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Biel, Chapeuzinho Vermelho e a cultura do estupro

Por Maria Carolina Maia Atualizado em 30 jul 2020, 22h31 - Publicado em 14 jun 2016, 09h58

circa 1812:  Little Red Riding Hood is surprised to find a wolf in bed instead of her grandmother, from the fairy tale by the brothers Grimm.  Illustration by Dave Cooper  (Photo by Hulton Archive/Getty Images)

Maria Carolina Maia

Acusado de assédio sexual por uma jornalista obrigada a ouvir que ele a “estupraria rapidinho”, o funkeiro Biel procurou se defender com um texto engraçadinho em que falava de inveja (“felicidade acompanhada do sucesso incomoda”), procurava se fazer de ingênuo (“sou um menino”) e pedia que o público não acreditasse na repórter (“O lobo mau será sempre o vilão, né?! Se só escutarem a versão da Chapeuzinho…”), embora ela tivesse tudo gravado. Registrada em áudio e vídeo, a entrevista em que foi aviltada foi entregue pela jornalista à polícia, junto com a queixa. São tantos os erros cometidos pelo cantor, um aspirante a Justin Bieber tupiniquim, que um parece ter passado despercebido. O conto da Chapeuzinho Vermelho era o pior exemplo que Biel poderia escolher para a sua defesa. Essa é, na verdade, uma história sobre estupro.

As primeiras versões do conto não só autorizam, elas como que obrigam a uma leitura de teor sexual da relação entre Chapeuzinho Vermelho e o Lobo. E põem sobre as costas da menina a responsabilidade pelo assédio – como hoje, tantos séculos depois, ainda se faz devido à chamada cultura do estupro, que é uma forma diferente de falar de uma mentalidade ferrenhamente machista. “Em quaisquer das versões, mesmo nas bem comportadas que chegaram até nossos dias, percebe-se sutilmente, sob a trama desse conto, que entre o Lobo e sua presa há um diálogo que não se restringe à iminente devoração, a conversa tem uma inequívoca coloração erótica”, escrevem Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso em Fadas no Divã: Psicanálise nas Histórias Infantis (Artmed).

Colhida no final do século XVII por Charles Perrault, um funcionário público francês que mais de um século antes dos irmãos Grimm verteu em livro contos que corriam pela boca de camponeses europeus desde a Idade Média, a história da menina que vai visitar a avó doente e é surpreendida por um lobo sofreu inúmeras alterações e se tornou mais suave para que pudesse ser adotada na educação das crianças. Não foi apenas o conteúdo da cesta que a menina leva para a vovó que mudou – em algumas versões, ela leva pão e manteiga, em outras, as mais açucaradas, carrega doces.

Entre as versões para adultos que circulavam pela velha Europa, havia até algumas com canibalismo: depois de matar e esquartejar a avó de Chapeuzinho, o Lobo teria oferecido a ela a carne e o sangue da velhinha, como se fossem vinho e um pedaço de carne qualquer (leia mais abaixo).

“A historiadora Marina Warner (1999) nos relata alguns desses elementos grotescos que existiam na versão oral francesa de Chapeuzinho Vermelho, mas que foram suprimidos por Perrault. Segundo ela, o lobo usa de ardis para levar a heroína a comer um pedaço de carne de sua avó e a beber um pouco do sangue da velha”, conta o pesquisador Nícolas Tottis Leite em artigo da MARgemRevista Eletrônica de Ciências Humanas, Letras e Artes, citando a historiadora britânica Marina Warner, autora de Da Fera à Loira: sobre Contos de Fadas e Seus Narradores, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Depois do banquete antropofágico, o Lobo ainda induziria Chapeuzinho a tirar a roupa, peça por peça como em um strip-tease, e a se deitar com ele na cama.

A antropofagia desaparece já na versão de Charles Perrault. Nela, o Lobo engana a avó fingindo ser a Chapeuzinho Vermelho e, depois de a velha lhe abrir a porta, ele a devora por inteiro. Quando a garota chega, o Lobo nem tem como oferecer um lanchinho, e logo de cara pede que ela tire a roupa e se deite com ele. Obediente, a menina segue as ordens da falsa vovó, e só na cama é que vai passar a desconfiar da sua voz e das suas feições, bem como das suas intenções, quando então se dá o clássico diálogo entre eles.

“O Lobo, vendo-a entrar, disse-lhe enquanto se escondia sob a colcha: ‘Põe a bôla e o potinho de manteiga em cima da masseira e vem deitar-te comigo’.

Capuchinho Vermelho despe-se e vai meter-se na cama, onde ficou muito espantada de ver as formas da avó em camisa de noite; e disse-lhe:

‘Avó, que grandes braços tem!’

‘É para melhor te abraçar, minha filha.’

‘Avó, que grandes pernas tem!’

‘É para correr melhor, minha pequena.’

