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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Funai determina fim da expedição ao Vale do Javari

Após recomendação do MPF para que grupo cumprisse quarentena, Fundação determina que missionário da área de Índios Isolados aborte a missão

Por Matheus Leitão - Atualizado em 2 set 2020, 17h52 - Publicado em 2 set 2020, 17h44

A alta cúpula da Fundação Nacional do Índio (Funai) determinou o encerramento imediato da expedição à Terra Indígena do Vale do Javari, encabeçada pelo Coordenador-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, o missionário Ricardo Dias Lopes. A região tem o maior número de povos isolados do mundo.

Conforme informou a coluna no último sábado, 29, uma comitiva da coordenação se dirigiu ao território no dia 27 de agosto sem seguir o cumprimento de quarentena – condição essencial para que qualquer grupo de trabalho se aproxime dos povos originários durante a pandemia.

Informações de bastidores dão conta de que, no Ministério da Defesa, o clima é de indignação com a Funai pela condução atabalhoada da missão, tendo em vista a falta de preparo para ingressar em um local delicado, além dos custos para o erário.

O Ministério Público Federal (MPF) também foi contrário à expedição e chegou a emitir uma recomendação para que a Funai se abstivesse imediatamente de entrar com qualquer comitiva ou servidor no Vale do Javari sem a realização da quarentena.

No documento, o MPF alegou ainda que órgãos indigenistas não foram informados, assim como os locais a serem visitados pela comitiva, nem o plano de trabalho ou integrantes da equipe.  Ao todo, o MPF fez 13 recomendações à Funai.

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O grupo, composto por seis pessoas, se reuniu com integrantes da Frente de Proteção Vale do Javari, Exército e Polícia Federal, e tinha em sua meta a visita a locais no interior “da terra indígena, inclusive as bases de proteção onde estão profissionais que lidam diretamente com indígenas de recente contato”.

O problema é que nessas mesmas bases se encontram os profissionais que irão substituir os colegas em trânsito, cumprindo “rigorosas regras de quarentena e desinfecção, conforme acordo entre entidades locais, recomendação do MPF e planejamento da FPEVJ”, diz o MPF.

Ou seja, a chegada de uma comitiva sem obedecer a exigência da quarentena colocou em risco tanto a equipe que já está lá, quanto os povos indígenas, extremamente vulneráveis a doenças.

Sobre essa expedição, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava) enviou ao Ministério Público um ofício manifestando indignação e sua extrema preocupação com os povos indígenas da região. 

No documento, a instituição afirma que só tomou conhecimento da comitiva na sexta, 28, em uma reunião com Ricardo Lopes Dias, em que ele próprio informou seu deslocamento.  Eles também afirmam que a própria equipe da área de índios isolados da Funai no Vale do Javari não sabia da expedição em meio à pandemia e em busca de contato com os povos mais frágeis diante do coronavírus.

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