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André Aciman: ‘Não sou gay, mas entendo todas as formas de desejo’

Autor do livro 'Me Chame Pelo Seu Nome', que deu origem ao filme homônimo ganhador do Oscar 2018, conta a VEJA o que o inspirou a escrevê-lo

Identidade, sexualidade e mudança. Conversar com o escritor americano de origem egípcia André Aciman é vê-lo se alternar com elegância entre esses temas, constantes tanto em sua escrita quanto em sua vida. Uma das maiores estrelas da 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ele é autor do aclamado Me Chame Pelo Seu Nome, romance que deu origem ao filme ganhador do Oscar de roteiro adaptado deste ano, e lança agora no país, também pela Intrínseca, Variações Enigma, em que retoma e retrabalha a temática da descoberta sexual.

Aqui, o protagonista, Paul, refaz sua errática trajetória afetiva, do affaire com um marceneiro italiano à troca da namorada por seu parceiro de tênis em Nova York, em um exame de autoconhecimento válido para pessoas de qualquer sexo.

Eu não sou homossexual, não sou gay, nada parecido. Mas, por outro lado, eu entendo completamente o desejo e já estive interessado em homens. Não para dormir com eles, não é o que eu queria fazer.

André Aciman

Como em seus livros, Aciman fala de sexualidade, identidade e transformação a VEJA. Confira a íntegra da entrevista, realizada na Flip deste ano, festa da qual foi um dos principais convidados:

 

Dez anos depois de Me Chame pelo Seu Nome, você publicou Variações Enigma, lançado agora no Brasil, retomando a temática da descoberta da sexualidade e do amor por um adolescente. É um tema que agrada a você? Eu acho que, em algum ponto de nossas vidas, nós nos tornamos quem somos. Seja descobrindo algo sobre nós mesmos ou pelo encontro com outra pessoa. No caso de Variações…, o protagonista descobre que ele não sabe quem ele é, e isso permanece um mistério por toda a sua vida. Seu desejo obsessivo pelo marceneiro da família começa a definir como ele vai ser dali em diante. Como ele vai desejar, como ele lutará contra o desejo, como ele se libertará disso e será quem é, e como voltará a outras formas de identidade. 

Essa idade, 10 a 15 anos, é importante para entender o desejo? Normalmente, é nessa idade que você desenvolve hostilidades, descobre alguém que você odeia, e ao mesmo tempo você pode descobrir alguém de quem quer ser amigo. Você não entende por que odeia um e é atraído por outro. No meu caso, quando tinha 9 ou 10, tinha um cara com 17 de quem eu queria ser amigo, queria que ele gostasse de mim.  Eu era muito interessado em tudo o que dizia respeito a ele, e o seguia de maneiras oblíquas. Claro que eu me sentia embaraçado de alguma forma. Eu estava literalmente obcecado por ele, mas não sabia por quê. Talvez eu o quisesse como um corpo, como um amante, mas acho que não.  Queria redescobrir isso sem o conhecimento que tenho hoje, do adulto que já entende das coisas. Então, tive que me colocar em uma posição — que é um exercício comum para escritores — de acessar uma forma de identidade com a qual não tenho mais contato. Eu então tenho que inventá-la, ou lembrar dela por meio da escrita.

Você é casado? Sim, minha mulher está logo ali (acena para o outro lado da piscina).

Tanto em Me Chame quanto em Variações você descreve uma descoberta homoafetiva. Você é bissexual? Não, não mesmo. Mas entendo o desejo em todas as suas formas. Eu não sou homossexual, não sou gay, nada parecido. Mas, por outro lado, entendo completamente o desejo e já estive interessado em homens. Não para dormir com eles, não é o que eu queria fazer. Voltei para a minha infância e quis entender como ela reverbera para o resto da vida. Então, separei diversos momentos que poderiam trazer a discórdia no seio do desejo.

Sou um escritor meticuloso e evito a palavra “amor”

André Aciman

 

A sexualidade é um elemento forte em seus romances, e sempre ligada a descobertas afetivas. Você acredita que sexo e amor andam juntos? Não sei, nunca entendi. Amor é muito mais complicado do que sexo, porque o amor tem tantas faces. Sexo também, mas o amor é impenetrável, está em todo lugar e às vezes em lugar nenhum, às vezes se desmaterializa… Como o desejo. Sou um escritor meticuloso e evito a palavra “amor”. Eu escreveria “eu amo este pêssego”, mas nunca “eu amo você” como uma expressão do sentimento.

