Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês
Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Inhotim, patrimônio da humanidade

O que torna o Instituto Inhotim um lugar único no mundo? Análise de Daniel Lança

Por Daniel Lança 6 out 2021, 10h37

Certa vez, Sir Norman Foster, um dos arquitetos mais renomados do mundo, pegou seu jato Gulfstream na Inglaterra rumo ao interior do Brasil. Designer-líder de projetos como o edifício 30 St Mary Axe ou a remodelação do Estádio Wembley, em Londres, e da Apple Park, em Cupertino, Sir Norman tinha um endereço certo: Brumadinho, Minas Gerais. Mais especificamente, o Instituto Inhotim.  

Ao caminhar pelos 140 hectares de jardins – alguns inspirados por Burle Marx – e visitar as dezenas de galerias de arte do parque, o arquiteto inglês se viu totalmente surpreendido Sobre o restaurante Oiticica, num dos complexos arquitetônicos do Inhotim, disse: “simple and elegant” – um elogio raro de quem talvez seja o maior arquiteto vivo na atualidade. De alma deleitada, seguiu de volta à Londres.

O que torna o Instituto Inhotim um lugar único capaz de atrair atenção de gente do mundo todo? 

Primeiramente, sua característica sui generis. O Inhotim é um museu de arte contemporânea como poucos no mundo. Seu acervo talvez seja o mais importante do mundo nessa linha curatorial, à frente de outras grandes instituições como o MoMA, em Nova Iorque, o Tate Modern em Londres, e o Guggenheim, em Bilbao. Abriga obras de grandes artistas como Yayoi Kusama, Chris Burden, Tunga, Matthew Barney, Cildo Meireles entre tantos outros. É respeitado e reverenciado em todo o mundo e um orgulho do nosso país. 

O Instituto Inhotim é ainda um jardim botânico que produz pesquisa, conservação de espécies e educação ambiental. Localizado numa região de mineração, pode-se dizer que o parque é um oásis de diversidade e beleza que se torna referência em proteção ambiental. Seus laboratórios e estufas têm a nobre função de mapear, coletar e multiplicar sementes de espécies diversas – da Mata Atlântica e do Cerrado – com o objetivo de privilegiar a restauração de sistemas degradados e de manutenção de serviços ecossistêmicos.

Essa mistura de arte contemporânea a céu aberto e jardim botânico é absolutamente única no mundo e tem uma razão de ser: Bernardo Paz. O mecenas mineiro em nada se assemelha à elite tradicional brasileira; ele sonha o Inhotim com uma capacidade visionária singular e repleto de uma excentricidade cativante. Esse legado é fruto de um altruísmo ímpar do filantropo mineiro, que transformou quase toda a sua riqueza pessoal em arte e beleza como um verdadeiro patrimônio doado à humanidade.

Quando olhamos para o futuro, é possível dizer que os novos desafios do Inhotim estão certamente encampados nas letras do acrônimo ESG (do inglês ambiental, social e governança). Diferentemente de museus semelhantes redor do globo, o Inhotim não é um museu para super ricos, mas tem forte impacto social e ambiental, sobretudo na comunidade de Brumadinho onde está inserido – sua principal parte interessada. Com isso, vem fortalecendo sua governança corporativa com base em melhores práticas internacionais para viabilizar sustentabilidade a longo prazo.

Na data em que completa 15 anos de abertura ao público, o Inhotim – referência internacional em artes, meio ambiente e responsabilidade social – é sem dúvida um patrimônio da humanidade. Se ainda não formalizada pela UNESCO (poderá sê-lo, se quiser), certamente já é um tesouro mundialmente singular em solo mineiro. O legado de Bernardo Paz ficará para a posteridade. Vida longa ao Instituto Inhotim, patrimônio da humanidade.

Daniel Lança é advogado, Mestre em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade de Lisboa e Compliance Officer do Instituto Inhotim. É Professor convidado da Fundação Dom Cabral (FDC).

Continua após a publicidade

Publicidade