Clique e Assine por somente R$ 2,50/semana
Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Mundo depois da pandemia exigirá muito investimento em ciência

Economista e professora nos EUA, Monica de Bolle defende que o Brasil pesquise variante de Manaus e diz que o coronavírus precisará de combate constante

Por Matheus Leitão Atualizado em 11 fev 2021, 10h02 - Publicado em 9 fev 2021, 11h32

O Brasil está fazendo testes sobre a variante do coronavírus de Manaus apenas “in vitro”. Isso significa que o sangue de uma pessoa vacinada é comparado com a resposta à nova variante. Entretanto, o país tem condições de fazer a pesquisa “in vivo”. Ou seja, pegar as pessoas que estão desenvolvendo Covid-19, foram vacinadas e tentar descobrir qual é a variante.

“Isso exige esforço, sequenciamento do genoma, mas o Brasil tem condições de fazer”, segundo a economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute e diretora do Programa de Estudos Latino-americanos da Universidade de Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

E como será o mundo pós-Covid-19? Monica explica que a pandemia aguda vai acabar. Contudo, isso não significa que o mundo deixará de enfrentar uma pandemia crônica. O motivo? O vírus da Covid-19 não vai desaparecer.

“Nenhuma dessas vacinas é capaz de erradicá-lo porque essas vacinas não protegem contra a infecção. Elas só protegem contra a doença. O vírus continua tendo a capacidade de se replicar e, nessa capacidade de se replicar, enquanto aparecerem mutações aleatórias, algumas das quais vão conferir vantagens ao vírus, a gente vai ter o surgimento inevitável de novas variantes”, explica

Segundo ela, teremos uma espécie de corrida entre a atualização das vacinas e o aparecimento dessas novas variantes e é nesse cenário que o mundo inevitavelmente estará.

Isso não nos levará imediatamente à normalidade porque o mundo entrará numa fase em que a ciência continuará pesquisando para encontrar respostas para essas novas variantes.

“O vírus não vai desaparecer. As vacinas protegem contra a doença. O que a gente está enfrentando não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona”, diz Monica de Bolle. Por isso, o investimento em ciência continuará sendo cada vez mais importante. Leia abaixo os principais trechos da entrevista com a economista:

Veja – As vacinas estão sendo testadas no Brasil para a variante de Manaus ou não temos esse controle ainda, não dá pra saber?

Monica de Bolle – Feito está sendo. Laboratórios Brasil afora com capacidade de sequenciamento e identificação das variantes e, ao mesmo tempo, capacidade de fazer avaliação não só de pessoas potencialmente infectadas com a variante de Manaus. Para isso, você precisa de sequenciamento para saber com que variantes elas foram infectadas e como é que a vacina está reagindo, mas também para fazer a avaliação  in vitro – porque tem as duas maneiras de você fazer, a avaliação in vitro e a avaliação in vivo. Para as vacinas da Pfizer e da Moderna, por exemplo, quando elas testaram a eficácia perante todas as novas variantes, as variantes de interesse,   a avaliação que eles fizeram foi in vitro. O que eles fizeram foi pegar sangue das pessoas que haviam sido vacinadas e comparar a resposta com a nova variante e as variantes anteriores. Para cada uma das variantes, sem contar Manaus – eles não fizeram isso pra Manaus – foi in vitro, não foi in vivo. Já com Johnson & Johnson e com a Astrazeneca, também. Embora os resultados tenham sido extremamente parciais e não dê pra confiar neles ainda, esses resultados foram todos in vivo, foram com pessoas que haviam sido vacinadas que pegaram a variante da África do Sul, aí eles avaliaram a eficácia. Então, a Johnson & Johnson, naquela queda de eficácia de 66 para 57, foi porque eles desenharam um estudo específico para a variante da África do Sul, com gente, com pessoas. No Brasil, no momento, dadas as dificuldades todas que a gente tem, eu acho que estão sendo feitos dois trabalhos. Tem o trabalho in vitro, que é essencialmente você pegar a mesma coisa, pega o sangue das pessoas que foram vacinadas com a CoronaVac, com Astrazeneca, expõe o sangue vacinado à variante de Manaus e às variantes que estão circulando, e analisa a resposta imunogênica, resposta em termos de anticorpos neutralizantes e como eles se comportam, como fizeram a Pfizer e a Moderna.

