Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
VEJA Meus Livros Por Blog Um presente para quem ama os livros, e não sai da internet.

Brasil se destaca em antologia de contos pan-americana

.

Por Maria Carolina Maia Atualizado em 13 ago 2018, 22h54 - Publicado em 5 fev 2011, 09h02

Dentro da irregular Antologia Pan-Americana – 48 Contos Contemporâneos do Nosso Continente (editora Record, 378 páginas, 49,90 reais), o Brasil é destaque. Representado por nomes que já encontram lugar confortável entre os críticos e por outros que ainda trilham o caminho rumo à agradável sombra da aprovação, o país é um território seguro para quem procura boa literatura dentro da obra.

Conceito dos mais amorfos, a boa literatura é composta de um material difícil de definir, mas que, quando está lá, se reconhece. Não precisa ter história, não precisa (e não deve) ter moral, não precisa (e também não deve) ser mastigadinha, não precisa de palavras pomposas, que obriguem o leitor a se dividir entre o texto e o dicionário, não precisa de reviravoltas nem precisa de finais surpreendentes. Talvez precise de um pouco de poesia ou de transcendência, mas não há dose aconselhável. Não há fórmula.

Seja como for, é entre os contos brasileiros, como o empolgante Redemunho, do pernambucano Ronaldo Correia de Brito, o divertido e fluido Artérias Expostas, do goiano André de Leones, e o histórico O Rapto do Fogo, conto de Alberto Mussa que se passa na época dos bandeirantes e que nem é o melhor entre os citados, que se encontra mais vestígios desse material viscoso capaz de levar o leitor em uma viagem além.

Há também, é claro, textos feitos desse material sem f0rma e sem cor espalhados por outros países. É o caso de O Efeito Dominó, de José Acosta, da República Dominicana. Uma  história de dar inveja a Nelson Rodrigues: iniciado sexualmente por uma “prima negrinha doente de lúpus”, o caminhoneiro Salas associa o sexo ao cheiro da carne morta e só obtém prazer se a relação vem acompanhada de um “necrofílico fedor afrodisíaco”.

Ou de O Dezenove, do uruguaio Mario Benedetti, que não desmente a sua boa fama em um texto insuflado pelos ecos dos mortos pela ditadura no Uruguai. O texto é quase todo um diálogo, é ágil, perfura e toca naquele material sem nome que também está dentro de nós.

Apesar de sua irregularidade, a Antologia Pan-Americana recém-lançada pela Record é uma interessante vitrine da produção de todo o continente americana, com textos de língua espanhola, inglesa, holandesa, francesa e portuguesa. Serve como porta de entrada para produções de escritores ainda não amplamente conhecidos no país e sugere assim novas leituras para quem quer se lançar por novas searas. A organização é do francês radicado no Rio de Janeiro Stéphano Chao, que dirigiu o Escritório do Livro na Embaixada da França no Brasil de 1999 a 2003 e vem a partir daí se dedicando à carreira de agente literário, promovendo em especial a literatura brasileira. Que ele parece conhecer bem.

 

Continua após a publicidade
Publicidade