Para você, existe preocupação com o que seria vulgar ao falar de sexo ou de amor? Vamos começar assim: se você fala de amor usando a palavra amor, é uma maneira barata de tratar o tema. Vulgaridade no sexo é um problema, porque você quer ser franco, sincero e tão honesto quanto puder sobre a experiência sexual, para que as pessoas possam ler e pensar “Eu sempre senti isso na cama, mas nunca refleti sobre, nunca consideraria isso conscientemente”. Você tem que ser tão detalhado e, ao mesmo tempo, oblíquo quanto possível. É preciso percorrer o caminho entre o que é ousado e o que tem estilo e tato, de maneira que ninguém fique ofendido. Eu não me considero pornográfico, mas há cenas no meu livro que são bastante focadas no corpo. Quando dois personagens estão na cama juntos, decido descrever os pés se tocando. Assim, você consegue entender como dois corpos que eram estranhos um ao outro se tornam íntimos. 

Tanto em Me Chame… quanto em Variações…, o jovem protagonista se estimula sexualmente com objetos pouco usuais: uma meia, um damasco, um pano embebido com solvente de marcenaria. Você acredita que a descoberta da sexualidade passa por esses elementos inusitados? Acredito que todas as pessoas passam, em suas vidas, por um período em que não entendem absolutamente nada, mas sabem que seu corpo está reagindo a algo, e isso passa por objetos inusitados. Se cada um de nós não fosse ensinado sobre sexo, se você fosse descobrir por si só um dia, a maioria das pessoas surgiria com os objetos de desejo mais estranhos. Algumas pessoas podem achar uma mesa sexy. Não é uma perversão, é normal. No caso de Paolo (Variações…), ele não sabe nada. É totalmente ignorante. A maior parte das pessoas na minha geração não sabia nada sobre sexo até os 11, 12 anos, ninguém falava para elas. Hoje, crianças de 7 anos já sabem de tudo, porque têm computador e podem ver tudo online. Eu queria voltar a um estágio na vida em que a pessoa não sabia de nada e, naquele ponto, sua imaginação está desesperada. Ela sabe que precisa ir para algum lugar, mas não sabe para onde.

O que achou de o diretor Luca Guadagnino ter cortado o nu frontal previsto no roteiro? Acho que não tem problema. Cheguei a um ponto na minha vida em que eu não gosto de ver sexo no cinema ou TV. Eu não me importo com o enlace, mas o sexo de fato entre homem e mulher, ou homem e homem… Eu não quero mais ver isso, apenas. Não me importo de haver pessoas nuas na cama, abraçando… Mas o sexo em si eu não preciso ver. Para mim, algumas vezes é o equivalente a ver violência. Toda vez que um drogado se injeta nas telonas, eu não preciso ver a agulha, eu não preciso ver isso! Eu tenho a mesma sensação com o sexo, eu não preciso vê-lo. Se é bem filmado e é relevante para a história, ok. Nudez gratuita, também não gosto. É possível perceber no filme (Me Chame Pelo Seu Nome) que a garota tira a roupa de banho e o homem não faz o mesmo. Então percebemos que há uma diferença de calibração. Mas não estou infeliz (com a ausência de nu frontal). Eu fico feliz por aparecer uma árvore lá fora enquanto fazem sexo, e já está bom. Intimidade sexual pode ficar muito legal nas telas e muitos diretores fizeram isso muito bem. Mas o sexo em si… Não sei. Talvez eu seja muito burguês. Acho que você pode escrever sobre isso, estimula sua imaginação, mas o cinema o confronta com a imagem. existem paisagens no livro que são muito gráficas. Se Luca (o diretor) quisesse, poderia ter sido mais ousado, como quando Elio lembra da dor que sentiu durante o sexo. Ele poderia ter mostrado isso, mas fazê-lo bem demandaria muito trabalho… ou então ficaria apenas chato.

Não quero dar uma resposta fácil porque não é o papel de um escritor

André Aciman

 

O filme terá mesmo uma continuação? Você está acompanhando isso? Sim, há conversas sobre uma sequência. Estava pensando sobre isso alguns dias atrás e o livro que estou escrevendo agora poderia ser considerado uma continuação, ou algum tipo de sequência, porque ainda estou interessado na questão do desejo.

Ainda novo, sua família se exilou do Egito, onde você nasceu, e vocês foram para Roma como refugiados. O que é o Egito para você hoje? Não está nas minhas lembranças como um lar. Eu sabia que não iria ser meu lar quando estava lá, eu sabia que iria deixar o Egito e sabia que não ia voltar desde que era criança. Esse era o roteiro. Todos sabíamos que isso iria acontecer, a questão era quando. Demorou dez anos para meu pai se dar conta de que era necessário. Em 1956, estourou a Guerra do Canal de Suez (entre Israel, com apoio da França e Reino Unido, contra o Egito). Naquele momento, todos os franceses e ingleses foram expulsos do país no ato. Muitos judeus também foram expulsos. Em 1965, foi nossa vez, depois de sermos expropriados, é claro. Nos deram duas semanas para partir. Eu tinha 14 anos.

