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Aos 80, Liudmila Petruchévskaia se torna musa da Flip 2018

Em mesa cheia de desencontros da tradução e muitas risadas, a octagenária russa conquistou a plateia com seu carisma

Por Luísa Costa Atualizado em 1 ago 2018, 12h43 - Publicado em 29 jul 2018, 00h19

A escritora russa de contos de terror Liudmila Petruchévskaia encantou a plateia da mesa que fechou a noite deste sábado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Ela não fala uma palavra de português, pouquíssimo inglês, e os desencontros entre seu intérprete e a entrevistadora, a jornalista portuguesa Anabela Mota Ribeiro, fizeram risadas ressoarem no auditório.

Com sua vestimenta de época e grande chapéu (“isso é apenas para o palco”), Petruchévskaia começou pedindo que todos da mesa ficassem em pé (“em respeito à plateia”) para responder sobre o papel da escuta como escritora. Ela contou uma pequena história de um coração partido que ouvira no ponto de ônibus e disse que anotava tudo. “O que eu digo é: anotem. As pessoas vão achar ruim quando você anota, mas é por isso que eu me escondo. É assim que me tornei escritora.”

  • Foi difícil cortar o clima descontraído para ela dividir seu passado sofrido: a II Guerra Mundial eclodiu quando tinha 1 ano, e aos 3 anos de idade já havia perdido entes queridos. “Há um termo chamado inimigo do povo. E eu fui uma. Passamos fome. Mas o ser humano sabe inventar, é esperto. Por isso à noite eu fui na lata de lixo onde você podia achar espinha de peixe, restos da batata, restos do pão, e a gente sobreviveu.”

    Contadora de histórias nata, cada conto levava a outro: adoecida pela fome, disse ela, sua avó ficou acamada e lhe contava as histórias de Gógol, que sabia de cor. Ela reproduzia as histórias em praça pública quando criança.

    Perdido na tradução

    Foi aí que a coisa começou a desandar. A jornalista portuguesa queria perguntar à escritora sobre um espaço comum em casas de sua época, uma cava subterrânea com um fogão, e o que aquilo representava para ela. Depois do vaivém de palavras entre entrevistadora e intérprete, Liudmila se levanta, resoluta, e sentencia: “O que é pátria? Isso é inverno para mim.” Todos riram, sem entender nada.

    Anabela tentou mais algumas vezes, e por fim desistiu. Começou a perguntar em “brasileiro”, disfarçando seu sotaque português, para que o intérprete a entendesse, e simplificou: “O que você gosta de comer?”, ao que Liudmila respondeu: “Pão preto”. Era fatal: não havia mais resposta que desse e não soasse cômica.

    Falando sério

    “Vocês são uma plateia muito bem-humorada”, disse, começando a pontuar quando o assunto exigia mais decoro. Como quando ela foi questionada sobre a morte: “Eu só tenho medo da morte dos meus entes queridos. A gente pensa que vai continuar, mas quando menos se espera, sumimos. Não tenha medo da morte”, disse a autora de contos de terror.

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    Declarou ter medo de tudo quando pequena. Teve que viver em um sanatório de tuberculosos, onde outras crianças não gostavam dela porque era uma menina da rua. Sofria bullying, e a única arma que tinha era a poesia. “Sobrevivi por causa disso, da literatura”, concluiu. Questionada sobre a presença da morte em seus contos, soltou: “Há muita morte na vida.”

    Uma palavra que todo mundo entende

    Para muitas perguntas, a resposta da autora era enfática e simples. O que significava para ela estar entre as mais lidas do maior jornal do grande país
    capitalista, os EUA? “Tanto faz.” Por que adora crianças? “Porque você pode pegá-los no colo!” O elemento animal é muito presente na sua narrativa? Um forte “DAAA” — sim, em russo. Por quê? “Não sei, mas amo os gatinhos, os bem pequenininhos.”

    A plateia já era sua, mais ainda queria se fazer ser entendida — ao menos, na linguagem. Quando questionada se gostava de jogos: “Eu não jogo computador, eu jogo… eu esqueci. Lembrei: sudoku!”. Finalmente uma palavra que dispensou o intérprete.

    O conto e o canto

    Voltando ao papo sério, ela fala de sua escrita: “Isso não é para rir. Minhas histórias, eu vejo elas inteiras. Tenho que escrever muito rápido para não
    perdê-las.” Ela explicou que acredita em inconsciente coletivo, onde toda nossa fala e nosso trabalho se concentraria. “Tiro as histórias desse lugar, ele me dita. Vão me perguntar se é um deus, mas acho que isso é alto demais para mim.”

    Liudmila já tinha provado que era a musa desta edição da Flip, tal qual Valter Hugo Mãe em 2011, quando decidiu que era a hora de dar fim à entrevista e cantar.

    “Quando eu era pequena, cantava nos pátios pedindo comida. Então é um hábito que ficou dentro de mim. Eu comecei a cantar com 69 anos de idade, então quem for novo ainda vai chegar lá.”

    E iniciou seu repertório, que incluía Aux Champs Elysées e uma versão russa de Besame Mucho.

    O evento

    A 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) acontece de 25 a 30 de julho em Paraty, litoral sul do Rio de Janeiro. Com curadoria de Joselia Aguiar, o evento conta neste ano com a participação de André Aciman, autor do livro Me Chame pelo Seu Nome (adaptado ao filme homônimo vencedor do Oscar 2018), o laureado pelo Prêmio Pulitzer Colson Whitehead e a ganhadora do Prêmio Goncourt Leïla Slimani. A escritora homenageada da edição é a polêmica paulista Hilda Hilst.

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