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Arquivo: entrevista com a centenária Rachel de Queiroz

Por Maria Carolina Maia - Atualizado em 21 fev 2017, 09h02 - Publicado em 19 nov 2010, 11h51

A escritora Rachel de Queiroz (1910-2003) nasceu em Fortaleza, num 17 de novembro.  Ainda jovem, aos 20 anos,escreveu O Quinze, livro que lhe seria o principal da sua carreira e um dos grandes do modernismo brasileiro, que teve no Nordeste as suas principais contribuições no gênero romance.

Escrito enquanto Rachel seguia ordens médicas de repouso por suspeita de tuberculose, num sítio perto de Fortaleza, O Quinze narra a seca vivida pelos nordestinos em 1915, que levou a família Queiroz a se mudar temporariamente para o Rio de Janeiro em 1917.  O livro lhe renderia no ano seguinte o prêmio de romance da Fundação Graça Aranha, mantida pelo escritor, em companhia de Murilo Mendes (poesia) e Cícero Dias (pintura).

Além de folhetins, peças de teatro e histórias infantis, a escritora assinaria ainda livros como Caminho de Pedras (1937), As Três Marias (1939), O Galo de Ouro (1950) e Memorial de Maria Moura (1992).  Em 1957, receberia um prêmio por sua obra da Academia Brasileira de Letras, na qual seria admitida, tornando-se a primeira imortal brasileira, vinte anos mais tarde.

Na semana em que Rachel de Queiroz faria cem anos, VEJA Meus Livros resgata uma entrevista da escritora às páginas amarelas de VEJA em 1996. Clique aqui para ler na íntegra.
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VEJA — A senhora acaba de ganhar o Prêmio Moinho Santista, no valor de 50 000 reais. O que vai fazer com todo esse dinheiro?
Rachel —
Vou comprar um automóvel, porque o meu está velho como o diabo.

Este é o segundo ano em que a Academia Brasileira de Letras, da qual a senhora faz parte, distribui o prêmio Senador José Ermírio de Moraes, também de 50 000 reais. Por que o premiado foi o escritor Evaldo Cabral de Mello?
A Fronda dos Mazombos coloca Evaldo na categoria de Sérgio Buarque e de Gilberto Freyre. O livro é um romance sobre a Guerra dos Mascates, em Pernambuco. É engraçado, o Evaldo é muito parecido com o irmão, João Cabral, só que mais bonito.

Neste ano não houve polêmica na escolha do premiado, como no ano passado?
Não. No ano passado nós conseguimos, a pau e corda, premiar Roberto Campos, pelo seu A Lanterna na Popa. O Chatô, de Fernando Morais, não ganhou porque o livro de Roberto Campos é muito melhor. Chatô, como best-seller, é um livro mais lido, mas apresenta a figura de Assis Chateaubriand diferente do que era. Eu trabalhei quarenta anos com Chatô. Ele era aquele irresponsável, mas não era vilão. Todo mundo que queria bem ao Chatô ficou magoado.

Como Roberto Campos acabou vencendo?
A maioria dos acadêmicos quis dar o prêmio a Roberto Campos. Mas há na academia uma minoria ruidosa de esquerdistas, que são Antonio Callado, Antonio Houaiss, Dias Gomes, Nélida Piñon, João Ubaldo Ribeiro. Então, se formou a confusão. As celeumas da Academia nunca acontecem lá dentro. O sujeito dá uma entrevista no jornal e diz o diabo. Aí quando chega à Academia a gente pergunta: como você foi falar isso? Ele responde: não foi bem assim, não foi isso que falei, e a coisa morre.

Em 1993, a senhora foi a primeira mulher a ganhar o prêmio Camões, o maior da língua portuguesa. Como aconteceu?
Isso foi porque eu era a mais velha. Num ano o Brasil ganha o Camões, no outro ganha um português, e, quando Deus permite, ganha um africano. A primeira vez em que o prêmio seria concedido a um brasileiro foi em 1990. Fomos escolhidos para eleitores, eu, dom Marcos Barbosa e Américo Jacobina Lacombe. Nós já tínhamos tramado a candidatura de João Cabral, escondido de Jorge Amado. Isso porque tudo que era prêmio ia para o Jorge Amado. Já em 1993, quando o prêmio seria novamente concedido ao Brasil, o lobby do Jorge Amado estava muito forte. Os portugueses estavam pelo Jorge e os brasileiros por mim. Jorge tinha saído de um infarto e mesmo assim foi para Portugal fazer o lobby dele. Ficou hospedado no hotel onde haveria a eleição. Josué Montello, que achava que deveria ganhar o prêmio, escreveu um artigo explicando que quem tinha direito ao prêmio era ele. O artigo era imenso, com todo o currículo dele.