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‘Avó, que grandes orelhas tem!’

‘É para escutar melhor, minha pequena.’

‘Avó, que grandes olhos tem!’

‘É para ver melhor, minha pequena.’

‘Avó, que grandes dentes tem!’

‘É para te comer.’

E, ao dizer estas palavras, o Lobo malvado atirou-se sobre Capuchinho Vermelho e comeu-a.”

Não há final feliz para Chapeuzinho Vermelho no conto de Perrault, o mais próximo da versão medieval – publicado no século XIX, o conto dos Grimm receberia nova camada suavizadora. A menina é comida pelo Lobo, no que para muitos estudiosos é uma metáfora inequívoca de relação sexual. E a culpa é toda dela. Afinal, em vez de seguir direto da sua casa até a porta da avó, ela parou para conversar com o “compadre Lobo, que tinha muita vontade de comê-la, mas não se atrevia a tal por causa de alguns lenhadores que estavam na floresta”. E aceitou a sua sugestão para mudar de itinerário, indo sozinha “pelo caminho mais longo, entretendo-se a colher avelãs, a correr atrás das borboletas e a fazer ramos com as florezinhas que encontrava”, enquanto o Lobo corria pelo trajeto mais curto para chegar antes à vovó e tragá-la.

A ingenuidade de Chapeuzinho não tem perdão. Perrault encerra o texto com um parágrafo intitulado “Moralidade”, onde atribui a ela a causa de toda a tragédia. “Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o Lobo tantas delas coma. Digo o Lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, sutis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos.”

O conto hoje conhecido dos Grimm é mais light. “Cento e sessenta anos depois (1857), os irmãos Grimm escreveram uma continuação da história que lhe empresta um caráter de conto de fadas. Nesta, após Chapeuzinho ter sido devorada, um lenhador que estava passando em frente à casa da avó da menina escutou o ronco do lobo que dormia de barriga cheia. Ele entrou e cortou-lhe a barriga, retirando a avó e a neta vivas de seu ventre”, anotam Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso no livro Fadas no Divã.

A alteração feita pelos alemães é crucial, porque elimina a possibilidade de a refeição do Lobo – quando ele devora Chapeuzinho – ser lida como metáfora sexual. O final feliz não tira, contudo, a culpa dos ombros da menina. Os Grimm acrescentaram no começo do texto uma recomendação da mãe que fará de Chapeuzinho uma garota desobediente e, como tal, passível de castigo. Depois de pedir que a filha vá à casa da avó, a mãe recomenda que ela não se desvie do caminho. “Trate de sair agora mesmo, antes que o sol fique quente demais, e, quando estiver na floresta, olhe para a frente como uma boa menina e não se desvie do caminho”, diz a mãe. No final da história, mortificada, a pobre Chapeuzinho, que também aqui segue o conselho do Lobo de ir pelo trajeto mais longo e bonito, se lembra da orientação e diz para si mesma: “Nunca mais na vida tornarás a sair do caminho sozinha para entrar no bosque depois de a tua mãe o ter proibido”.

Versão adulta – No livro Fadas no Divã, Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso citam uma versão adulta de Chapeuzinho Vermelho que circulava pela Europa do século XIX, pelo menos, e ganhou registro em 1885 na França, mas é pouco conhecida hoje pelos leitores. Batizada de A História da Avó, ela mantém aqueles que seriam os traços mais pesados das versões orais do conto: antropofagia, strip-tease e, é claro, o estupro.

“Numa edição comentada e ilustrada dos contos de fada, Maria Tatar disponibiliza uma curiosa versão, de feitio mais antigo, dessa história. Ela foi compilada a partir de narrativas orais na França, em 1885; portanto, quando já existiam disponíveis para o público as versões impressas de Grimm e Perrault. O conto chama-se A História da Avó e tem as características das narrativas folclóricas, não originalmente direcionadas para as crianças. Por isso, não há nele nenhuma mensagem pedagógica subliminar, nem preocupação em suprimir os elementos grotescos.

A História da Avó merece um comentário, pois está fora do padrão habitual. O começo é igual, mas mais sucinto, sem o sermão materno, que está totalmente ausente. O diálogo com o Lobo é breve, apenas este pergunta por onde ela vai e segue o outro caminho correndo para chegar antes. Devora a avó, mas não toda, deixa um pedaço de carne e uma garrafa de sangue para depois. Quando Chapeuzinho chega, ele pede-lhe para deixar a cesta na despensa e a convida com a carne e o vinho (ou melhor, o sangue) que estão na prateleira. No fundo da cena, um gato falante comenta que é preciso ser uma porca para comer da carne da avó e beber o seu sangue. A menina não parece dar importância a essa observação, mas está atenta ao convite do Lobo para irem para a cama:

‘Tire a roupa, minha filha, e venha para a cama comigo’.”

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