão teórica. Livros de filosofia, de crítica e de história da literatura precisam freqüentar sua mesa de trabalho.

2. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler o passado e o presente, o cânone e a atualidade. Digo isso porque tenho notado que metade dos escritores iniciantes aprecia somente a literatura contemporânea, enquanto a outra metade aprecia somente os clássicos. Isso não é sinal de inteligência. O passado e o presente precisam estar em perpétuo diálogo.

3. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler os brasileiros e os estrangeiros, os daqui e os de lá. Digo isso porque tenho notado que metade dos escritores iniciantes aprecia somente a literatura brasileira, enquanto a outra metade aprecia somente os estrangeiros. Isso não é sinal de inteligência. Certo, eu confesso: eu pertenço ao primeiro time, esse mandamento vale pra mim. Aprecio muito mais a prosa e a lírica brasileiras do que a prosa e a lírica estrangeiras. Por isso tenho me obrigado, ao menos profissionalmente, a estar sempre em contato com os de lá. Minha tese de doutorado foi sobre a lírica portuguesa contemporânea.

4. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler desconfiando do que está lendo, ler desconfiando do autor, do editor, do livreiro. Desconfie dos livros de sua predileção, desconfie mais ainda dos autores de sua predileção. Livros e autores, ame-os intensamente, sim, mas jamais se entregue à idolatria cega, pois os escritores são mestres na arte da sedução e do engano.

5. Ver muito. Ver de tudo. Ver sem preconceito. Cinema, dança, artes plásticas, teatro, seriados de tevê. Ouvir muito. Ouvir de tudo. Ouvir sem preconceito. Música erudita e popular, clássica e contemporânea. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Quadrinhos, quadrinhos, quadrinhos. Jogar muito. Jogar de tudo. Jogar sem preconceito. Videogame, RPG, cosplay.

6. A literatura é antes de tudo linguagem. Linguagem articulada com sensibilidade e talento. Linguagem estética, subjetiva, conotativa, que ultrapassa a linguagem ordinária, objetiva, denotativa. O escritor não deve procurar com avidez o mínimo denominador comum: apenas a linguagem que é acessível à maioria das pessoas. Quem faz isso são os autores de best-sellers, simples contadores de histórias, simples versejadores, não os verdadeiros escritores.

7. Evite o estereótipo, fuja do clichê, corra do chavão, não marque encontro com o lugar-comum. O critério originalidade não é exclusivo apenas do desfile das escolas de samba, ele ainda faz sentido também na atividade literária.

8. Bons sentimentos não fazem boa literatura. Afaste-se do tratamento edificante, repleto de boas intenções. A sociedade está cheia de defeitos, porém a melhor forma de propor soluções não é produzir literatura doutrinária, militante, moralista.

9. A função da boa literatura não é entreter e deleitar, mas inquietar e provocar o leitor. Se a narrativa e o poema passam o tempo todo adulando o leitor, dando-lhe somente o que ele deseja, evitando constrangê-lo ou contrariá-lo, essa narrativa e esse poema são péssimas peças literárias.

10. Prosadores, evitem as formas consagradas, evitem o conto e o romance realista, inventem sua própria forma, a teoria do efeito único e concentrado (Poe e Tchekov) e a do iceberg (Hemingway e Piglia) pertencem ao passado glorioso. Poetas, evitem as formas clássicas, evitem o verso de medida fixa, inventem sua própria métrica, fujam da rima, o poema regularmente metrificado e rimado pertence ao passado glorioso.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    Fátima

    Eu também gostei muito das dicas do Nelson de Oliveira. Acabo de publicar meu primeiro livro independente no Clube de Autores. O livro “Mulheres Guerreiras” fala da vida comum, de um jeito simples. Foca no gênero feminino, pois como mulher sei bem o que é ser guerreira em tempos de “guerra”. Quem sabe o Nelson me leia e o livro pegue no breu? Fátima Rosalina Castelo Branco –

    Curtir

  2. Comentado por:

    Raquel

    Julgar as pessoas dizendo que não podem gostar só disso ou daquilo, que “devem” ser assim ou assado, também não é sinal de inteligência.

    Curtir

  3. Comentado por:

    Ricardo da Mata

    Nunca vi dicas mais estúpidas, coisa de gente míope que só enxerga o momento atual e não tem real cultura literária. Ao mesmo tempo ele não é nem um pouco original, pois são só clichês modernosos. O próprio Nelson de Oliveira, um escritor de quinta categoria mostra-se um crítico de oitava. Ler de tudo é um péssimo conselho, só se deve ler o que é bom, o que tem valor estético. Essa história de que literatura é feita para provocar é besteira simplória, arte foi durante milênios diversão de alto nível. Evitar formas consagradas é mais um clichê modernoso, coisa de gente que não é capaz de criar obras do mesmo nível das anteriores.

    Curtir

  4. Comentado por:

    Ricardo da Mata

    Doutor em letras que não conhece literatura estrangeira e prefere a brasileira? KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    Curtir

  5. Comentado por:

    lidia

    até os setenta anos espero desabrochar algo revolucionário e publicar.
    Obrigada.Há, já estou com 62.

    Curtir

  6. Comentado por:

    lidia

    até os setenta anos espero desabrochar algo revolucionário e publicar.
    Há, já estou com 62.Para mim foi útil.

    Curtir