Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês
Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Projeto ‘país pária’ do Ernesto Araújo continua em marcha

Declarações de Bolsonaro e do chanceler, apoiando a invasão ao Capitólio, só contribuem para o isolamento internacional do Brasil

Por Matheus Leitão Atualizado em 13 jan 2021, 19h39 - Publicado em 13 jan 2021, 19h03

A violenta invasão ao Capitólio, e os posicionamentos do presidente Jair Bolsonaro e do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, serviram para consolidar o isolamento internacional do Brasil, dando mais um passo em direção ao “país pária”. Ao flertarem perigosamente com o apoio aos manifestantes de extrema-direita, o presidente e o chefe da diplomacia dão outro sinal de hostilidade ao governo americano que está começando.

Na visão do embaixador Paulo Roberto de Almeida, o Brasil está cada vez mais isolado, reflexo de uma política externa fracassada. “Neste momento, Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo estão sozinhos no mundo. Não têm mais diálogo com ninguém. Como o presidente insiste na sua loucura de confrontar a todos, o Ernesto Araújo segue atrás para se mostrar fiel. Creio que é uma coisa doentia, e profundamente psicológica. O Olavo [de Carvalho] continua xingando Joe Biden”.

O efeito dessa escolha pode ser muito perigoso para o país porque, neste momento, qualquer diplomacia consequente estaria tentando abrir alguma ponte com a nova administração, mas eles se agarram a Donald Trump, que está afundando. Trump está a 7 dias de deixar o cargo de presidente dos Estados Unidos e termina o mandato enfrentando um processo de impeachment. Nesta quinta-feira, 14, a Câmara começa a julgar o impedimento, que passou a contar com o apoio de congressistas republicanos. O processo deve prosseguir mesmo com o término de sua gestão.

Trump corre o risco de perder seus direitos políticos para sempre, conforme previsto na 14ª Emenda da Constituição americana. Citada no processo de impeachment, a legislação proíbe de ter cargo público qualquer pessoa que participou de insurreições ou rebeliões contra a Constituição. A desabilitação política  também será votada na Câmara e no Senado e, para ser aprovada, precisa apenas de maioria simples.

Enquanto isso, o Brasil mais uma vez se posiciona erroneamente, ao tomar partido de Trump, e não tentar uma aproximação junto ao presidente eleito Joe Biden. Ao justificar a invasão do Capitólio, Bolsonaro disse que foi por falta de confiança nos votos. Ainda subiu o tom e afirmou que algo pior pode acontecer no Brasil se o voto permanecer eletrônico em 2022.

Continua após a publicidade

Já o chanceler tentou colocar panos quentes, dizendo que é preciso distinguir o processo eleitoral da democracia. “Duvidar da idoneidade de um processo eleitoral não significa rejeitar a democracia. Ao contrário, uma democracia saudável requer, como condição essencial, a confiança da população na idoneidade do processo eleitoral”.

“Sozinhos no mundo”

Diante de todo o cenário, Paulo Roberto de Almeida analisa que o discurso de Ernesto Araújo durante a posse de novos diplomatas do Instituto Rio Branco, no fim do ano passado, no qual afirmou que era melhor ser um país pária do que se render ao “banquete no cinismo interesseiro dos globalistas, dos corruptos e semicorruptos”, foi uma forma de o chanceler justificar seu fracasso.

“Ernesto Araújo não tem um projeto. Aquele discurso na formatura foi uma espécie de faux pas, que revela o tremendo desconforto e pressão psicológica com todos os fracassos e crescente isolamento do Brasil. Nem europeus, nem chineses, os vizinhos regionais e os próprios americanos não querem saber de Bolsonaro e Ernesto. Ele está sozinho, no Itamaraty, no Brasil, na região e no mundo. Aquilo foi uma espécie de autojustificação para um fracasso”, destacou.

Infelizmente, a política externa equivocada de Ernesto Araújo já tem tido consequências. Na Europa, por exemplo, o presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu trabalhar contra a importação de soja brasileira para ajudar a reduzir o desmatamento na Amazônia. A chegada do governo Biden poderia ser uma oportunidade de reformulação dessa forma de fazer política, mas não é o que deve acontecer. 

Continua após a publicidade

Publicidade