Continua após a publicidade

Veja – Mas isso está acontecendo então?

Monica de Bolle – Isso está acontecendo. A outra parte que é mais difícil de se fazer no Brasil é a avaliação in vivo. É pegar as pessoas que estão desenvolvendo a Covid, foram vacinadas, tentar descobrir qual é a variante que elas têm porque isso exige um esforço de sequenciamento enorme. E a partir daí, tirar conclusões semelhantes às que Johnson & Johnson e a Astrazeneca e as outras, em alguma medida, conseguiram ter. Essa parte é mais difícil no Brasil. Tem essa diferença. O que a gente preferia saber sinceramente é in vivo, é nas pessoas. Porque in vitro às vezes pode te dar um resultado muito diferente de quando a vacina está dentro do corpo da pessoa. Agora, isso no Brasil vai ser um esforço grande. Vai demorar para ter esses resultados in vivo. Os resultados in vitro a gente até pode ter mais rapidamente e têm grupos trabalhando nisso. Agora, os resultados in vivo vão ser bem mais difíceis porque eles exigem uma capacidade de coleta e sequenciamento, que hoje a gente está tendo dificuldade de fazer.

Veja – E aquela notícia da África do Sul em relação à Astrazeneca. Dado que o Brasil só tem duas vacinas e tem essa grande esperança na da Oxford, o que esse estudo na África do Sul indica que a gente deva fazer por aqui na sua avaliação?

Monica de Bolle – Ele indica muito pouco porque esse estudo que saiu para Astrazeneca lá na verdade é um recorte do ensaio clínico da Astrazeneca na África do Sul, então ele não é exatamente um estudo novo.  Ele é um recorte que examinou um pouco mais de 740 voluntários, divididos em dois grupos, então foram mais ou menos 1.400 voluntários do grupo placebo e do grupo vacinado. O que eles olharam foi desse grupo, quantas pessoas haviam se infectado com a variante da África do Sul. Eles fizeram um sequenciamento para identificar exatamente com que variante a pessoa estava infectada. E dali, eles extraíram um grupo muito pequeno, de 39 pessoas infectadas com a variante da África do Sul. Eles olharam os números para ver quem estava no grupo placebo e quem estava no grupo da vacina. No grupo placebo você tinha 20 pessoas infectadas com a variante e no grupo vacinado você tinha 19 pessoas infectadas. A partir daí,  chegou-se a essa conclusão de que ‘opa, tem um problema, a vacina é pouco eficaz’.  Porém tem várias ressalvas aqui. Primeira ressalva: não foi um ensaio clínico desenhado para olhar especificamente a eficácia da vacina contra a variante da África do Sul. Número 01. Número 02: é uma amostra mínima. São 39 pessoas só. Número 03: o intervalo de confiança é enorme. Assim, o resultado não foi estatisticamente significativo. Então, na realidade, esse resultado divulgado ontem [domingo] tem que ser tomado com muito cuidado porque ele não revelou quase nada. O que ele indica  é que a vacina da Astrazeneca, assim como outras vacinas, tem uma resposta pior quando confrontada com a variante da África do Sul. Agora, quão pior com esse estudo daí não dá pra saber.

Veja – Então o recomendável seria fazer um estudo maior?

