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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Por que o golpe do Whatsapp funciona?

Roteirista Daniel Fraiha relata caso na família e analisa raízes das fraudes no Brasil

Por Matheus Leitão 18 out 2021, 09h30

Existem vários golpes do whatsapp, como a maioria das pessoas já sabe, que vão desde a clonagem de contas até o uso da foto da pessoa com um número de telefone falso, mas a grande pergunta que fica no ar é por que eles funcionam e continuam crescendo tanto?

Para se ter ideia, só no Rio de Janeiro, os golpes aplicados por estelionatários, que incluem os do whatsapp, mas passam por vários outros tipos, cresceram cerca de 55% entre o primeiro semestre de 2019 e o mesmo período de 2021, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP). A transformação digital intensificada com a pandemia e facilitada com o pix teve um impacto forte nesse boom e cada vez mais ouvem-se casos parecidos.

Na última semana, uma pessoa da minha família passou por um desses golpes e acabou transferindo dinheiro para um golpista por pix. Depois que ficou clara a fraude, começou uma correria para fazer boletim de ocorrência e em seguida falar com o banco digital (aquele com nome de jogada de Batalha Naval), em pleno feriado, para tentar reaver o dinheiro transferido para a conta de algum provável laranja do esquema. A atendente do banco fez o registro pelo telefone, deu o famoso número do protocolo e disse que encaminharia ao setor responsável. No dia seguinte, numa nova ligação, outra atendente informou que o saldo da conta do laranja, já bloqueada, estava zerado, mas que a resposta completa do banco viria em cinco dias úteis. Tempo suficiente para o golpista se mandar para qualquer lugar.

Se houvesse uma vontade real de cessar esse tipo de golpe, já tão comum, o banco poderia ter um setor específico para atuar com a urgência que essas situações demandam. Bloquearia a conta no minuto seguinte ao relato, verificaria outras contas que possam ter recebido novas transferências a partir dela e entregaria rápido para a polícia as informações de onde e que horas o dinheiro foi sacado, se já tivesse saído dos caixas. A polícia verificaria câmeras da região e aumentaria as chances de pegar os golpistas. Isso tudo num mundo ideal.

É claro que existem muitos crimes mais graves acontecendo o tempo todo e a capacidade da polícia é limitada. As vítimas de golpe de whatsapp provavelmente vão para o final da fila. É claro também que existem muitos alertas e informações disponíveis para as pessoas se precaverem contra esses golpes, mas a origem do termo estelionatário não é à toa. Vem da expressão grega _stellio_, um lagarto que muda de cor para iludir os insetos que pretende comer. A raiz mais simples de todos esses golpes é a capacidade dos golpistas de se camuflar, “virando” um familiar, um amigo ou qualquer pessoa do círculo de confiança da vítima.

Mas existe outro componente forte no Brasil que influencia bastante essa conta. A impunidade quase garantida. Isso não quer dizer que o Brasil prenda pouco. Pelo contrário. Prende muito, mas prende mal. O país é o 3º da lista global entre as nações com maior população carcerária em números absolutos, atrás apenas de EUA e China. Eram mais de 682 mil presos em maio deste ano, segundo dados do Monitor da Violência.

A grande maioria vai parar atrás das grades por crimes pequenos ou questões que nem deveriam ser consideradas crimes, revelando um caráter racista e desigual presente na estrutura da sociedade brasileira. Pretos e pobres são os alvos na maior parte das vezes, infelizmente.

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Um exemplo desse quadro absurdo aconteceu há poucos dias, quando a brasileira Rosângela Sibele foi presa por roubar dois pacotes de miojo, uma coca-cola e um suco em pó. Esfomeada e vítima de dependência química, deveria ser acolhida e cuidada, jamais presa. Ao dar entrevistas, ela disse uma frase dura e extremamente reveladora do Brasil de hoje: “meu grande sonho é ser gente”.

Enquanto vítimas da desigualdade brasileira são presas, os verdadeiros golpistas e criminosos ficam soltos. Executivos de planos de saúde que matam para agradar ao governo, políticos que praticam nepotismo às dezenas, figuras eleitas que enriquecem à base de rachadinhas e, principalmente, um presidente que faz de tudo para ganhar o título de maior genocida da história brasileira. São no máximo importunados por alguma tentativa de investigação, mas nunca algemados e punidos devidamente. Para os crimes de peso, não há punição séria.

Isso é grave por si só, mas gera um efeito em cascata. Todos os crimes que encontram brechas mais fáceis de serem burladas acabam atraindo mais e mais golpistas, inclusive para os golpes do whatsapp.

O espelho dos que mandam no país torna o reflexo tão corrompido quanto a própria imagem. Se esse quadro já era carcomido há décadas, ultimamente parece ter ganhado um traço de orgulho sobre a própria vilania. Já foram tantas as falas e ações nesse sentido, que nem vale a pena lembrá-las.

Mas vale citar um poema de Fernando Pessoa, publicado sobre o heterônimo Álvaro de Campos. O texto é bem mais profundo do que essa análise, vai no âmago da existência, mas há um verso que parece falar diretamente da origem de todos esses males: “Ser um abismo por simplesmente ser, / Por poder ser”.

Enquanto for permitido ao presidente e seus asseclas serem abismos, simplesmente por poderem ser, o país dificilmente encontrará um fundo para esse poço que virou. E os golpistas continuarão se multiplicando pelas beiradas.

O que precisamos é que mais brasileiros possam ter o mínimo para ser “gente”, como sonha Rosângela, e menos criminosos possam ser abismo.

*Daniel Fraiha é jornalista e roteirista, Mestre em Criação e Produção de Conteúdos Digitais pela UFRJ e sócio da Projéteis – Criação e Roteiro 

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