Como funciona a Academia Brasileira de Letras?
A Academia é uma sociedade particular. Dizia o Olavo Bilac que a gente se intitulava imortal porque não tínhamos onde cair mortos. Mas hoje a Academia é uma instituição muito rica. Ela confraterniza, porque lá não se trata de política. O general Lyra Tavares fica aos cochichos e gargalhadas com o Dias Gomes. Não é curioso?

A Academia dá dinheiro aos imortais?
Dá um jetom muito pequeno, de 50 reais, para a gente pagar o táxi. No tempo do Athaíde, que era conhecido por ser pão-duro, o jetom era uma miséria. Não dava nem para pagar bonde, quanto mais táxi.

O senador José Sarney quer ser o próximo presidente da Academia?
Há uma corrente que quer fazer do Sarney o próximo presidente.

Por que a senhora não gostou das adaptações para a televisão de seus romances As Três Marias e Memorial de Maria Moura?
Com As Três Marias eu tive uma grande briga com o doutor Roberto Marinho, durante a qual ele se manifestava com grande cordialidade. Eu falava: “O senhor mande parar essa porcaria”. Ele me respondia: “Mas, Rachel, eu não posso. Já está gravada toda a novela”. Eu compreendia. Mas quando aparecia outra iniqüidade eu dava outra esculhambação amigável no doutor Roberto. Ele agüentava com a maior paciência. Em Maria Moura, eu exigi deles um atestado que dizia que era uma adaptação livre do original homônimo. Aceitei tudo porque eles pagavam in cash para a gente, e em dólar. De uma única vez, foram 60 000 dólares. Eles abusaram de duas coisas de que eu não gosto, sexo e violência, que não existem no meu romance.

Jorge Amado não costuma queixar-se das adaptações das obras dele para a TV.
Jorge Amado me disse que nunca viu uma adaptação dos livros dele porque sabia que ia se aborrecer muito. Só não sei se é mentira, porque o Jorge às vezes mente.

O que a senhora acha dos escritores brasileiros que têm feito sucesso nos últimos anos?
Em geral, aqueles que têm nome o conquistaram com seu valor. Fora o caso do Paulo Coelho. Ele vende milhões, é um fenômeno e também um mistério porque não pode ser pior. Tentei ler um livro dele e, honestamente, não consegui passar da página 8.

A senhora acha que hoje o marketing é tão importante quanto o talento para o sucesso de um escritor?
Eu não acredito em marketing como algo fundamental na literatura. Se houver talento, o sujeito rebenta. Monteiro Lobato só fez sucesso depois de muito tempo. Fica difícil sobreviver um longo período só do marketing. A não ser no caso do Paulo Coelho, que é um fenômeno à parte.

Há hoje na literatura brasileira uma onda de livros-reportagem. O que a senhora acha desse tipo de literatura?
Acho muito interessante porque a gente passa a ver o fato a distância. Tenho lido alguns livros nessa linha. O livro do Joel Silveira, Viagem com o Presidente Eleito, a respeito de Jânio Quadros, é uma delícia. Depende muito do talento do repórter. As histórias de guerra do Rubem Braga são ótimas. Toda onda literária, como qualquer movimento, depende dos participantes.

Em sua opinião, apareceu algum bom escritor nos últimos tempos no Brasil?
Tenho lido pouco por causa da vista. Na verdade, não gosto de citar nomes, porque, como sou muito conhecida, os amigos ficam me cobrando. Gostei muito de dois livros do Ruy Castro: Estrela Solitária e O Anjo Pornográfico. Nesse último, o Ruy fez um retrato muito fiel de Nelson Rodrigues. O livro O Último Tenente, de José Alberto Gueiros, que conta a vida do tenente Juracy Magalhães, também aprovei. Mas o que gosto mesmo é de romance, e é preciso aparecer novos bons romancistas. A gente vai ficando velha e esperando a safra nova. É verdade que quando a minha geração começou a escrever ninguém falava nada da gente. Era um grupo bom. Tinha o Graciliano Ramos, o melhor de todos, eu, o José Lins do Rego, o Jorge Amado. Só depois de algum tempo conseguimos espaço na crítica. Acho que pode surgir uma forte geração de romancistas paulistas com temas urbanos. Isso porque desde Mário de Andrade a literatura paulista não cresceu. Atualmente destacaria a Lygia Fagundes Telles, que é muito boa. Ela é de uma geração intermediária. Mas não é preciso pressa. A literatura é como floração — rebenta espontaneamente.

