Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês
Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Marília Mendonça: uma libertadora das mulheres

Teólogo Rodolfo Capler destaca o legado da cantora que conquistou o Brasil com suas músicas de empoderamento feminino

Por Rodolfo Capler 20 nov 2021, 14h10

O Brasil está em luto há 15 dias. Com a perda irreparável da cantora Marília Mendonça, uma geração de jovens entre 12 a 26 anos, perdeu não somente uma referência artística, como também uma espécie de totem geracional. Marília, nascida em 1995, era o protótipo da geração Z. Dona de uma voz de timbre forte, a cantora, através de suas canções, empoderou as meninas brasileiras. Marília incentivava o público feminino a superar relacionamentos abusivos e a assumir o protagonismo de suas vidas. Diante de multidões de meninas afetivamente traumatizadas, a “rainha da sofrência” as aconselhava a darem a volta por cima. “De mulher pra mulher: supera”, era um dos trechos mais cantados em seus shows. As suas letras eram verdadeiros gritos de libertação femininos. Frases como “Tô te mandando embora, melhor sair agora. Não vem me controlar!” e “Você chegou agora e tá querendo mandar em mim”, sintetizavam o desejo de autonomia das mulheres, que historicamente sempre foram oprimidas, preteridas e manipuladas pelos homens. Tais apelos em suas músicas talvez explique parte de seu grande sucesso entre o público feminino.

Marília surgiu numa cena musical dominada pelos homens, fugindo dos padrões de beleza estabelecidos pelo show business. Isso fazia dela uma artista outsider, o que atraia a atenção dos jovens e estabelecia com eles uma profunda conexão, visto que a geração z é a geração mais inclusiva da história, sendo pouco afeita a formalidades e tradições e muito sensível a causa LGBTQIA+ e ao feminismo.  Marília, ao lado de outros nomes do gênero sertenejo, como Maiara e Maraisa, Simone e Maraisa  e Naiara Azevedo,  estabeleceram um novo subgênero musical – o feminejo -, que independentemente de sua qualidade técnica e poética, comunica fortemente com o anseio de igualdade de gênero que norteia a geração z. 

A geração da Marilia Mendonça cada vez mais entende que homens e mulheres devem desempenhar os mesmos papéis na sociedade. Embora ainda prevaleça no Brasil um sistema de machismo cultural que inclui um ideal de gênero tradicional de dominação masculina e submissão feminina, entre a geração z está havendo uma mudança de padrão nesse sentido. A existência e o sucesso de Marília Mendonça são emblemáticos, de modo que a cantora que conquistou os corações de milhões de jovens brasileiros é fruto de seu próprio talento, mas também reflexo do “zeitgeist” (espírito do tempo).

Marília Mendonça se foi, mas deixou um legado que vai além de sua música. Ela quebrou paradigmas sociais e com o sentido de suas canções ajudou a colocar um tijolinho na construção de uma sociedade mais igualitária para as mulheres. Em outras palavras, Marília cantou para o Brasil que as mulheres existem e que desejam ser enxergadas e amancipadas. Essa foi a sua obra, para além de sua obra.

* Rodolfo Capler é teólogo, escritor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP

Continua após a publicidade

Publicidade