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Me Engana que Eu Posto Por Coluna A verdade por trás de manchetes falsas que se espalham pela internet. Editado por João Pedroso de Campos.

Novo presidente da OAB não aparece em foto ao lado de Cesare Battisti

Rostos de Felipe Santa Cruz e do homem que aparece na imagem são diferentes. Santa Cruz também não estava em Brasília, mas no Rio, quando a foto foi clicada

Por João Pedroso de Campos - Atualizado em 13 Feb 2019, 20h46 - Publicado em 13 Feb 2019, 20h38

A famosa foto de parlamentares de PT e PSOL em torno do ex-militante italiano Cesare Battisti, registrada em 2009, tem sido compartilhada nas redes sociais para associar falsamente à esquerda o novo presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o advogado Felipe Santa Cruz, eleito para o cargo no início de fevereiro. O boato afirma que Santa Cruz aparece na imagem.

“O presidente da OAB – de camiseta preta atrás – em apoio ao terrorista Battisti! Qual é mesmo o papel da OAB?”, diz a legenda da foto, incluída em outra postagem no Facebook, que classifica Santa Cruz como “militante petista, defensor do terrorista Battisti” e diz que ele “provavelmente, tenha em sua sala de estar uma foto gigantesca de Lula”.

Reprodução/Facebook

A imagem que mostra senadores e deputados em solidariedade a Cesare Battisti foi feita no dia 17 de novembro de 2009 em um auditório do presídio da Papuda, em Brasília, onde o italiano estava preso e fazia greve de fome. No dia seguinte, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a extradição dele, pedida pela Itália, decisão que não acabou não sendo seguida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que em dezembro de 2010 concedeu refúgio a Cesare Battisti. O italiano só voltou ao país europeu em meados de janeiro de 2019, após fugir do Brasil e ter sido preso na Bolívia.

Felipe Santa Cruz não é o sujeito de camiseta preta atrás de Battisti na foto, não identificado. O primeiro elemento a levar a essa conclusão é que, embora haja alguma semelhança, os rostos dos dois são diferentes:

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Além do mais, no dia 17 de novembro de 2009, quando a foto foi clicada, Santa Cruz não estava em Brasília, mas no Rio de Janeiro. Exatamente nessa data, ele participou da eleição para a presidência da OAB-RJ, que terminou com a reeleição de Wadih Damous, ex-deputado pelo PT, para a chefiar o órgão no estado. Santa Cruz, naquela ocasião, foi eleito para presidir a Caixa de Assistência dos Advogados do Rio de Janeiro (Caarj), cargo no qual ficou até ser eleito para suceder Damous, em 2012. Ele comandou a seção fluminense da OAB entre 2013 e 2018.

Diante do boato divulgado nos últimos dias, a OAB publicou um desmentido em sua página no Facebook, deixando claro que não é Felipe Santa Cruz na foto. “É importante reiterar que o compartilhamento de notícia falsa pode ocasionar sanções penais aos responsáveis pela propagação das mentiras, cabendo, inclusive, a obrigação de indenizar as vítimas da difamação”, adverte o órgão.

‘Trincheira comunista”

Outro boato envolvendo Felipe Santa Cruz, compartilhado no WhatsApp por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, afirma que a eleição dele representa a construção de uma “trincheira comunista” na OAB, “arquitetada pelo [ex-ministro] Zé Dirceu para atribuir um ar de ‘legalidade’ na guerra contra o governo”.

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O texto afirma ainda que o pai de Santa Cruz “foi guerrilheiro junto com a Dilma… Ele odeia o Presidente Bolsonaro, já tiveram vários embates”.

Reprodução WhatsApp/Reprodução

De fato, o pai do presidente da OAB, Fernando Santa Cruz, militou em organizações de esquerda durante a ditadura militar e desapareceu em março de 1974. Em função deste histórico, Felipe Santa Cruz teve embates públicos com Bolsonaro, que semeiam agora a paranoia a respeito de “trincheira comunista” e “guerrilha” contra o governo na OAB.

Em 2011, o então deputado federal disse em um evento da Universidade Federal Fluminense (UFF) que o pai de Santa Cruz “deve ter morrido bêbado em algum acidente de carnaval”. No livro Memória de uma Guerra Suja, o ex-delegado do Dops Cláudio Guerra afirma que o corpo de Fernando Santa Cruz foi queimado na Usina de Açúcar e Álcool Cambahyba, no município de Campos (RJ).

Em 2016, já na presidência da OAB do Rio de Janeiro, Felipe Santa Cruz pediu ao STF a cassação do mandato de deputado de Bolsonaro por ele ter homenageado o coronel e ex-chefe do DOI-Codi de São Paulo Carlos Brilhante Ustra, notório torturador, em seu voto na sessão da Câmara que analisou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

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