Onde é seu lar agora? Não sei, é uma boa pergunta. Moro em Nova York agora e gosto de lá, mas, se é realmente meu lar… Eu não tenho certeza. Se você pensa em imigrantes italianos, eles puderam ir para os EUA, juntar um dinheiro e voltar para a sua terra natal, mas eu não tenho para onde voltar. Então,não tenho um lar.

Isso te incomoda? Pode ser que sim, mas não sei, e esta é a resposta mais honesta que posso dar. Eu sinto que tem algo faltando, mas não sei o que é. Não quero dar uma resposta fácil porque não é o papel de um escritor. Eu me perguntaria: “Onde eu gostaria de ser enterrado?”, porque é assim que você decide a que lugar você pertence — mesmo que você esteja morto e não faça diferença alguma. Mas, se eu tivesse que dizer onde eu gostaria de ser enterrado, não seria no Egito, nem na França, nem nos EUA… Talvez fosse perto dos meus pais, que foram enterrados em solo americano, mas eles também não queriam ser enterrados lá… Então, eu não sei onde deveria ser enterrado. Nem onde meus pais gostariam de ser.

Como foi sua infância no Egito? Eu era o único garoto judeu em uma escola árabe. Era horrível. Havia a  propaganda contra Israel, e olha que eu entendo porque o mundo árabe não gosta de Israel e tudo bem… Eu era judeu, e as pessoas sempre olhavam para mim como se eu fosse um israelita também. A distinção entre judeu e israelita nunca é feita no mundo árabe. Então, eu era sempre humilhado, meus colegas jogavam pedras em mim, me batiam, até o ponto de que eu começar a odiar ser judeu. Algumas pessoas diriam “Eu tenho orgulho de ser judeu”. Eu não tenho. Eu gostaria de não ser, porque era tão difícil.

Essa ideia de civilidade, para mim, é muito melhor do que comer ou não algum tipo de carne. Isso não faz o menor sentido para mim

André Aciman


E hoje, o que é ser judeu para você?
Hoje eu não presto mais atenção nisso. Essencialmente, eu odeio religiões de todos os tipos, não entendo a ideia de Deus, a crença… Eu sequer entendo a culpa que uma pessoa pode sentir ao questionar Deus. Não tenho nada disso, graças a Deus! (ri)

Você acha que a crença em um deus é a fonte do sentimento de culpa na sociedade ocidental? Ela é necessária? Não, a culpa não é uma emoção interessante. É uma emoção poderosa como a vergonha e a pena. São emoções muito fortes, que existem em várias fases da formação da nossa identidade. Acredito que a culpa que uma pessoa sente para se proteger a si ou outras pessoas da dor e do perigo é um caminho errado. Eu prefiro a abordagem simples e totalmente anglo-saxã de que, se você tem uma casa, você deve limpar a calçada em frente a ela, e o vizinho a calçada dele, e assim por diante. E, se todos limparem as suas calçadas, as pessoas podem andar pela rua e não cair por causa da neve, por exemplo. Essa ideia de civilidade, para mim, é muito melhor do que comer ou não algum tipo de carne. Isso não faz o menor sentido para mim. Eu gosto de civilidade. Se pudermos ter bons serviços gratuitos de saúde para todo, fico mais feliz ainda. (ri)

Você já selecionou seus objetos favoritos a pedido da NYMag e, ao tuitar a respeito, disse: “Estes são meus queridinhos agora. Eu prometo não mudar de ideia. Por enquanto”. Você muda muito de ideia? Sim, às vezes ouço um compositor e odeio e, um ano depois, descubro que amo. Outras vezes, vou dizer que amo algo, mas penso, caramba, não quero ver isso de novo na minha frente. Nós mudamos. Nós sempre mudamos. Isso é típico meu: tudo está em constante mutação, uma coisa muda para outra. Não há nada que permaneça igual para sempre.

Você acha que é um problema quando as pessoa não aceitam mudanças? Eu tenho inveja delas. Como pessoas que fazem tatuagem: elas têm certeza que estarão sempre felizes com aquele desenho. Invejo essa convicção. Acho que a incerteza é uma marca na minha literatura. Há tantas coisas que mudam na vida. 

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