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Colson Whitehead: ‘Quanto mais branco o país, mais estranhas as perguntas’

O autor vencedor do Pulitzer é convidado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e fala a VEJA sobre racismo, críticas e novos projetos

Por Luísa Costa Atualizado em 30 jul 2018, 15h32 - Publicado em 28 jul 2018, 14h52

No Brasil para a 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o escritor Colson Whitehead, 48 anos, inicia conversa com jornalistas explicando que é estranho estar de volta. Seguindo conselho de colegas, veio fazer um mochilão na América do Sul aos 24 anos, com pouco dinheiro. Sua passagem por Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo tiveram efeito no início de sua carreira como escritor: “Foi quando me comprometi comigo mesmo a escrever meu primeiro romance”, conta.

Ao retornar com uma vida totalmente diferente, esposa, filhos e 8 filhos na bagagem – um deles, o vencedor do Pulitzer Underground Railroad – Os Caminhos Para a Liberdade (HarperCollins Brasil), ele diz que muita coisa ainda não mudou: como em alguns lugares nos Estados Unidos e mesmo aqui no Brasil, a recepção de um homem negro tem sempre um olhar meio suspeito. Para ele, a administração Trump dão razões de sobra para ser pessimista em relação ao futuro.

  • De semblante grave, Whitehead pontua suas frases com um sorriso ou uma risada e tenta inserir humor em assuntos indigestos. Em entrevista a VEJA, ele fala de sobre racismo, críticas e novos projetos. Confira:

    Há perguntas que não gosta de responder como autor e negro? Com certeza. Acho que quanto mais branco o país, mais estranhas as perguntas. Ao invés de perguntar sobre o livro, eles jogam um jogo que chamo de ”pergunte ao cara negro do livro uma pergunta aleatória”. Eu não sou um porta-voz da negritude nos Estados Unidos. Responder a perguntas sobre como o racismo funciona no meu país é irritante. Não gosto de explicar a cultura negra. Não há uma cultura negra, há 30 milhões de americanos negros e alguns são ricos, ou pobres, ou vêm do Norte… alguns gostam de basquete e outros gostam de tênis. Não há uma maneira de ser negro nos Estados Unidos que seja válida ou inválida: somos indivíduos. E eu não posso falar por 30 milhões de pessoas.

    Você já trabalhou como crítico de TV. Como se sente do outro lado, agora que seu livro vencedor do Pulitzer será adaptado para série televisiva? Sim, escrevi críticas de 94 a 96. Agora estou feliz de ser mais um consumidor do que um crítico, o cenário é mais rico com os serviços de streaming, mais aberto para novos autores. Vão começar a roteirizar agora  Underground Railroad [baseada em seu livro] e a filmar no final deste ano. O diretor Barry Jenkins (vencedor do Oscar por Moonlight) é muito inteligente e acredito que vá fazer um bom trabalho. Li o primeiro episódio e fiquei tocado por ver meu livro na visão de outra pessoa. Acho que vai ficar legal.

    Acho que quanto mais branco o país, mais estranhas as perguntas. Ao invés de perguntar sobre o livro, eles jogam um jogo que chamo de ‘pergunte ao cara negro do livro uma pergunta aleatória’. Eu não sou um porta-voz da negritude nos Estados Unidos

    Colson Whitehead

    Você tem receio de que a história seja estendida por temporadas além de sua escrita, como aconteceu em Game Of Thrones e Handmaid’s Tale? Não consigo pensar no que podem querer acrescentar…  Se eu tivesse pensado em algo, teria colocado no livro. Vamos ver!

    Tem medo da críticos de TV? (Ri) Estou acostumado com os críticos literários, com críticos de internet. Consigo perceber quando os comentários são de pessoas bem-informadas e de pessoas mal-informadas, ou apenas de pessoas com pontos de vista diferentes que nem quiseram entender o livro. Um escritor disse certa vez: “Você pode até deixar uma crítica ruim estragar seu café da manhã, mas nunca seu almoço.” Você tem que seguir em frente, senão não conseguirá fazer seu trabalho.