Monica de Bolle – Eles precisam fazer uma coisa muito maior e focada na identificação da eficácia para essa variante em particular. Eles não fizeram isso. Esse é um resultado extremamente parcial, e que alguns cientistas estrangeiros inclusive que tinham falado isso no Twitter até retiraram o que tinham dito porque não dá para dizer nada. A partir desse estudo não dá para dizer nada. A não ser isso, que uma coisa que já é constatada para todas as vacinas, que a variante VOC da África do Sul, ela tem uma capacidade de redução da eficácia dessas vacinas todas e se especula que a razão para isso sejam as mutações que essa variante tem, que permitem alguma evasão imune, algum escape imunológico. A partir disso, o que a gente pode mais ou menos dizer, mas sem nenhuma segurança ainda, é absolutamente especulativo, é que como a variante de Manaus, a P.1,  tem mutações semelhantes às mutações da VOC da África do Sul, talvez, isso é especulativo, mas  é possível que para as vacinas ela tenha uma espécie quadro parecido. Mas a gente ainda está aguardando a confirmação disso. A gente ainda não tem confirmação disso.

Veja – Como especialista, como você vê a questão desse pesadelo que a gente está passando? Ele está mais próximo do fim ou não estamos?

Monica de Bolle – O que é o fim? Eu acho que tem uma visão que as pessoas temem a se agarrar nela de que o fim é: a pandemia vai acabar. A pandemia aguda vai acabar. Agora, isso não significa que a gente não vai enfrentar um cenário de pandemia crônica porque esse vírus não vai desaparecer. Nenhuma dessas vacinas é capaz de erradicá-lo porque essas vacinas não protegem contra a infecção. Elas só protegem contra a doença. Então, o vírus continua tendo a capacidade de se replicar e nessa capacidade de se replicar, enquanto aparecerem mutações aleatórias, algumas das quais vão conferir vantagens ao vírus, a gente vai ter o surgimento inevitável de novas VOCs, isso vai acontecer. E aí a gente vai ter uma espécie de corrida entre a atualização das vacinas e o aparecimento dessas novas VOCs. É nesse cenário que a gente inevitavelmente vai estar. É um cenário mais controlado do que o cenário que a gente tem até agora porque era um cenário sem vacina. Nós teremos vacinas. O ponto é que  as vacinas provavelmente serão, em alguns casos, menos eficazes, então elas vão precisar ser atualizadas. A gente vai estar nessa corrida constante aí.

Veja – É uma maratona, né…

Monica de Bolle – É exatamente uma maratona.  A maneira de encarar o problema, esse problema que a gente está atravessando, que a gente está vivendo, é uma maratona, não é uma corrida de 100 metros rasos. Não é algo assim que acaba rápido, é realmente uma maratona e tem que ter aquele esforço e aquela paciência porque é longo o processo.  Para que as pessoas consigam entender, se tudo ocorrer bem com as vacinas agora, campanha de vacinação andar bem e tal,  não é um cenário que as pessoas vão ter que ficar trancadas dentro de casa para o resto da vida não. É um cenário em que sim, você pode ter alguma abertura da economia, alguma normalização da vida, enfim, uma porção de coisas.  Em algum momento a gente vai poder voltar às aulas – eu sei que esse assunto no momento está super controvertido no Brasil, principalmente com a circulação dessas variantes sem a gente saber o que elas fazem, voltar às aulas é complexo. Mas em algum momento a gente vai poder fazer tudo isso com segurança. Agora, a gente vai viver sem susto? Não, a gente não vai viver sem susto. E uma das coisas que o mundo inteiro, aí não é só o Brasil, precisa urgentemente fazer – isso está sendo discutido em círculos científicos diversos –  é investir muito em vigilância genômica porque a gente tem que ter uma capacidade muito maior do que a gente tem hoje  de identificar essas variantes e de saber rastrea-las. Onde é que elas estão aparecendo e para onde elas estão migrando, se elas são de fato variantes do vírus que vão tender a se tornar dominantes para avaliar o que fazer com as vacinas. Gostaria de poder te dizer outra coisa, mas a real é que essa. Acho que o quanto antes as pessoas perceberem que é dessa forma que as coisas vão funcionar melhor, até para elas poderem se adaptar a isso e sair desse pensamento quase mágico de que a pandemia tem data pra acabar. A pandemia não tem data pra acabar. É super importante que as pessoas se conscientizem disso. A vacinação não é uma bala de prata que acaba com o vírus. Não é.

Continua após a publicidade
Publicidade