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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Manifestações contra Bolsonaro vivem dilema entre saúde e democracia

Presidente enfrenta passeatas, manifestos e ensaio de frente ampla no pior momento do seu governo, quando está acuado por investigações e pela crise atual

Por Matheus Leitão Atualizado em 8 jun 2020, 08h50 - Publicado em 7 jun 2020, 16h21

Pelo segundo domingo consecutivo, o presidente Jair Bolsonaro testemunhou protestos nas ruas contra o seu governo. Há um dilema entre opositores de Bolsonaro, nos partidos ou na sociedade civil: este é o pior momento para aglomerações, mas o governo escalou em sinais autoritários, se tornando inevitável a organização de uma resposta.  

O mais recente deles foi o de tentar manipular e sonegar os dados de contaminação e morte relacionados à Covid-19. O empresário Carlos Wizard, antes de assumir a Secretaria de Tecnologia do Ministério, já provocou revolta no país, especialmente dos secretários de Saúde Estaduais que fizeram um duro documento contra a ideia de “recontar os mortos”.

Bolsonaro estimulou as manifestações em favor do seu governo, e durante sete domingos consecutivos – oito se contarmos este dia 7 – elas foram realizadas e tiveram a participação do presidente e de alguns dos seus ministros. Esses protestos vieram com as mensagens contra a democracia, que saem de seus pronunciamentos e entrevistas. 

As faixas dessas manifestações sempre trouxeram dizeres contra o Congresso Nacional, contra o Supremo Tribunal Federal (STF), além dos pedidos de intervenção militar com Bolsonaro – todos inconstitucionais. O presidente nunca as repreendeu.

Agora, ele tem também oposição na rua. Mas a dúvida entre opositores continua sendo essa: ir ou não ir para passeatas em ambientes públicos? Vários partidos se manifestaram contra a ida, por razões ligadas à pandemia. Outros acham que este é o momento. Manifestos foram assinados por inúmeras personalidades. 

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Surgiram movimentos como o Somos70%, Basta!, TodosJuntos. Numa transmissão ao vivo na página do Direitos Já, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, disse que a frente ampla está se formando. Mas será possível recriar agora a  Frente Ampla como a que foi formada contra a ditadura militar?

A historiadora Heloisa Starling tem estudado a Frente Ampla de 1966, que reuniu adversários históricos como Juscelino Kubistchek, João Goulart e Carlos Lacerda. “Essa frente ampla foi um negócio extraordinário na história do Brasil porque ela consegue juntar não só a direita, ela reuniu o que havia de mais à direita no país, que era o Carlos Lacerda, golpista, com o bloco da esquerda. Isso é inacreditável”, afirma Heloisa Starling.

“Mas ela fez isso num momento, guardada às devidas proporções, em um momento de ascensão da ditadura. Pensa bem. A gente se esquece disso, quer dizer, esses caras foram pra rua, fizeram os primeiros comícios contra a ditadura depois do golpe, num momento de franca ascensão da ditadura”, lembra a historiadora.

“O significado da frente ampla era muito grande. Então as dificuldades são diferentes, por conta da pandemia, mas não quer dizer que não seja possível, que não se possa construir as formas de resistência”, explica Heloísa Starling.

Pelas faixas dos protestos em Brasília, ou do Largo da Batata, em São Paulo, ou do Centro do Rio, é possível ver muitas demandas ao mesmo tempo, próprio de movimentos difusos como esses. São contra o racismo, contra o fascismo, contra o governo Bolsonaro, contra o desmonte do Ministério da Saúde, mas muitas delas em favor da democracia.

O que se conclui deste segundo domingo de protestos é que a movimentação já incomoda o governo. Os oposicionistas voltaram às ruas, apesar dos riscos à saúde e das ameaças feitas pelo presidente e pelo vice-presidente de acusá-los de serem “terroristas” e “arruaceiros”. Mas, o movimento já cumpriu seu papel de lembrar aos bolsonaristas de que eles não estão sozinhos.

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