Qual a importância de um bom agente para o escritor?
Um bom agente nos valoriza, vende os nossos livros pelo melhor preço. No meu caso, para ir para a editora Siciliano, minha agente literária, Lúcia Riff, me colocou em leilão. Fui para a editora que pagou mais. Só a luva foi de 120 000 dólares.

Como é a vida de escritora?
Se for levar essa vida a sério, é bastante chata. Mas vivo nela toda satisfeita. Não vou a conferências nem a festas literárias. Gosto mesmo é de cozinhar e de assistir a futebol e boxe. Fico até tarde da noite para assistir a uma luta do Mike Tyson.

O boxe não é um esporte muito violento?
É, mas eles são guerreiros.

A senhora leva tanto tempo para escrever um livro que dizem que tem preguiça de escrever.
Romance é como gravidez. Aquilo fica dentro de você, crescendo, incomodando, até sair. Quando falo que meus livros saem em intervalos de quinze anos, não estou fazendo charme. Esse é o meu tempo. Memorial de Maria Moura, meu último livro, é de 1992. Antes dele, tinha publicado Dora, Doralina, em 1975. Foram, portanto, dezessete anos de intervalo. Outro romance, agora, só daqui a quinze anos.

Um livro que demora mais para ser escrito não fica melhor? O Jorge Amado, por exemplo, não acaba se repetindo?
A Tieta do Agreste, Tereza Batista, a personagem central de Tocaia Grande — são as mesmas personagens com vários nomes. Jorge Amado se repete. É muito escravo do êxito que conquistou. Depois, ele teve aquele apoio maciço do comunismo do mundo inteiro. E Jorge tem talento para fazer grandes livros. Mas ele é um personagem muito curioso. Um amigo leal, mas um homem que quer fazer a carreira dele a todo custo.

Por que a senhora não usa computador para escrever?
Sempre me perguntam, e respondo que é porque Deus não quer. Agora recebi um computador de presente e estou começando a aprender. Já havia mexido em outro, de um amigo meu, em Paris, e me dei bem com o computador francês, naturalmente atrasado, porque francês não vai colocar fora um computador só porque é de outra geração.

E por que a senhora demorou a aprender?
Eu até tentei comprar um computador. Tinha um dinheiro separado e estava decidida a gastá-lo com isso. Não demorou três dias e a Zélia Cardoso de Mello nos deixou com apenas 50 000 réis. Depois disso, eu tinha uns dólares que sobraram de uma viagem à Europa. Então disse: “Vou gastá-los com um computador”. Aí veio um ladrão aqui em casa e colocou um três oitão na minha cabeça. Ele dizia as mesmas frases da Zélia: “Estamos sem liquidez, só queremos ouro e dólares”. Rasparam a minha gaveta. Então desisti do computador. Mais recentemente, o escritor Mário Palmério, que era muito meu amigo, inclusive fui eu quem o descobri, soube da história de que eu tinha sido roubada e disse: “Rachel, eu também quero um computador e arranjei um contrabandista. Eu vou mandar buscar um para mim e outro para você”. Depois ele me ligou avisando que o contrabandista tinha sido preso.

É verdade que a senhora só dorme em rede?
Durmo em rede desde pequena. Aprendi no Ceará. A cama do meu quarto é chamada de a cama do Capistrano. Isso porque o Capistrano de Abreu também dormia numa rede e tinha uma cama ao lado. Usava-a para empilhar livros e um dia quase morreu porque os livros caíram por cima da rede dele. Minha cama também serve para guardar livros. É um depósito ótimo.

Dormir em rede não faz mal para a coluna?
Não. Nós, os inventores e usuários de redes, só nos deitamos na diagonal, porque assim ela fica rígida. Só os ignorantes aqui do Rio de Janeiro é que se deitam ao comprido na rede. Eu nunca caí de rede. Pelo contrário, caí de cama. Meu marido e eu dormíamos em duas camas paralelas. Quando ele conciliava o sono, eu fugia devagarzinho e ia dormir na minha rede.

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