    O primeiro livro que escreveu, A Intuicionista, será lançado agora no Brasil pela HarperCollins. Como surgiu a ideia desse primeiro romance? Foi o primeiro livro que escrevi com um enredo. Pensei que, se tentasse algo que nunca havia feito antes, me tornaria um escritor melhor. Então há uma protagonista feminina, um narrador em terceira pessoa… Para começar, tinha um enredo, o anterior não tinha nem isso! (ri) Estava tentando ensinar a mim mesmo como escrever um romance, e me pareceu que a estrutura de romances policiais são mais simples de trabalhar. Todos os seus tipos de personagem estão no livro, só que no departamento de inspeção de elevadores (ri). O que escrevi antes desse era péssimo e vai ficar na gaveta. Prefiro usar energia que usaria em revivê-lo para escrever algo novo.

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    Um escritor disse certa vez: ‘Você pode até deixar uma crítica ruim estragar seu café da manhã, mas nunca seu almoço’ Você tem que seguir em frente, senão não conseguirá fazer seu trabalho.

    Colson Whitehead

    No que está trabalhando agora? Acabei de escrever um romance curto sobre sobre um centro de detenção juvenil antes dos anos 1960. Já
    entreguei para meu editor e vou tirar um tempo de folga agora (ri, aliviado). Eu tenho uma ideia de livro que se passa na Nova York dos anos 1960, mas é cedo demais para dizer algo além.

    Você disse na coletiva que é viciado em notícias. O que você acompanha? Nos dias de hoje, meu interesse é mais: O que Trump fez agora? (ri). É difícil não ser engajado com o que acontece atualmente. Se você liga para o meio ambiente, estão retrocedendo em proteções ambientais; se liga para a economia, estão voltando atrás de regulamentações; se liga para imigração, a administração de Trump é obviamente abusiva. Não importa com o que você se importa, tudo está sob ameaça nessa gestão. É difícil ser desengajado.

    No que você está engajado? Em todas essas questões. Elas têm impacto no modo que vivemos, no modo em que nossos filhos viverão. Tudo que
    podemos fazer é votar e ter esperança de que a justiça seja feita. Podemos também começar a enxergar as outras pessoas como seres humanos, e não olhar antes para sua raça, gênero ou religião… Vê-los como companheiros, outros seres humanos em nosso planeta que também estão tentando ter uma vida melhor. É um bom começo.

    O que mais gosta em seus livros? Não tive oportunidade de fazer muitas piadas nos dois últimos livros, mas gosto de um livro que me permita
    ter meu senso de humor esquisito. Quando estou me debatendo para escrever um livro, poder brincar um pouco me deixa genuinamente feliz. Mas algumas vezes você está escrevendo algo que não permite isso. Mas gosto do absurdo do dia-a-dia.

    Em sua vida pessoal, o que te move? Adoro cozinhar. Gosto da comida brasileira. Estive aqui há 24 anos e provei caldo verde. Eu fiz outro dia, eu gostei e minha esposa, também.

    Mas é um prato português. (Ri) Também gosto de feijoada, é claro. Gostei muito também daquela farinha de mandioca, como chama? Ah, farofa. Minha filha provou e adorou. Tenho uma de 13 anos e um filho de 5.

    É difícil criá-los em Nova York? Eu cresci lá e isso fez de mim a pessoa e o escritor que sou hoje. Quero que eles também possam ter essa experiência na cidade.

     

    O evento

    A 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) acontece de 25 a 30 de julho em Paraty, litoral sul do Rio de Janeiro. Com curadoria de Joselia Aguiar, o evento conta neste ano com a participação de André Aciman, autor do livro Me Chame pelo Seu Nome (adaptado ao filme homônimo vencedor do Oscar 2018), o laureado pelo Prêmio Pulitzer Colson Whitehead e a ganhadora do Prêmio Goncourt Leïla Slimani. A escritora homenageada da edição é a polêmica paulista Hilda Hilst.

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